Livro alega que Wiesenthal trabalhou para espionagem israelense

Biografia questiona como agente operava e contesta interesse do governo israelense em perseguição nazista

The New York Times |

Simon Wiesenthal, sobrevivente do Holocausto que ganhou fama mundial há algumas décadas como caça-nazistas, na verdade era pago pela Mossad, agência de espionagem de Israel. A afirmação vem à luz com uma biografia, feita com base em inúmeros documentos e entrevistas com três pessoas supostamente responsáveis por Wiesenthal dentro da Mossad.

O livro questiona não apenas uma crença amplamente aceita sobre como ele operava, mas também sugere a necessidade de reavaliar a opinião padrão de que o governo israelense não teve interesse na perseguição nazista, até a captura de Adolf Eichmann na Argentina em 1960. Personagem central, Wiesenthal morreu em 2005 aos 96 anos em sua casa em Viena.

“Isso nos obriga a adaptar de alguma maneira a nossa visão da história”, disse Tom Segev, autor do novo livro “Simon Wiesenthal: The Life and The Legends” (Simon Wiesenthal: A Vida e As Lendas, em tradução livre), que está sendo publicado pela Doubleday esta semana nos Estados Unidos e, simultaneamente, em outros seis países.

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Simon Wiesenthal durante julgamento de supostos crimes de guerra nazistas em Viena, em 1985
Segev, que é israelense e colunista do jornal israelense Haaretz, é também autor de uma dezena de livros, principalmente sobre a história de Israel. Em entrevista por telefone, ele disse que recebeu acesso irrestrito a documentos de Wiesenthal – cerca de 300 mil deles, previamente fechados ao público – pela filha de Wiesenthal, Paulinka Kreisberg.

Durante a leitura da correspondência de Wiesenthal, Segev se deparou com nomes que não reconheceu e descobriu que eles eram agentes da Mossad. Ele entrevistou três deles e deu nome a dois em seu livro.

Segev disse que Wiesenthal foi usado pela primeira vez pelo departamento político do Ministério de Assuntos Externos israelita, um precursor do Mossad, e depois pela própria agência. O órgão financiou seu primeiro escritório em Viena, em 1960, além de lhe pagar um salário mensal e fornecer um passaporte israelense, afirma a biografia. O codinome de Wiesenthal era “teocrata”.

Tarefa

Sua principal tarefa era ajudar a localizar criminosos nazistas, incluindo Eichmann, um dos arquitetos da Solução Final, e especialmente observar neonazistas e fornecer informações sobre as atividades de ex-nazistas nos países árabes, diz o livro.

Segundo o livro ainda, Wiesenthal também fez parte de uma tentativa antes desconhecida de prender Eichmann na Áustria nos últimos dias de 1949. Segundo o livro, um agente israelense que estava ajudando Wiesenthal provavelmente causou o fracasso da operação, quando contou histórias da recém-terminada guerra de independência de Israel a companheiros de bar na noite de Ano Novo. O boato sobre a presença de um israelense se espalharam e a visita prevista de Eichmann a sua esposa e filho foi abruptamente cancelada, diz o livro.

O papel de Wiesenthal na captura de Eichmann em 1960 tem sido uma questão de disputa. Isser Harel, antigo chefe da Mossad, agora morto, alegou que o caçador de nazistas não merecia crédito.

Mas o livro diz que Wiesenthal, financiado pela Embaixada de Israel em Viena, disse à Mossad, em 1953, que Eichmann havia se escondido na Argentina, levando finalmente à sua captura pelos agentes da agência. O julgamento televisionado de Eichmann em Israel, foi um marco na consciência moderna do Holocausto. Ele foi condenado e enforcado por Israel em 1962.

Wiesenthal, uma figura complexa e muitas vezes controversa, opôs-se à execução, Segev demonstra através da análise de correspondências previamente desconhecidas. Não se tratava de uma objeção moral à pena de morte, mas a crença de que Eichmann ainda não tinha dito tudo o que sabia e que o seu testemunho futuro poderia ser útil.

*Por Ethan Bronner

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