Manifestantes aproveitam calmaria em cidade da Síria

Zabadani, conhecida como uma cidade turística, tem chamado atenção por ser um reduto inesperado dos opositores ao regime de Assad

The New York Times |

A pequena cidade de Zabadani, construída ao lado de uma montanha rochosa e conhecida por suas árvores frutíferas e pelos turistas que frequentam a região no verão, ficou ainda mais famosa recentemente: por ser tornar um reduto de adversários do presidente Bashar al-Assad .

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AP
Manifestantes contrários ao regime de Assad protestam em Zabadani, Síria (17/1)

Não está exatamente claro como isso aconteceu, mas na semana passada o Exército sírio retirou seus tanques e veículos blindados da cidade, que fica a 32 quilômetros de Damasco, perto da fronteira libanesa. Líderes locais disseram que a retirada ocorreu após uma feroz resistência dos soldados que haviam desertado, seguido por uma trégua rara feita com o Exército.

Agora, a presença do governo se limita a alguns edifícios na orla da cidade. Comitês locais gerenciam os negócios do dia-a-dia, enquanto os desertores protegem a cidade. Protestos anti-governo são realizados em uma praça central regularmente , e os dissidentes libertados andam pela cidade, dizendo que já não sentem medo dos bandidos do governo que visitavam-na regularmente.

Algumas lojas abriram pela primeira vez nas últimas semanas, no sábado, aproveitando a tranquilidade que se devia a uma delegação de observadores da Liga Árabe presentes na cidade.

Mas ninguém da região espera que o governo irá simplesmente abandonar esta cidade de 40 mil pessoas. Moradores da região falam da independência de Zabadani como uma pausa, ao invés de um sinal que possa indicar um passo adiante na luta contra o governo. Na verdade, a presença de combatentes da resistência na região pode ser um sinal de que uma fase mais violenta esta por vir.

A cidade mostra sinais de um esforço de defesa coordenado. As ruas estão cheias de montes de terra e blocos de pedra destinados a bloquear a passagem de tanques. Homens com walkie-talkies trabalham como vigias nas ruas. Durante a visita dos observadores da Liga Árabe, no sábado, os homens armados se mantiveram escondidos.

Em meio aos rumores de que o governo está reunindo forças nos arredores de Zabadani, líderes das milícias locais afirmaram que um número crescente de moradores estão se juntando a um grupo de soldados que desertaram, alguns dos quais dizem ser parte do Exército da Síria Livre, uma milícia de desertores que tem seu quartel general na Túrquia.

Mahmoud Eissa, um ex-tenente da cidade de Madaya, que é vizinha de Zabadani e também se considera independente, disse que os comandantes locais levaram cerca de 100 soldados que estavam desertando de ambas as cidades. Eissa disse que também tinha "ligações" com os desertores na Turquia, mas disse que os combatentes locais em sua cidade respondem a um conselho militar de ex-soldados e civis.

Os líderes da milícia turca disseram que dão ordens aos combatentes de dentro da Síria, embora haja evidência de grupos que estão atacando por conta própria.

Uma agência de notícias estatal e grupos ativistas disseram que um ataque a um ônibus da polícia, possivelmente usando bombas de beira de estrada, matou pelo menos 14 prisioneiros que estavam sendo transferidos. De acordo com relatos da agência, ambulâncias que atenderam aos feridos no local do ataque também acabaram sendo atacadas. Ninguém reivindicou a responsabilidade pelos ataques, e por isso não ficou claro se os culpados foram os desertores ou algum outro grupo.

O papel dos desertores armados tem ganhado mais importância, com ataques, assassinatos e sequestros, que às vezes se sobrepõem às manifestações. Ao mesmo tempo, muitos manifestantes defendem os desertores, afirmando que eles são gratos pela proteção recebida contra um governo que recorreu à violência contra opositores pacíficos.

Em setembro, alguns dos soldados em Zabadani disseram que mudaram de lado por conta de um ataque do Exército que durou três dias e fez com que os moradores fugissem da cidade para se esconder nas montanhas.

Dentro dos que mudaram de lado, estavam dois amigos do mesmo batalhão, que disseram que tinham fugido porque seus comandantes tinham mentido para eles afirmando que iriam encontrar terroristas em Zabadani. "Só encontramos civis", disse um homem que usou um pseudônimo, Abu Qusay.

Seu amigo, Abu Saad, acrescentou: "Nada foi como disseram que seria." Ele disse que seu trabalho agora é proteger os manifestantes.

Ambos os homens, que esconderam seus rostos enquanto conversavam com repórteres, disseram que escaparam apenas com seus rifles do Exército. Existem também sinais de que os desertores têm armas mais pesadas e que recentemente afirmaram ter destruído um tanque do Exército.

Os líderes rebeldes na cidade falam com orgulho a respeito do que dizem ser um movimento que busca defender as casas e fazendas dos moradores da região. Emad Dalati, líder de uma manifestação local, disse que foi uma das primeiras pessoas presas na cidade após o levante que teve início em março, e falou sobre os líderes da oposição que vivem atualmente fora do país.

"Eles não sabem nada", disse. "Se você vive fora de sua casa, como consegue saber realmente o que está acontecendo lá dentro?"

A trégua ocorreu após seis dias de intensos combates dentro da cidade , resultado de negociações entre os líderes de Zabadani e o general major Assef Shawkat, cunhado do presidente, de acordo com Amer Burhan, um membro do conselho local. Ele disse que o conselho estava administrando os hospitais e enviando voluntários para recolher o lixo.

As tropas do governo circundam a cidade, mas permanecem afastadas por enquanto, disse, talvez por causa das inúmeras visitas de observadores da Liga Árabe. "Nós ainda estamos sitiados", disse Burhan.

A sensação de estarem sitiados era presente na praça Jisr, onde os manifestantes se reuniram em torno de uma árvore na qual penduraram fotografias de moradores que foram mortos. Os manifestantes solicitavam a queda do governo, mas também pediam por um país mais unido, em um apelo para impedir que Zabadani tenha o mesmo destino que outras cidades sírias, como Homs, onde assassinatos sectários predominaram durante as manifestações civis."Zabadiya. Zabidya. Druse, Allawite, o Islã e os cristãos!", gritavam.

Os observadores da Liga Árabe visitaram um apartamento que havia sido destruído por um projétil de artilharia, uma entrada de automóveis com um uma grande quantia de munição gasta e um restaurante em uma colina, onde os moradores apontaram para um ninho de atiradores de elite do governo e para os rastros de tanques na terra vermelha.

Um dos observadores, ao entrar em uma Mercedes blindada para sua viagem de volta a Damasco, disse estar confiante à respeito do papel da missão de dissuasão, afirmando que o Exército, "não irá voltar nessa região." Logo depois, um pouco mais hesitante, ele acrescentou: "Eu vou fazer o possível para que não voltem."

Por Kareem Fahim

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