Líder espiritual budista chega a Nova York

NOVA YORK - O Buda de 22 anos pareceu feliz em não sentir jet lag. Por enquanto. Talvez hoje à noite, ele disse em inglês na quinta-feira. Mas ainda nada. Ele tinha acabado de chegar ao hotel Midtown com sua comitiva de segurança depois de um vôo de 14 horas de Nova Déli a Newark.

The New York Times |

"É a primeira vez que eu venho aos Estados Unidos e é como um sonho", disse sua santidades, o 17º Gyalwang Karmapa, Ugyen Trinley Dorje, um dos mais importantes líderes do budismo tibetano.

Apesar de sua juventude, ele é reverenciado por seus seguidores como um mestre e na quinta-feira ele deu início a uma turnê pelos Estados Unidos, uma visita de 18 dias por Nova York, Nova Jersey, Boulder e Seattle que terminará no dia 2 de junho.

Sim, ele é aquele Karmapa: o jovem mestre que esteve nas manchetes dos jornais de todo o mundo quando aos 14 anos fez uma fuga audaciosa da China para a Índia através dos Himalaias em 1999.

Seus seguidores o vêem não apenas como a reincarnação de seu predecessor, o 16º Karmapa, Rangjung Rigpe Dorje, que morreu em 1981, mas também como a 17º incarnação do primeiro Karmapa do século 12, em uma linhagem continua de mais de 900 anos. Eles o reverenciam como líder do secto Kagyu - conhecido como o secto do chapéu negro ou coroa negra - uma das quatro principais escolas do budismo tibetano.

Para os fiéis, ele é a personificação da sabedoria e compaixão, um "lama reincarnado", ou professor que atingiu a iluminação mas ainda assim retorna ao mundo dos humanos, vida após vida, para ajudar os outros a fazer o mesmo. "A passagem do Karmapa anterior foi como o sol se escondendo por trás das nuvens", disse Michele Martin, tradutora tibetana que é autora da biografia de 2003, "Música no Céu: A Vida, Arte e Ensinamentos do 17º Karmapa, Ugyen Trinley Dorje."

Ela acrescenta, "Com a chegada do novo Karmapa é como se as nuvens saíssem do caminho e o sol volta a brilhar".

Milhares de pessoas presenciaram suas aparições públicas na Índia e cerca de 20,000 são esperadas para vê-lo nos Estados Unidos. Em Manhattan ele irá falar aos fiéis no sábado no salão Hammerstein Ballroom (ingressos: US$30 a US$108), e domingo no Grand Ballroom do Waldorf-Astoria (ingressos: US$35 a US$175).

Na segunda-feira ele irá visitar sua cadeira norte-americana no centro the Karma Triyana Dharmachakra em Woodstock, onde é ansiosamente aguardado. A sala do trono foi usada para cenas do filme "Kundun", sobre a vida do Dalai Lama, de Martin Scorsese.

Os americanos se preparam para a visita há um ano e meio, disse Dzogchen Ponlop Rinpoche, organizador da viagem, que é presidente e fundador de Nalanda West e Seattle, um dos pontos da turnê. "Há muita alegria e felicidade em poder vê-lo", ele disse.

Mas nem tudo é tão fácil, no nobre caminho do budismo Ugyen Trinley Dorje é um dos dois que clamam o título de Karmapa na tradição Kagyu. Um rival, Trinlay Thaye Dorje, realizou uma turnê pela Europa há alguns anos. Houveram batalhas legais na Índia. Facções rivais de monges, os emissários do amor gentil, entraram em conflitos.

Mas os seguidores americanos de Ugyen Trinley Dorje aceitam seu reconhecimento como o 17º Karmapa tanto pelo governo chinês quanto pelo Dalai Lama, uma figura mundial e porta-voz do budismo tibetano que foi professor de Ugyen Trinley Dorje.

Em uma entrevista, o representante do Dalai Lama nos Estados Unidos, Tashi Wangdi, disse "Nós ficamos felizes com a visita de Ugyen Trinley Dorje".

Robert A.F. Thurman, professor de estudos budistas da Universidade de Columbia, disse "O homem que chegou aqui é o oficial", acrescentando, "o outro Karmapa é uma boa pessoa e tem seguidores na Europa e na Ásia, mas quase todos os tibetanos aceitam o Karmapa que está aqui agora".

Quastionado sobre seu rival Karmapa, Ugyen Trinley Dorje afirmou "uma pessoa aparece em cada geração, que é a incarnação do Karmapa anterior".

Ele acrescentou, "ser sua incarnação, como eu sou, é minha responsabilidade".

Sua grande fuga da China, em dezembro de 1999, foi uma viagem de oito dias de mais de 1.000 milhas a pé e a cavalo durante, trem, jipe e helicóptero que o levou a Dharamsala, Índia. As autoridades oficiais do governo o aceitaram como refugiado político em 2001.

A idade de Ugyen Trinley Dorje, sua presença espiritual e sua fuga dramática o elevaram a um status de celebridade em algumas áreas do budismo tibetano, com comparações feitas sobre ele e o senador Barack Obama. Sem falar na sua posição entre as "25 pessoas a se observar" da revista Elle.

"Ele pode se tornar o porta-voz do budismo tibetano e do próprio Tibete, se assim escolher", disse Thurman, autor do livro "Por que o Dalai Lama é importante. Ele também é pai da atriz Uma Thurman.

Apesar de cidadania de Ugyen Trinley Dorje ser fruto de tensão entre a China e a Índia, seus seguidores afirmam que apesar da vergonha que sua fuga representou ao governo chinês, o povo não o retaliou como fez com o Dalai Lama.

Por isso, seus seguidores expressam a vontade que os manifestantes chineses não reajam à visita de Ugyen Trinley Dorje como fizeram com a passagem do Dalai Lama em Seattle recentemente. Alguns manifestantes culparam o Dalai Lama por violentos tumultos anti-china no Tibete, uma acusação que ele nega.

Em entrevista, Ugyen Trinley Dorje evita questões políticas, dizendo "meu trabalho é espiritual onde quer que eu vá. Algumas vezes a política entra na espiritualidade, mas eu rezo para que isso não aconteça".

Um homem grande com olhos gentis e voz macia. Em seu robe marrom sentado em uma cadeira de estampa floral e é rodeado por ajudantes e protegido pelo Departamento de Estado, que cuida de personalidade estrangeiras em visita oficial.

"Eu gostaria de falar inglês melhor", ele disse a um visitante enquanto o tradutor lutava para explicar seus comentários.

Sua santidade, como o chamam seus seguidores, confirma que tem apenas 22 anos. Quando questionado se tem também 900, ele ri. Ele responde às perguntas geralmente com a ajuda de dois tradutores, com alguns cometários em inglês.

O Karmapa é reconhecido como a terceira figura mais importante do budismo tibetano, depois do Dalai Lama e do Panchen Lama, afirmou Thurman.

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