Líder taleban em negociações de paz secretas era impostor

Suposto insurgente disposto a buscar fim de conflito participou de discussões de alto nível entre autoridades afegãs, EUA e Otan

The New York Times |

Durante meses, o desenrolar de negociações secretas entre o Taleban e os líderes do Afeganistão para encerrar a guerra parecia promissor, mesmo que apenas por causa da aparência de um determinado líder insurgente em uma extremidade da mesa: mulá Akhtar Mohammad Mansour, um dos comandantes mais importantes no Taleban.

Mas agora, ao que parece, Mansour não era Mansour. Em um episódio que poderia ter sido tirado de um romance de espionagem, os Estados Unidos e as autoridades afegãs dizem agora que o homem era um impostor afegão e que as discussões de alto nível realizadas com o apoio da Otan parecem ter avançado pouco.

AP
Soldados americanos patrulham distrito de Panjwai, em Kandahar, no Afeganistão
"Não é ele", disse um diplomata ocidental em Cabul intimamente envolvido nas discussões. "E nós lhe demos um monte de dinheiro". Autoridades dos Estados Unidos confirmaram ter abandonado a esperança de que o afegão seja Mansour ou mesmo um membro da liderança do taleban.

Autoridades afegãs e da Otan disseram ter realizado três reuniões com o homem, que viajou através da fronteira do Paquistão, onde líderes do talibã se refugiaram. O líder talibã falso chegou a se reunir com o presidente Hamid Karzai, levado a Cabul em um avião da Otan e lá escoltado diretamente ao palácio presidencial, disseram as autoridades.

Atmosfera

O episódio ressalta a natureza incerta e mesmo bizarra da atmosfera na qual líderes afegãos e americanos buscam maneiras de encerrar a guerra que já dura nove anos. Acredita-se que os líderes talebans estejam escondidos no Paquistão, possivelmente com o apoio do governo paquistanês, que recebe bilhões de dólares em ajuda dos Estados Unidos.

Muitos na liderança do Taleban, que é constituída essencialmente de clérigos mal alfabetizados da zona rural, nunca foram vistos em pessoa pelas autoridades dos Estados Unidos, da Otan ou do próprio Afeganistão.

As autoridades americanas dizem estar descrentes desde o início sobre a identidade do homem que dizia ser o mulá Mansour. Sérias dúvidas surgiram depois da terceira reunião, realizada na cidade de Kandahar. Um homem que tinha conhecido Mansour anos atrás disse a oficiais afegãos que o homem na mesa não se parecia com ele.

"Ele disse que não o reconheceu”, disse o líder afegão, que falou sob condição de anonimato.

O diplomata ocidental afirmou que o homem afegão recebeu inicialmente uma soma considerável de dinheiro para participar das negociações - e para convencê-lo a retornar.

Enquanto o oficial afegão disse que ainda nutria esperanças de que o homem iria voltar para outra rodada de negociações, os Estados Unidos e outras autoridades ocidentais disseram ter concluído que o homem em questão não é Mansour. Como os americanos chegaram a essa conclusão – se, por exemplo, eles foram capazes de estabelecer sua identidade através de impressões digitais ou por outros meios – não se sabe.

No mês passado, autoridades americanas e afegãs tinham grandes esperanças nas negociações. Autoridades americanas disseram que eles e os oficiais de outros governos da Otan estavam ajudando a facilitar as negociações, fornecendo transporte aéreo e garantindo estradas livres para os líderes talibãs provenientes do Paquistão.

Imprensa

No mês passado, oficiais da Casa Branca pediram que o New York Times não mencionasse o nome de Mansour em um artigo sobre as negociações de paz, expressando preocupação de que as negociações seriam comprometidas – e a vida de Mansour posta em risco – se a sua participação fosse divulgada. O Times decidiu não veicular o nome de Mansour, juntamente com os nomes de dois outros líderes do Taleban supostamente envolvidos nas negociações. A situação dos outros dois líderes talebans supostamente envolvidos não é clara.

Desde a última rodada de discussões, que aconteceu nas últimas semanas, as autoridades afegãs e americanas ficaram intrigadas em descobrir quem é o homem. Algumas autoridades dizem que o homem pode simplesmente ter sido uma fraude, posando como um líder do Talibã, a fim de enriquecer a si mesmo.

Outros dizem que o homem pode ser um agente taleban. "Os talebans são mais inteligentes do que os americanos e o nosso próprio serviço de inteligência", disse um alto oficial afegão que está familiarizado com o caso. "Eles estão jogando bem".

Paquistão

Outros suspeitam que o líder taleban falso pode ter sido enviado pelo serviço de inteligência paquistanês, conhecido por suas iniciais, ISI. Agentes do ISI são conhecidos por fazer um "jogo duplo" no Afeganistão, garantindo a oficiais americanos que buscam o taleban enquanto, ao mesmo tempo, ajudam os insurgentes.

Pelo menos publicamente, a liderança taleban continua afirmando que não existem negociações em andamento. Em uma recente mensagem aos seus seguidores, Omar negou que houvesse qualquer negociação em qualquer nível.

"O astuto inimigo que tem ocupado o nosso país está tentando, por um lado, expandir as suas operações militares na base da sua política dupla e, por outro lado, quer jogar poeira nos olhos do povo, difundindo rumores de negociações", dizia a mensagem.

Apesar dessas declarações, alguns dirigentes do taleban demostraram vontade nas negociações de paz com representantes do governo afegão em janeiro.

Naquela época, Abdul Ghani Baradar, então vice-comandante do Taleban, foi preso em uma operação conjunta da CIA e da ISI, na cidade portuária paquistanesa de Karachi. Embora as autoridades dos dois países tenham aclamado a prisão como um marco da cooperação entre os Estados Unidos e o Paquistão, autoridades paquistanesas já indicaram ter orquestrado a prisão de Baradar porque ele estava envolvido em negociações de paz sem a permissão do ISI. Líderes afegãos confirmaram.

Identidade

Líderes afegãos e americanos não confrontaram o falso Mansour com suas dúvidas sobre a sua identidade. De fato, alguns líderes afegãos ainda mantêm a esperança de que o homem realmente seja, ou pelo menos represente, Mansour – e que volte em breve.

"Algumas dúvidas foram levantadas sobre ele, mas ainda é possível que seja ele", disse o líder afegão que não quis ser identificado.

As reuniões foram organizadas por um intermediário afegão, com ligações tanto com o governo afegão quanto com os talibãs, informaram autoridades.

Os americanos e os líderes afegãos estavam inicialmente cautelosos em relação à identidade do homem afegão e suas motivações. Mas depois da primeira reunião, os dois lados ficaram razoavelmente satisfeitos. Várias medidas foram tomadas para estabelecer a identidade do homem, após a primeira reunião, fotos dele foram mostradas a presos do taleban que diziam conhecer Mansour. Eles confirmaram, disse o líder afegão.

Qualquer que seja a identidade do homem afegão, as negociações que se desenrolaram entre os americanos e o homem que dizia ser Mansour pareciam ter fundo, disse o líder afegão. O homem que dizia representar o talebã estabeleceu várias condições surpreendentemente moderadas para um acordo de paz: que a liderança taleban seja autorizada a voltar ao Afeganistão, com segurança, que os soldados recebam empregos e que os prisioneiros sejam libertados.

O homem afegão não exigiu, como outros talebans fizeram no passado, uma retirada das forças estrangeiras ou que uma parte do governo seja composta pelo Taleban.

Sayed Agha Mohammad Amir, antigo comandante taleban que diz ter deixado o grupo, disse em entrevista que não sabia da história do impostor. Ele negou que a liderança taleban tenha dado indícios de uma vontade de participar de negociações.

''Sempre que eu falo com os talibãs, eles nunca dizem aceitar a paz e querem continuar lutando", disse ele. "Eles não estão cansados”.

*Por Dexter Filkins e Carlotta Gall

    Leia tudo sobre: afeganistãoguerratalebannegociações

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG