Livro conta detalhes sobre vida amorosa de muçulmanas dos EUA

"Love, InshAllah" reúne 24 histórias sobre paquera, namoro e sexo contadas por mulheres muçulmanas

The New York Times |

Zahra Noorbakhsh tinha 14 anos quando sua mãe, uma imigrante iraniana, descobriu que estava desafiando a proibição de sua família ao andar com meninos: um deles a acompanhou ao cinema, junto com quatro amigas.

Por isso, a conversa sobre sexo que teria esperado até sua noite de núpcias caso ainda morasse na cidade santa de Qom, aconteceu no estacionamento de um shopping em Danville, na Califórnia.

"Zahra, você tem um buraco", sua mãe começou. "Para o resto de sua vida, os homens vão querer colocar seu pênis em seu buraco. Não importa quem você é, como você é ou quem é seu amigo".

A jovem Zahra saiu do carro pensando: "Eu tenho o quê? Um buraco? Será que foi algo que comentaram no dia que faltei na aula de educação sexual?”

Infográfico: Saiba mais sobre as mulheres no mundo árabe e muçulmano

NYT
Ayesha Mattu, uma das editoras do livro "Love, InshAllah", que conta a vida de muçulmanas americanas, posa para foto em sua casa em São Franisco (21/01)

Esse tipo de conversa é contada em uma nova antologia de ensaios sobre paquera, namoro e sexo publicada nesta semana sob o título "Love, Inshallah: The Secret Love Lives of American Muslim Women" (Amor, se Alá quiser: A Vida Amorosa Secreta da Mulher Muçulmana Americana, em tradução livre).

As duas editoras, Ayesha Mattu e Nura Maznavi, quiseram criar um livro que desmentisse o estereótipo de que as mulheres muçulmanas não têm voz e são oprimidas. Elas reuniram 24 relatos de vidas privadas que expõem um grupo em muitos casos explicitamente encoberto. Eles ilustram como as americanas muçulmanas lidam com questões comuns.

"Inshallah", a palavra árabe para a expressão "Se Deus Quiser", foi colocada no título porque "capta a ideia de que todo mundo está procurando por amor", disse Maznavi.

A antologia faz parte de uma série de livros publicados nos últimos dois anos por mulheres muçulmanas americanas falando sobre suas vidas.

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"A imagem que as pessoas têm é de que somos submissas e que nos dão em casamento para homens velhos e barbudos", disse Mattu, 39, consultora de desenvolvimento internacional, "quando a verdade é que a maioria das mulheres americanas muçulmanas são criativas, engraçadas, inteligentes e opinativas."

Desde os ataques de 11 de Setembro de 2001 , os muçulmanos americanos estão em conflito sobre ficar calados ou convencer os outros americanos de que não são tão diferentes assim. Controvérsias aparecem até mesmo por causa de um simples programa de televisão como o "All-American Muslim" (Muçulmanos Completamente Americanos, em tradução livre), que contou com a participação de cinco famílias muçulmanas que vivem em Dearborn, Michigan, e as retratou de maneira que os americanos pudessem entender e ver como qualquer outra família.

Até mesmo as editoras deste livro, ambas americanas e filhas de imigrantes, tiveram problemas para combater a tendência da sociedade em considerar todos os muçulmanos extremistas. Elas tiveram que lutar contra uma proibição cultural que impede o ato de descrever a vida privada em público. "Não existe espaço dentro da comunidade muçulmana americana para que as mulheres possam falar sobre suas vidas amorosas", disse Maznavi, 33, uma advogada de direitos civis.

Foi muito difícil conseguir publicar o livro. As mulheres consideraram a ideia cinco anos atrás quando tomavam um café em São Francisco e discutiam de maneira brincalhona como seria uma comédia romântica muçulmana. Seu agente não foi adiante com a proposta, pois muitas editoras sentiram que o livro não se encaixava em uma categoria específica como religião, didático ou romance.

Então elas esperaram até o Pitchapalooza 2010, um evento anual que faz parte do festival literário de Litquake da cidade, onde escritores tem alguns minutos para expor a ideia de seu livro a um painel de especialistas da indústria.

Na noite em que elas participaram mais de 50 autores apareceram, e como não havia espaço para que todos pudessem expor suas ideias, nomes foram sorteados de um chapéu. As duas mulheres presenciaram cerca de 15 autores expondo suas ideias antes que o nome de Maznavi fosse sorteado.

Por estar nervosa, Maznavi acabou improvisando. O público foi à loucura e alguns homens se aproximaram dizendo coisas como: "Não sabia que era permitido tocar em você."

Elas conseguiram novos agentes naquela noite e no mês seguinte tinham um contrato com a Soft Skull Press, uma pequena editora de Berkeley, na Califórnia.

Elas solicitaram histórias do país inteiro, principalmente através do Facebook e do Twitter, e tiveram que selecionar os 24 relatos que melhor representam as mulheres que têm origens da África Oriental e ao Oriente Médio, bem como uma mistura de idades, profissões e orientações sexuais.

Algumas experiências falam de questões que vão além das preocupações das muçulmanas americanas, como a mulher que descobre que seu amor de longa data já tem uma filha ou a mulher que decide revelar sua orientação sexual para pais, apenas para descobrir que eles estavam lendo seu blog há anos.

Mas muitas questões lidam com assuntos específicos de sua religião, como o que fazer quando o seu namorado decide lhe fazer uma surpresa ao lhe dar uma garrafa de champanhe de presente e você precisa explicar que os muçulmanos não podem beber álcool. Mesmo em famílias que não seguem a questão do casamento ao pé da letra, muitas mulheres têm problemas para lidar com relações sexuais antes do casamento.

Uma judia convertida ao Islã detalhou a dor que sentiu ao se afastar de seu pai por sua opção religiosa, enquanto outra falou com entusiasmo sobre a experiência de ingressar em uma família poligâmica.

Angela Collins Telles, 36, outra convertida ao Islã, descreveu a inacreditável maneira como superou todas as barreiras do destino para poder encontrar seu marido brasileiro, incluindo seu comportamento anti-islâmico, que começou com um primeiro encontro ao acaso em um bar e seguiu para outro em um quarto de hotel que durou a noite toda.

"Sei que minha história não vai ser bem vista pelas pessoas que eu conheço, mas não me importo", disse Collins Telles, ex-diretora de uma escola primária, principalmente agora que seu marido também se converteu e eles têm dois filhos pequenos.

A coleção inclui apenas um conto verdadeiramente triste, o de uma mulher que descreveu a perda de seu noivo italiano porque ele condenou sua fé, dizendo que todos os muçulmanos são terroristas. Ela já havia largado o emprego em Nova York e estava pronta para se mudar para a Europa quando teve a discussão com seu noivo.

"Tive uma experiência muito ruim e que deixou cicatrizes", disse a mulher, que escreveu sob o nome de Leila N. Khan. "Sempre existe esse medo de que irão lhe dizer: 'Eu te avisei, você não deveria ter ido contra a sua própria fé'."

As experiências difíceis foram as mais complicadas de serem escritas, pois, segundo as editoras, poderiam servir de munição para as pessoas que retratam todos os muçulmanos como antiamericanos.

"É ainda mais difícil para as mulheres muçulmanas, porque queremos reclamar dos nossos homens sem que as pessoas em nossa volta digam: 'Olha lá, eu sabia que eles eram todos terroristas loucos'", disse Noorbakhsh, uma comediante de 31 anos, que além de descrever suas aulas de educação sexual também conta em detalhes sua experiência de perder a virgindade na faculdade. "Você se coloca em uma posição na qual fica vulnerável para que as pessoas utilizem o que você disse para atacar sua comunidade. Por isso que, normalmente, ficamos sem dizer nada.”

Por Neil Macfarquhar

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