Lobistas ganham espaço na campanha de Romney

Enquanto diz combater interesses de Washington, pré-candidato recebe ajuda de alguns dos principais lobistas da cidade

The New York Times |

Eles organizaram eventos e arrecadaram milhões de dólares para sua campanha. Eles empregaram alguns de seus principais agentes após sua primeira disputa pela Casa Branca e ajudaram a criar a plataforma para a sua segunda tentativa.

Para um candidato que está indo contra alguns interesses de Washington, Mitt Romney tem um bom número de lobistas a seu lado.

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Convidados para evento de arrecadação para campanha de Romney sobem escada rolante em hotel de Washington (09/02)

Seu gabinete inclui alguns dos lobistas republicanos mais proeminentes na capital americana, incluindo Charles R. Black Jr., presidente do Grupo Prime de Política e lobista do Wal-Mart e da AT &T; Wayne L. Berman, presidente de Relações Governamentais da Ogilvy que representa a Pfizer, uma fabricante de medicamentos; e Vin Weber, sócio-presidente da Clark & Weinstock.

Pelo menos 294 lobistas registrados doaram um total de US$ 401 mil para Romney até o final de 2011, de acordo com uma nova análise feita pelo The New York Times dos registros divulgado pelo governo federal. Um grupo de 16 lobistas de uma elite que representa interesses tão variados quanto Wall Street, a Microsoft e a companhia de tabaco Altria, reuniu mais de US$2 milhões em cheques de amigos e parceiros de negócios para a campanha de Romney.

Outros lobistas trabalham em uma das equipes de consultoria política de Romney, já organizaram eventos para doar fundos para sua campanha ou se juntaram aos muitos republicanos influentes que tem ajudado na campanha. Entre eles estão David Wilkins, ex-embaixador dos Estados Unidos no Canadá, que faz lobby para a indústria petrolífera canadense, e Stephen Rademaker, ex-oficial do Departamento de Estado, que faz lobby para a empresa fornecedora de defesa General Dynamics.

Muitos dos lobistas que estão aconselhando Romney, como Black e Berman, são veteranos de outras campanhas presidenciais republicanas, inclusive a do senador John McCain há quatro anos.

"São pessoas que fizeram uma carreira na intersecção entre a política e as campanhas presidenciais", disse David A. Donnelly, diretor executivo do Public Campaign Action Fund, que defende o financiamento público das eleições e acompanha as contribuições feitas para as campanhas. "Se Mitt Romney depender dessas pessoas e ele for eleito, significa que terão mais quatro anos de negócios garantidos em Washington."

Um porta-voz de Romney não respondeu aos pedidos para que comentasse o assunto.

Em uma época na qual as empresas lobistas de Washington servem como plataforma para agentes políticos e como um local de trabalho para parlamentares aposentados de ambos os partidos, a profusão de lobistas em torno da campanha de Romney em parte reflete a aprovação cada vez maior de sua candidatura por parte dos republicanos, incluindo a maior parte da elite de doadores do partido e dezenas de membros do Congresso.

"Existem pessoas em Washington que respeitam, gostam dele e confiam em Romney", disse Ron Kaufman, que até o ano passado era conselheiro sênior para a empresa de relações públicas Dutko Grayling e agora muitas vezes viaja com o pré-candidato em sua campanha. "Não há dúvida disso. Mas não significa que Romney seja um deles - e isso não irá afetar a maneira com que ele irá governar o país."

Outros candidatos republicanos também contam com lobistas como seus conselheiros e doadores. E enquanto o presidente Barack Obama não aceita contribuições de lobistas registrados para sua campanha, pelo menos 15 de seus partidários trabalham no lobby de lojas ou empresas de consultoria em Washington, mas ainda não se registraram oficialmente como lobistas no Senado. Eles conseguiram arrecadar mais de US$ 5 milhões para a campanha de Obama no mês de setembro.

No entanto, enquanto Romney busca ressaltar sua carreira como empresário e ataca seus principais rivais republicanos como "seres de Washington”, o contraste entre a sua mensagem antisistema e o número de lobistas que o ajudam em sua campanha pode ser chocante.

Ao falar com jornalistas após a vitória de Rick Santorum nas prévias do Colorado, Minnesota e Missouri , o estrategista sênior de Romney, Stuart Stevens, comentou: "Não acho que este seja um momento no qual as pessoas estejam voltando sua atenção para Washington para resolver seus problemas."

Menos de 48 horas depois a campanha de Romney realizou um elaborado evento parecido com uma “mesa redonda política” para arrecadar fundos em um hotel de Washington, com painéis de discussões administrados por lobistas, oficiais do gabinete e ex-membros do Congresso.

James Talent, um ex-senador dos Estados Unidos que faz o lobby e relações públicas pela empresa Mercury Public Affairs, foi convidado para mediar uma mesa sobre infraestrutura. William Hansen, ex-secretário adjunto da educação, que é presidente da empresa de lobby Chartwell Education Group, mediou a mesa sobre educação.

O preço para participar do evento: a promessa de arrecadar US$ 10 mil para a campanha de Romney. Uma foto com Romney custava cerca de US$ 2,5 mil e um convite para uma recepção geral no final da tarde estava valendo US$ 1 mil.

Um convite para o evento indicou "sete cadeiras da indústria" que ajudam a financiar a campanha de Romney. Nelas estão Thomas F. Farrell 2º, o presidente da empresa de energia Dominion e um dos presidentes para o departamento de financiamento de energia de Romney; Brett McMahon, um executivo de uma das principais empresas de concreto do país e presidente do departamento de financiamento de infraestrutura; e Patrick Durkin, um executivo da Barclays Capital que é um dos principais lobistas de Romney e presidente de finanças do setor financeiro. O evento atraiu centenas de apoiadores, muitos deles lobistas, e arrecadou mais de US$ 1 milhão para a campanha.

Enquanto o posicionamento geral de Romney a respeito de regulamentação financeira, impostos, energia e outras questões é compartilhado por outros candidatos republicanos, ele muitas vezes também se sobrepõe aos interesses dos clientes de seus assessores.

John M. Herrmann 2º, co-presidente do grupo de conselho de comércio de Romney, é um lobista da Allegheny, um dos maiores produtores siderúrgicos do país, cujos produtos têm aparecido em processos do setor de comércio dos Estados Unidos contra a China. A plataforma de Romney exige uma postura mais agressiva em relação ao comércio com o país e pede mais "medidas punitivas para dissuadir as práticas desleais cometidas pelos chineses”.

A empresa de Talent representa uma das maiores produtoras de carvão do país, a Peabody Energy. Essa conexão não é divulgada no comentário de que a empresa contribuiu para a plataforma de energia de Romney, que pede para aumentar a produção de carvão e petróleo e que visa alterar a Lei do Ar Limpo excluindo o dióxido de carbono da regulamentação ambiental.

Vários doadores de Romney, incluindo pelo menos quatro de seus “lobistas”, têm feito lobby para empresas financeiras que estão sob a Lei Dodd-Frank, que apertou ainda mais as regulamentações em Wall Street. Romney solicitou que a lei fosse revogada.

Berman também faz parte desse grupo, que representa a empresa Blackstone Group de fundos de investimento. O fundador da Blackstone, Stephen A. Schwarzman, co-organizou eventos importantes para Romney em Nova York e Palm Beach, na Flórida, e os funcionários da Blackstone doaram pelo menos US$86.850 para Romney no ano passado.

Weber começou a aconselhar Romney sobre política externa em agosto. Ele é um lobista para o Conselho de Relações com o Paquistão, que tem ajudado a proteger os auxílios dados ao país pelos Estados Unidos conforme as relações bilaterais pioram.

Em um debate em novembro Romney disse que os Estados Unidos queriam "trazer o Paquistão para o século 21" para ajudar o país a "se envolver com o mundo todo no comércio e na modernidade”.

Em uma entrevista, Weber disse que participou regularmente das discussões das políticas da campanha, mas "nunca falou com Romney ou qualquer pessoa da campanha sobre o Paquistão."

Ele sugeriu que os lobistas em Washington – muitos deles com grande experiência no Poder Executivo, em campanhas ou em Capitol Hill – irão continuar sendo uma importante fonte de conselhos para os candidatos.

"No final do dia, esta é a capital", disse Weber. "Se você quer ir a algum lugar para encontrar especialistas, eles provavelmente estarão em Washington. E é por isso que os candidatos nos procuram - alguns um pouco menos, outros um pouco mais ".

Por Nicholas Confessore

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