Ligações entre indicados e lobistas testam promessa de Obama

WASHINGTON - Linda H. Daschle é uma das lobistas do setor aeroviário mais importantes da cidade. Ela também é mulher de Tom Daschle, que o presidente eleito Barack Obama escolheu como seu próximo secretário da saúde.

The New York Times |

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Tom Downey é fundador e presidente de uma empresa lobista com dezenas de clientes, diversos deles com interesses nas políticas energéticas. Downey também é marido de Carol M. Browner, a provável escolha de Obama como especialista em energia para a Casa Branca.

A escolha de Daschle e Browner para cargos de alto escalão ilustra uma possível falha na promessa de Obama de manter os interesses especiais à distância.

O código ético que Obama impôs a sua equipe de transição adota uma postura rígida contra os lobistas. Pessoas são desqualificadas para trabalhar em qualquer assunto pelo qual tenham feito lobby no último ano e lobistas registrados com o governo federal são proibidos de participar ativamente  (não importa quais sejam as questões pelas quais tenham feito lobby).

Mas a indicação de Daschle e, possivelmente, de Browner sugere que ele adotará uma postura mais suave em relação ao lobby feito pelos companheiros dos oficiais que colocará em sua gestão.

Em uma cidade na qual a influência ao governo é uma indústria, Thomas Susman, especialista em regras éticas que também é lobista da Associação Americana de Bares, afirmou que as questões envolvendo os esposos representam um desafio especial para Obama.

"De um lado se diz que um companheiro não deve abandonar suas atividades profissionais porque sua outra metade vai trabalhar para o governo. Mas me parece que um esposo não pode trabalhar em uma agência de lobby ou em questões controladas pelo seu companheiro", ele disse.

Na campanha presidencial, Obama falou contra as influências em Washington e prometeu manter os padrões de sua gestão de forma rígida.

"Sua voz deve ser mais alta do que os sussurros dos lobistas", disse Obama a uma multidão em Green Bay, Wisconsin, em setembro.
Stephanie Cutter, porta-voz da transição, disse que a equipe de Obama está escrevendo "regras éticas para uma gestão que cumprirá todos os compromissos feitos durante a campanha".

"Para evitar conflito de interesses", acrescentou Cutter, "os oficiais da gestão irão recusar envolvimento em qualquer questão na qual seus companheiros tenham algum papel e estes por sua vez não poderão fazer lobby em determinadas agências".

Na tentativa de evitar conflitos, Linda Daschle anunciou que irá deixar a empresa lobista (na qual colegas representam clientes do setor da saúde) e planeja começar sua própria prática, que não aceitará clientes com interesses na área em que seu marido atuará. Downey não informou seus planos e não respondeu a um pedido de entrevista, mas Cutter disse que se for indicada, a empresa de Downey deixará de aceitar trabalhos relacionados ao setor energético.

Joan Claybrook, presidente do Public Citizen, um grupo de fiscalização das ações do governo, disse que seria ir longe demais exigir que os esposo de oficiais da gestão desistam de suas carreiras e "façam outra coisa, como decoração de interior".

"Talvez eles tenham que mudar seus planos de negócios e desistir de fazer lobby sobre as questões que estão sob responsabilidade de seu companheiro", ela disse.

A posição de familiares criou uma dor de cabeça para a equipe de Obama desde antes de sua eleição.

Depois que Obama escolheu o senador Joseph R. Biden Jr. como seu vice, republicanos atacaram o fato do filho dele, R. Hunter Biden, ser um lobista. Ele abandonou sua empresa em setembro.

A escolha da senadora Hillary Rodham Clinton como secretária de Estado gerou problemas similares. Desde que deixou a Casa Branca, seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, recebeu milhões de dólares em palestras e doações para sua biblioteca presidencial e fundação, inclusive de governos estrangeiros.

Como condição para a escolha de sua mulher, Bill Clinton concordou em revelar a identidade dos doadores e não aceitar mais doações de governos estrangeiros, além de deixar que a equipe da nova gestão administre sua agenda de palestras.

O relacionamento de trabalho dos Daschles, que se casaram em 1984, já passou por escrutínio anteriormente. Depois que três pessoas morreram em 1994 na queda de um pequeno avião pilotado por um amigo, Tom Daschle foi acusado de ajudar a empresa dele a sonegar impostos e sua mulher foi acusada de ajudá-lo a esconder isso.

Tanto Tom Daschle, que na época era senador pelo partido democrata, quanto sua mulher, que então trabalhava na Administração de Aviação Federal, foram inocentados.

Daschle trabalha como lobista desde 1997. Alguns de seus clientes no começo de sua carreira tinham interesses na saúde pública, como a farmacêutica Amgen e a gigante do tabaco Philip Morris. Nos últimos anos ela passou a representar principalmente companhias aeronáuticas como a Boeing e a Lockheed Martin.

Browner, ex-administradora da Agência de Proteção Ambiental, é executiva do Grupo Albright, uma empresa de consultoria internacional. Ela se casou com Downey em 2007.

Ele foi congressista democrata por Long Island de 1975 a 1993, mas perdeu sua cadeira depois que foi revelado que estava entre os legisladores que sacavam dinheiro além do limite de suas contas na Câmara sem penalidades, enquanto sua mulher na época era auditora da casa.

Downey depois fundou uma empresa lobista cujos clientes incluíram companhias como Chevron e Standard Renewable Energy Group, diversos países estrangeiros, e o Grupo Albright. Em 2006, o casal trabalhou junto em questões relacionadas à compra de uma companhia de Dubai por uma operadora americana.

Os clientes atuais de sua companhia incluem a gigante financeira apoiada pelo governo Fannie Mae, bem como a Securing America's Future Energy, uma companhia sem fins lucrativos que defende a redução da dependência do petróleo estrangeiro.


Por CHARLIE SAVAGE e DAVID D. KIRKPATRICK

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