Lições que o Egito pode ensinar aos Estados Unidos

Diplomacia americana deveria abandonar apoio a autocratas e demonização do islamismo, avalia articulista do New York Times

The New York Times |

É um novo dia no mundo árabe – e, esperamos, nas relações americanas com o mundo árabe.

A verdade é que os Estados Unidos ficaram para trás não apenas em relação à Tunísia e ao Egito nas últimas semanas, mas a todo o Oriente Médio nas últimas décadas. Apoiamos autocratas corruptos enquanto eles mantivessem o petróleo fluindo e não fossem muito agressivos com Israel. Mesmo no mês passado, nós parecíamos tão desconectados em relação aos jovens da região quanto um Mubarak ou um Ali Ben.

AFP
Egípcios lotaram a praça Tahrir, epicentro das manifestações opositoras, após renúncia de Mubarak (11/2/2011)
Reconhecendo que a elaboração de uma política externa americana é mil vezes mais difícil do que parece, deixe-me sugerir quatro lições a extrair de nossos erros:

1) Parar de tratar o fundamentalismo islâmico como um monstro e de permitir que essa opinião conduza a política externa americana. A paranoia americana em relação ao islamismo já fez tantos danos quanto o próprio fundamentalismo muçulmano.

Na Somália, isso levou os Estados Unidos a fazer vista grossa para a invasão etíope de 2006, que foi catastrófica para os somalis e resultou em mais extremismo islâmico. E no Egito, nosso pressentimento sobre o islamismo nos paralisou e nos colocou no lado errado da história.

Nós nos confundimos quando agimos como se a democracia fosse boa para os Estados Unidos e Israel, mas não para o mundo árabe. Por muito tempo, temos tratado o mundo árabe como um campo de exploração de petróleo.

Muitos americanos compraram o estereótipo preguiçoso que dita que os países árabes são inóspitos para a democracia, ou que os beneficiários de um governo popular seriam extremistas como Osama bin Laden. Os tunisianos e egípcios já quebraram esse estereótipo, e quem irá perder com isso é a Al-Qaeda. Nós não sabemos o que acontecerá adiante no Egito – e há um risco considerável de que aqueles no poder tentarão preservar Mubarak sem Mubarak –, mas os egípcios já demonstraram o poder da não-violência de uma forma que prejudica toda a proposta extremista. Será fascinante ver se mais palestinos irão abraçar o modelo não-violento na Cisjordânia, como estratégia para combater os assentamentos israelenses e o uso ilegal de suas terras.

2) Precisamos de uma inteligência melhor, do tipo que não deriva da interceptação de chamadas telefônicas de um presidente à sua amante, mas de conviver com os impotentes. Após a Revolução Iraniana de 1979 havia uma dolorosa sensação post-mortem sobre por que a comunidade de inteligência havia perdido tantos sinais, e eu acho que sentimos o mesmo hoje.

Com toda a franqueza, nós na comunidade jornalística sofremos o mesmo defeito: nós não transmitimos adequadamente a raiva sentida contra Hosni Mubarak. O Egito é um lembrete para não sermos instigados a pensar que um lugar é estável apenas por ser estático.

3) As novas tecnologias têm lubrificado os mecanismos da revolta. Facebook e Twitter tornam mais fácil para os dissidentes criar redes de comunicação. Os telefones móveis significam que a brutalidade de um governo provavelmente acabará no YouTube, aumentando os custos da repressão. O Tribunal Penal Internacional encoraja os ditadores a pensar duas vezes antes de ordenar suas tropas a abrir fogo.

Talvez a tecnologia mais importante – e isso é difícil para um escritor como eu admitir – seja a televisão. Foram as transmissões via satélite da televisão árabe Al-Jazeera que romperam o monopólio governamental sobre as informações no Egito. Muito frequentemente os americanos desprezam a Al-Jazeera (e seu canal em Inglês está disponível em poucos sistemas de cabo), mas a emissora desempenhou um papel maior na promoção da democracia no mundo árabe do que qualquer coisa que os Estados Unidos fizeram.

Tecnologia

Devemos investir mais nessas novas tecnologias da informação. A melhor maneira de nutrir mudanças no Irã, na Coreia do Norte e em Cuba envolverá transmissões televisivas, telefones celulares e servidores proxy para saltar sobre as barreiras da internet. O Congresso alocou pequenas verbas para promover a liberdade global da internet, e essa iniciativa poderia ser uma ferramenta muito mais poderosa em nossa política externa.

4) Vamos viver os nossos valores. Nós perseguimos uma realpolitik do Oriente Médio e ela fracassou. Condoleezza Rice tinha razão quando disse no Egito, em 2005: "Há 60 anos, o meu país, os Estados Unidos, buscou estabilidade em detrimento da democracia nessa região, aqui no Oriente Médio, e não conseguimos nem um nem outro”.

Eu não sei qual país será o próximo Egito. Alguns dizem que é a Argélia, o Marrocos, a Líbia, a Síria ou a Arábia Saudita. Outros sugerem que Cuba ou a China são vulneráveis. Mas sabemos que em muitos lugares há descontentamento profundo e um grande anseio por uma maior participação política. E a lição da história, de 1848 a 1989, é que as revoltas são virais e passam de nação para nação. Da próxima vez, não vamos ficar em cima do muro.

Depois de uma longa fase insossa, o presidente Barack Obama conseguiu acertar em cheio quando falou na sexta-feira após a queda de Mubarak. Ele apoiou abertamente o poder do povo, deixando claro que o futuro será uma decisão dos egípcios. Vamos torcer para que isso reflita um novo começo não apenas para o Egito, mas também para a política americana no mundo árabe. Inshallah.

Por Nicholas D. Kristof

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