Limpeza nuclear tenta encorajar retorno a cidades japonesas esvaziadas

Após o desastre na usina de Fukushima Daiichi, japoneses se dividem sobre o empenho em restaurar as cidades atingidas por radiação

The New York Times |

Futaba é uma cidade fantasma dos tempos modernos - nem inteiramente uma cidade próspera que faliu, tampouco vítima do terremoto devastador que arrasou outras partes da costa nordeste do Japão.

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NYT
Equipe de limpeza lava um telhado durante esforço de descontaminação em Minamisoma, Japão
O arco rodoviário na entrada da cidade vazia quase parece uma provocação. Ali está escrito: "Energia nuclear: uma compreensão correta traz um estilo de vida próspero."

Aqueles que fugiram de Futaba estão entre as cerca de 90 mil habitantes retirados de suas casas em uma zona de 20 km ao redor da usina de Fukushima Daiichi e outra área ao noroeste contaminadas quando uma nuvem tóxica espalhou césio e iodo radioativos.

Agora, o Japão está elaborando planos para realizar uma limpeza nuclear monumental e sem precedentes, na esperança de que os deslocados possam voltar para casa.

O debate sobre a possibilidade de repovoar a área, caso as limpezas sejam consideradas eficazes, se tornou um dos principais testes sobre o futuro do Japão. Apoiadores veem a reabilitação da área como uma chance de mostrar a formidável determinação do país e seu superior conhecimento técnico - prova de que o Japão ainda é uma grande potência.

Os críticos contra-argumentam que o esforço para limpar a região de Fukushima poderia acabar como talvez o maior elefante branco dos projetos de obras públicas do Japão - e ainda outro exemplo de um Japão pós-desastre adotando formas de desperdício que debilitaram o crescimento econômico do país por duas décadas.

Até agora, o governo está seguindo um padrão definido desde o acidente nuclear, rejeitando perigos, muitas vezes prematuramente, e trabalhando para minimizar o alcance da catástrofe.

As limpezas teste já foram interrompidas: o governo não conseguiu antecipar a relutância das comunidades em armazenar toneladas de solo que serão removidos da superfície.

Mesmo um forte apoiador do retorno dos antigos moradores sugere que o governo ainda não informou o seu povo sobre a gravidade da situação. "Eu acredito que é possível salvar Fukushima", disse Tatsuhiko Kodama, diretor do Centro de Radioisótopos da Universidade de Tóquio. "Mas muitos dos retirados de suas casas devem aceitar que isso não vai acontecer em suas vidas."

A União Soviética não tentou fazer uma limpeza após o acidente de Chernobyl de 1986, mas sim realocou cerca de 300 mil pessoas. "Nós somos diferentes de Chernobyl", disse Toshitsuna Watanabe, 64 anos, o prefeito de Okuma, uma das cidades que foram esvaziadas. "Estamos determinados a voltar."

Mas a resistência silenciosa começou a crescer, tanto entre aqueles que foram deslocados quanto os que temem que o país precisará sacrificar demais, sem garantias de que uma limpeza de bilhões de dólares irá proporcionar a proteção necessária.

Por Martin Fackler

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