Livro e filme sobre língua indígena rara desperta controvérsias

Linguistas criticam obra de Dan Everett sobre a tribo piraha, isolados caçadores da Amazônia que visitou

The New York Times |

Em seu livro de memórias de 2008, "Don’t Sleep, There Are Snakes" (Não Durma, Pois Há Cobras, em tradução livre), o linguista Dan Everett se lembrou da noite em que os membros da tribo piraha - os isolados caçadores da Amazônia que visitou pela primeira vez como missionário cristão na década de 1970 - tentaram matá-lo .

Everett sobreviveu e sua vida entre os pirahas, grupo de centenas de pessoas que habitam o noroeste do Brasil, se tornou pacífica e ele se estabeleceu como uma das maiores autoridades acadêmicas sobre o grupo e uma das poucas pessoas de fora da tribo a dominar sua difícil língua.

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Sua vida entre os seus colegas linguistas, no entanto, tem sido bem menos idílica, e um debate sobre sua credibilidade acadêmica está prestes a ser retomado graças a seu novo e ambicioso livro “Language: The Cultural Tool" (Idioma: A Ferramenta cultural, em tradução livre), e um documentário para televisão que apresenta um de seus admiráveis pontos de vista a respeito de sua pesquisa entre os piraha juntamente com o ponto de vista mais sombrio de alguns de seus críticos.

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Dan Everett na região da Amazônia onde vivem os piraha, em 1981
Em 2005, Everett ganhou reconhecimento internacional quando publicou um relatório dizendo que havia identificado algumas características peculiares da língua piraha que desafiavam a influente teoria de Noam Chomsky, proposta na década de 50, de que a linguagem humana é regida pela "gramática universal", uma capacidade geneticamente determinada que impõe o mesmo formato fundamental em todas as línguas do mundo.

O estudo, publicado na revista Current Anthropology, transformou-o em uma espécie de herói popular e ao mesmo tempo criou uma certa controvérsia em sua carreira, com ele sendo retratado pela imprensa como o estudioso que derrubou o poderoso Chomsky e denunciado por alguns colegas linguistas como uma fraude, que busca apenas atenção, ou pior, alguém que procura promover ideias dúbias sobre um grupo indígena ingênuo enquanto se recusa a liberar seus dados para análise.

Em uma entrevista por telefone Everett, 60 anos, que é o decano do departamento de artes e ciências da Universidade de Bentley em Waltham, Massachusetts, insistiu que não está tentando comprar uma nova briga e muito menos apresentar-se como um rival para o homem que chama de "a pessoa mais inteligente que eu já conheci. "

"Sou peixe pequeno", disse ele, acrescentando: "Em nenhum momento eu me coloquei no mesmo patamar que Chomsky."

Trabalho

Em um muito citado trabalho escrito por Chomsky em 2002, professor emérito de linguística no MIT, com o auxílio de Marc D. Hauser e W. Tecumseh Fitch, declarou que a recursividade (propriedade de linguagem que permite aos falantes para incorporar frases dentro de frase) era o elemento crucial da gramática universal e a única coisa que separa a linguagem humana de seus precursores evolutivos.

Mas Everett, que havia publicado diversos trabalhos sobre os piraha durante duas décadas, anunciou em seu artigo de 2005 que a língua deles carecia de recursividade, juntamente com os termos para descrever cores, números e outras propriedades comuns da nossa linguagem. Os piraha, Everett escreveu, demonstram essas lacunas linguísticas não porque têm um pensamento menos evoluído, mas porque a sua cultura - que enfatiza questões concretas do presente, não possui mitos que falem da criação e não compartilham de tradições de criar arte - não as exigem.

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Integrantes da tribo piraha, donos de uma língua rara, na Amazônia
Em 2009, os linguistas Andrew Nevins, Cilene Rodrigues e David Pesetsky, três dos mais ferozes críticos do primeiro artigo de Everett, fizeram sua própria publicação no jornal Language, contestando as pretensões linguísticas de Everett e expressando um certo "desconforto" com seu relato sobre a suposta cultura simples da tribo piraha. Sua principal fonte foi o material escrito pelo próprio Everett, cuja tese de doutorado de 1982, eles argumentaram, mostrou evidências claras de recursão por parte dos piraha.

"Ele estava certo da primeira vez", disse Pesetsky, um professor do MIT. "A primeira vez que fez sua pesquisa ele tinha motivos. A segunda vez ele já não tinha nenhum motivo por trás de suas pesquisas".

A análise deles, apresentada na reunião anual da Sociedade Linguística dos Estados Unidos em janeiro, não encontrou cláusulas embutidas, mas chegou a descobrir "evidências sugestivas" de recursividade. É um resultado pouco satisfatório para Everett, que o questiona constantemente. Mas seus críticos, estranhamente, também não parecem satisfeitos.

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Pesetsky rejeitou todo o esforço como sendo tendencioso desde o início por sua dependência em classificações gramaticais feitas por Everett e suas suposições básicas. "Eles superestimaram a correção da hipótese que eles mesmos estavam tentando refutar", disse.

Os críticos de Everett o culpam por ele não querer liberar seus dados de sua pesquisa de campo, mesmo sete anos após o surgimento da polêmica. Ele respondeu que está atualmente trabalhando para traduzir todo seu material e espera poder publicar algumas de suas transcrições na internet "ao longo dos próximos meses."

Sua maior indignação, ele disse, é o fato de como alguns outros estudiosos o acusaram de ter feito uma “pesquisa racista" e de interferirem com seu acesso a tribo dos Piraha.

Independentemente das razões pelas quais ele teve o seu acesso negado, ele está contando com a ajuda dos próprio piraha, que são mostrados ao final do documentário “The Grammar of Happiness” (A Gramática da Felicidade, em tradução literal), no qual gravaram um apelo emocional para o governo brasileiro.

"Nós amamos Dan", um homem diz para a câmera. "Dan fala a nossa língua."

*Por Jennifer Schuessler

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