Liga Juvenil sul-africana combate aids com futeol

A liga combina futebol e consciência sobre o HIV com a esperança de evitar que outra geração da África do Sul seja perdida

The New York Times |

Longe da Copa do Mundo, na vila pobre e rural de Mawewe, onde as ruas não são asfaltadas, não há redes nos gols ou sapatos nos pés dos jogadores, Clement Nkala, de 17 anos, sentou-se em uma cadeira vestindo seu uniforme e estirou o dedo para que fosse alfinetado para a coleta de sangue em um exame de HIV.

Em um país onde 5,7 milhões são portadores do vírus da aids - o maior índice de contágio do mundo - o problema é particularmente grave no Distrito de Nkomazi, na Província de Mpumalanga, perto da fronteira da África do Sul com a Suazilândia e Moçambique.

Os médicos estimam que 65% das pessoas entre 18 e 34 anos nessa área sejam portadoras do HIV e que entre 5 mil e 8 mil crianças com menos de 5 anos ficaram órfãs por causa da doença. “Estou pensando no meu futuro", disse Nkala na tarde de sábado. “É importante saber o seu status."

Sarah Kate Noftsinger ficou surpresa. Um jogador se voluntariar para o exame, com os amigos jogando ali perto, não teria sido possível nesse distrito remoto há 15 meses, quando ela começou uma liga juvenil que atinge cinco vilas e 2,5 mil meninos em 160 times de divisões sub-14 e sub-17.

Na cultura local, os pais raramente falam sobre sexo com seus filhos, segundo os médicos. Muitos temem o exame do HIV, acreditando que podem ter o dedo alfinetado em um dia e morrer no outro. A negação pode ser um conforto maior do que o estresse de saber o resultado. Quem reconhece a doença arrisca a rejeição da família e de toda a comunidade. Nkala foi uma exceção.

“Esse é um passo enorme”, disse Sarah, de 29 anos, de Richmond, Virgínia, que é diretora de esporte e liderança do Triad Trust, uma instituição beneficente com base em Boston que busca reduzir as mortes relacionadas à aids.

Subjugar o HIV nessa região de 500 mil pessoas é algo que não acontecerá em breve, todos concordam. Mas essa é mais uma batalha, que usa a criação de uma liga esportiva e a educação dos jogadores para mostrar que o contágio pelo HIV pode ser evitado, que há remédios disponíveis para aqueles que estão infectados e que pode existir uma enorme diferença entre viver com HIV e morrer de aids.

“É uma maneira de lidar com algo sobre o que ninguém quer falar a respeito por meio de um jogo que todo mundo ama", disse Sarah. Ela é uma mulher pequena com a energia da jogadora de meio de campo que foi até que a Associação de Futebol Feminino fosse encerrada nos Estados Unidos em 2003.

Ela chegou a essa região para uma clínica de duas semanas em dezembro de 2008. Cinco patronos locais, nos meados dos seus 20 anos, pediram que Sarah os ajudasse a criar uma liga sustentável que combinasse futebol e a conscientização sobre o HIV que poderia evitar que outra geração se perdesse.

Geralmente, segundo Zola Ndlovu, contato executivo da liga, americanos de boa vontade criam clínicas e depois partem sem treinar os locais sobre como manter seu funcionamento. “Quando eles vão embora, nós continuamos morrendo", disse Ndlovu.

No voo de volta, Sarah rascunhou um plano de negócios em um guardanapo. Ela sentiu a empatia de uma sobrevivente, uma vez que se recuperou duas vezes de um câncer e de uma vértebra quebrada, durante uma cabeçada em um jogo de futebol.

Ela precisou de cirurgia em 2006 para reparar a vértebra e um disco quebrado. Conforme se recuperava, um ano e meio de letargia veio em seguida. Ela abandonou a faculdade de administração e deixou seu emprego como assistente do técnico da equipe de futebol feminino da Universidade de Stanford.

A ideia de uma liga na África do Sul colocou Sarah de volta em alta produtividade. Ela corre de um lado pro outro agora, carregando três celulares, tomando notas na mão. Até mesmo seu nome foi comprimido de Sarah Kate para Skate. “Sempre adiante em ritmo acelerado”, disse Themba Mahakane, diretor financeiro da liga.

Durante visitas de seis semanas, Sarah viaja como diretora executiva da organização responsável pela liga, a Triad Nkomazi Rush. Ela acredita que a liga sobreviverá apenas se puder ser mantida por líderes locais. Agenda, finanças, marketing e educação de saúde são administradas por um comitê executivo local formado por sete membros. Sua postura é aconselhar, mas não controlar.

Em três anos, Noftsinger espera se tornar obsoleta. Ela visualiza a liga como uma fonte de empregos de período integral para administradores locais, técnicos e trabalhadores do setor de saúde em uma área onde o índice de desemprego é estimado entre 60% e 90%.

Uma vez por semana, os jogadores são educados a respeito de tópicos como HIV, violência doméstica e autoconfiança. As aulas são ministradas por trabalhadores do setor de saúde e uma trupe de improvisação que usa músicas, peças, dança e poesia para lidar com situações sociais encontradas no dia-a-dia.

As equipes com frequência perfeita recebem uniformes oferecidos pela Rush, uma organização americana de futebol para jovens. Para ficar com os uniformes, os jogadores precisam continuar a frequentar as aulas. Algumas meninas de uma vila da região, conhecida como Bloco B, começaram a participar das aulas e pediram para entrar em um time.

O objetivo final é fazer com que cada jogador faça um teste de HIV a cada 90 dias, usando um sistema de impressão digital que mantém o resultado confidencial. “A Triad Nkomazi Rush está tentando fazer com que a pessoa que tem HIV não seja o inimigo", disse Paul Makofane, vice-diretor de promoção esportiva da Província de Mpumalanga. “E podemos aprender com o programa para implementá-lo em outros setores da sociedade, como nas mães."

Quase todos dessa área tem um parente ou amigo portador do vírus. A mãe, pai e irmão de Nomsa Shabangu, diretor de edução médica da liga, tiveram testes com resultado positivo, ela disse. Entre os trabalhadores rurais migrantes, que mudam frequentemente de parceiros sexuais, segundo ela, o índice de contágio pode ser de 80% ou 90%.

A ignorância sobre sexo e doenças é amplamente disseminada. De vila em vila, persistem os mitos sobre a cura da doença em homens que mantêm relações com crianças de menos de dois anos de idade, ou com uma virgem, uma cabra ou cachorro, disse Shabangu. Ela mesma entendia pouco e teve um filho aos 16 anos.

“Não sabia que a atividade sexual podia me engravidar", disse Shabangu, de 26 anos. “Nossos pais diziam que você compra um bebê no hospital ou que eles caem de um avião. É importante começarmos a dizer a verdade sobre essas coisas."

Um dos resultados da transmissão do HIV em meio à pobreza de vilas Nkomazi é o crescimento do comércio pessoal, disse Sarah.

Uma mulher pode trocar favores sexuais para comprar minutos para falar ao celular com sua família ou ajudar a comprar alimentos para alimentar parentes distantes cuja família foi dizimada pela aids. “O que você faz quando tem de alimentar seus irmãos e irmãs por que seus pais morreram?”, disse Sarah.

A liga enfrentou inevitáveis avanços e retrações. No domingo, na vila de Kamhlushwa, um campeonato foi concluído antes do recesso de inverno que durará um mês e da Copa do Mundo. Troféus de medalhas foram entregues. Mas a final do sub-14 atrasou uma hora enquanto os técnicos tentavam resolver um cartão vermelho.

Quando o jogo acabou, Noftsinger colocou as crianças na sua caminhonete para que não precisassem andar quilômetros no escuro até em casa. “Acho que ganhei outros cinco fios de cabelo branco hoje",  disse.

Mas alguns dias são melhores, como no sábado, quando 14 jogadores de Mawewe concordaram em fazer o exame de HIV. Uma gota de sangue foi colhida do dedo de Nkala. Minutos depois, o teste teve resultado negativo. Nkala disse que quer se tornar sexualmente ativo. Por meio da liga de futebol, disse, "aprendi a me proteger".

É importante que os jogadores tenham se voluntariado para fazer o exame, disse Clifford Ndlovu, diretor de marketing da liga. “Isso mostra que eles confiam em nós", disse.

* Por Jeré Longman

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