Loja de bebidas remete a velhos tempos e causa polêmica em bairro de NY

Após renovação de Harlem, moradores desaprovam construção de estabelecimento temendo retorno de uma aparência negativa

The New York Times |

Muitos vizinhos concordam que em seu enclave de prédios de tijolos expostos localizado no coração do Harlem, bairro de Nova York, existe a necessidade de uma loja onde eles poderiam comprar, digamos, um bom vinho para acompanhar um jantar. Mas a loja de bebidas que está para abrir na Avenida Lenox perto da Rua 119 não é bem o que eles tinham em mente.

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Exterior de loja de bebidas que seria inaugurada em Mount Morris, distrito de Harlem em Nova York

Com seu portão de aço retrátil à prova de balas para se proteger contra ladrões e bêbados e seu neon vermelho e amarelo, a loja é um retrocesso ao antigo Harlem que estava caindo aos pedaços, dizem alguns vizinhos, e não condiz com o Harlem que vem se renovando desde o século passado.

"Queremos ser o equivalente de Park Slope, com charmosas lojinhas que as pessoas possam visitar", disse Ruthann Richert, uma moradora de longa data que também é tesoureira de um grupo local, a Associação Comunitária Parque Mount Morris. "Uma loja como essa irá atrair apenas pessoas que queiram ficar bebendo na rua, então se você quer comprar uma garrafa de vinho de US$ 30 certamente não irá entrar ali."

Laurent Delly, um engenheiro haitiano, agente imobiliário e vice-presidente da associação, ficou especialmente descontente com a placa de neon da loja. "Eu não usaria a palavra gueto, mas eu diria que é um pouco berrante", disse ele.

A associação fez com que o Departamento de Zoneamento de Nova York interrompesse as obras da loja de bebidas, principalmente porque o proprietário não obteve permissão da Comissão de Preservação de Marcos Históricos para alterar a aparência de um edifício que faz parte do Distrito Histórico de Mount Morris.

Ainda assim, o advento da loja de bebidas apenas solidificou as tensões existentes em um bairro em metamorfose. Quase todos os prédios que na década de 1980 foram abandonados ou os que pertenciam à prefeitura agora estão valendo o equivalente a US$ 3 milhões, com condomínios de cerca de US$ 1 milhão.

Entre os moradores estão a poetisa Maya Angelou e o cineasta Albert Maysles.

Cafés, floriculturas, lojas de brinquedos e restaurantes finos como o Settepani, onde o ex-presidente Bill Clinton (1993 - 2001) fez sua festa de aniversário, estão tomando conta de espaços que antigamente estavam abandonados. A taxa de criminalidade da Delegacia do Distrito 28 caiu 70% em menos de duas décadas - com seis assassinatos em 2010 em comparação a 41 em 1990.

Mas o que os moradores chamam do segundo renascimento de Harlem fez com que o bairro se tornasse menos agradável para os moradores mais pobres que preferem uma loja de bebidas mais em conta, uma bodega que aceite vale-refeição ou um lugar para trocar o cheque de suas pensões.

"Eu não vejo um problema na bebida", disse Galo Pickering, um trabalhador da construção civil desempregado de 65 anos de idade que estava à toa, com três outros homens, ao lado da loja de bebidas. "Eles estão expulsando as pessoas menos privilegiadas da área."

Uma mulher que mora em um dos prédios renovados e que pediu para não ser identificada teme que a campanha contra a loja de bebidas possa ganhar um certo "tom elitista."

No entanto, outros argumentam que eles ganharam o direito de lutar por um bairro charmoso sendo seus pioneiros quando grande parte da área estava largada e atormentada pelo crack e a violência.

"Eu sinto que eu mereci meu espaço", disse Leah Abraham, uma imigrante da Etiópia que abriu o restaurante Settepani com seu marido, Nino Settepani, dez anos atrás e se mudou para um dos prédios no centro de Harlem fazem cinco anos. "Eu fui assaltada à mão armada duas vezes. Eu acredito fortemente que eu estou fazendo mais para a comunidade."

A luta, por vezes, tem uma certa tensão racial e entre classes sociais, já que o renascimento do bairro tem atraído um fluxo de profissionais brancos e negros e a partida dos negros menos privilegiados.

Berihu Mesfin, o proprietário da loja de bebidas, disse que o proprietário do imóvel autorizou o uso da placa de neon, que disse ser semelhante a de um salão de beleza que funcionava no mesmo local. Ele também disse que tinha sido aconselhado a colocar grades de segurança. Mesfin afirmou que está disposto a fazer algumas mudanças para agradar os vizinhos, mas mencionou que já gastou US$ 3,5 mil apenas com a placa. "É caro", diss. "Eu tenho que falar com a gerência."

O bairro histórico se estende por 16 quarteirões, da Rua 118 até a Rua 124 , atingindo todo o lado oeste da Avenida Lenox quase até a 5ª Avenida. Sua coleção de arquitetura da Era Dourada e Igrejas Românicas são consideradas entre as mais grandiosas da cidade - o próprio parque foi rebatizado Marcus Garvey em 1973, em homenagem ao líder nacionalista negro.

Quando Richert mudou-se para o Harlem em 1987, muitos dos edifícios estavam abandonados e ela se lembra de chutar cachimbos de crack para o lado enquanto caminhava com seus dois filhos.

Tudo isso mudou com o aumento de investimentos e o fluxo constante de recém-chegados contentes em comprar apartamentos na região por US$ 250 mil. O revigorado bairro de Mount Morris se tornou um local de visita para passeios turísticos e locais de filmagem. Com suas calçadas largas, a Avenida Lenox , também conhecida como Boulevard Malcolm X, retomou novamente a fama de ser "a nossa Champs-Elysee", disse Delly.

A Avenida Lenox ainda tem mercearias antigas, mas os membros do associação veem a loja de bebidas como uma recém-chegada impetuosa que deve obedecer a novas regras não escritas. "Não é da loja em si que discordamos e sim da estética dela", disse Richert.

Abrahan disse que o proprietário da loja de bebidas pensou que ele estava fazendo o bem em abrir a loja. "Eu não discordo dele," disse. "Mas ele não analisou direito o bairro. Ele poderia ter se dado bem com esta proposta 20 anos atrás, mas ela não funciona nos dias de hoje. "

Por Joseph Berger

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