Líbios buscam descartar passado sombrio da Universidade de Trípoli

Combatentes encontraram prisioneiros em contâiners, dossiês sobre alunos e misterioso apartamento perto de auditório do campus

The New York Times |

Feisel Krekshi, o novo reitor da Universidade de Trípoli, chegou para seu primeiro dia de trabalho acompanhado por 25 jovens que abriram o caminho até o campus com rifles Kalashnikovs e granadas caseiras.

NYT
Estudantes limpam o campus da Universidade de Trípoli, na capital da Líbia

Seu trabalho, atribuído secretamente por comandantes rebeldes antes que eles expulsassem o governo de Muamar Kadafi de Tripoli, é reinventar a instituição de maior prestígio de ensino superior da Líbia – um teste importante para a reconstrução do país.

Explorar o lado sombrio do campus foi fácil demais. Os combatentes de Krekshi encontraram prisioneiros de guerra em contâineres e gavetas cheias de dossiês de inteligência sobre os alunos, isso sem mencionar um apartamento misterioso perto do auditório preferido de Kadafi. Ali dentro havia uma cama, uma jacuzzi e uma mesa para exames ginecológicos, parte do que o reitor chamou de provas de que o líder deposto morto na quinta-feira , em visitas ao campus, convocava estudantes mulheres e as estuprava.

Agora, o maior desafio de Krekshi é reverter décadas de ortodoxia política colocada acima das pesquisas acadêmicas que reformou o currículo para que os alunos fossem forçados a passar anos estudando o excêntrico Livro Verde de Kadafi e um corpo docente que ele diz estar "90% contaminado".

O campus pulsa com a excitação e a tensão que iluminam os problemas e as oportunidades que os líbios veem diante de si enquanto tentam reformular quase todas as instituições públicas do país, por muito tempo coordenadas pelos Comitês Revolucionários de Kadafi. A universidade é um termômetro central para as frustrações e aspirações da jovem geração que alimentou a rebelião que derrubou Kadafi do poder.

"Isso não era uma universidade", Krekshi, 55, disse recentemente a quatro estudantes. "Era um lugar para a coleta de inteligência e para a tortura, uma arma para apoiar toda a opressão". Os alunos levaram um repórter ao seu gabinete, em seguida, se sentaram em sua mesa de conferências para questioná-lo eles mesmos, uma impertinência impensável há não muito tempo.

A Universidade de Trípoli representa o melhor e o pior do antigo regime. Kadafi transformou a Líbia em uma das sociedades mais alfabetizadas do mundo árabe. O ensino universitário é quase gratuito e cerca de metade dos alunos são mulheres. Mas décadas de isolamento têm eviscerado competências básicas, do inglês ao pensamento crítico. E na década de 1980, estudantes dissidentes foram publicamente enforcados no campus.

Agora, a universidade questiona o destino dos apoiadores do antigo regime, incluindo alguns que aplaudiram as execuções: Quem deve ser julgado ou demitido e quem deve continuar nos seus empregos para manter o funcionamento do campus?

"Qualquer pessoa ligada ao derramamento de sangue, direta ou indiretamente, não tem lugar aqui", disse Krekshi. "As pessoas que nos chamaram de 'ratos'" – nome que Kadafi dava aos rebeldes – "não podem ficar conosco. Quanto aos outros, nós podemos discutir."

Ele enviou os piores infratores para casa – nenhum deles foi preso, ele disse – e pediu aos professores de Direito que pesquisem maneiras de avaliar de forma justa os demais 5 mil funcionários da universidade.

Enquanto isso, Krekshi é impulsionado pela alegria de seus alunos.

Eles abandonaram o nome dado à universidade na era Kadafi, Fateh. Eles persuadiram Krekshi a abandonar as taxas estudantis, instalar internet livre e adiar as aulas até que os estudantes que empunharam armas retornem de batalhas no leste no país.

O campus arborizado ganha vida conforme eles varrem o terreno, compram latas de lixo, pintam murais e estabelecem organizações estudantis para ensinar a si mesmos sobre a democracia e a sociedade civil – com alguma orientação de grupos de direito internacionais e filmes de Hollywood.

Eles estão aprendendo, como o país, a gerir as diferenças entre o poder e a política. Nura Bargan, 21, como a maioria dos 120 mil estudantes da universidade, boicotou as aulas durante a rebelião. Mas numa tarde ensolarada, ela voltou com uma vassoura e varreu cantando ao lado de outros estudantes o hino nacional e canções rap insultantes sobre Kadafi. Pela primeira vez, ela disse: "Eu sinto que tenho direitos e deveres neste país."

Durante a rebelião, professores pró-Kadafi monitoraram conversas e alguns ainda querem punir os estudantes por matar aulas. Alguns acompanharam a limpeza, aparentemente sem medo, ao lado de colegas pró-rebelião (apesar de algumas semanas mais tarde alguns fugirem quando os estudantes se manifestaram contra eles).

NYT
Uma cadeira ginecologica era abrigada em sala dentro da Universidade de Trípoli, na capital da Líbia
Yusef Ahmed, um aplicado estudante de engenharia, disse a Bargan que seu grupo de colegas estava pesquisando online "24 horas", surpreso com a amplitude do ativismo e da caridade estudantil em outros países.

Sua visão da vida de estudante baseia-se em Hollywood – mais especificamente, ele disse timidamente, em filmes engraçados sobre os anos de faculdade, como American Pie 2. "Nós não temos ideia (de como as coisas devem ser)", disse. "Queremos ver o que é certo e o que é errado."

Mais tarde, o campus passou a se preocupar com o nome do grupo, Coalização 17 de Fevereiro, também usado por um grupo anti-Kadafi dominado por islamitas. Amigos seculares de Bargan, como alguns políticos nacionais, temiam que os bem organizados islamitas estavam tomando conta.

Mas Ahmed disse que o nome não passava de coincidência – 17 de fevereiro é a data de início oficial da revolta – e que recusaram quando os islamitas se aproximaram deles para propor uma cooperação. "Nós já temos namoradas, como podemos ser islamitas?", ele perguntou. Eles mudaram o nome para Sindicato dos Estudantes e agora estão lutando para obter financiamento do Sindicato dos Estudantes da era de Kadafi.

A próxima parada de Bargan naquela tarde foi no gabinete de Krekshi, um ginecologista que estudou na Itália e que foi professor de Medicina na universidade por muitos anos antes de se tornar reitor.

Em sua maneira cortês, ele disse a ela e três amigos que a universidade era deles: os alunos eram livres para expressar todas as opiniões desde que isso não significasse coagir os outros.

As aulas sobre o Livro Verde foram encerradas, ele disse. Mas pediu aos alunos para não queimarem as cópias do manifesto, optando por reciclá-los, além de manter alguns para referência histórica.

Ele mencionou o principal assunto do campus: o estranho apartamento. Ele disse ter encontrado DVDs de alunas que foram sexualmente agredidas no local, corroborando relatos de estudantes, mas tinha destruído tudo para proteger a privacidade das vítimas.

Bargan sentiu coragem o bastante para dizer que ele deveria ter guardado os vídeos como prova. Ele disse que ela iria entender um dia. "Talvez eu seja mais madura então", disse ela, com uma pitada de sarcasmo.

Bargan foi ver por si mesma. O apartamento fica ao lado do Auditório Verde, onde os alunos eram doutrinados.

Lá estava a mesa ginecológica, aparentemente inexplicável; o reitor sugeriu – sem citar provas – que ela servia era para abortos, ou para reparar hímens.

NYT
Universidade de Trípoli, na capital líbia, tinha quarto com cama de casal em auditório

As luminárias da Jacuzzi eram douradas, mas definitivamente não eram de ouro. O quarto tinha um edredon florido bastante usado, armários de laminado de madeira e tapetes orientais baratos. "Shlafti!" exclamou Bargan, usando uma gíria para brega.

Quem mostrava ao redor era o assistente de um professor que ensinava o Livro Verde. Em pé no Auditório Verde – agora um centro estudantil batizado em homenagem a Rasheed Kabar, um estudante enforcado em 1984 – o assistente disse que não sabia nada de qualquer estupro e estava com medo de informar seu nome.

Na lousa, uma mensagem em giz proclamava: "Kadafi se foi."

Por Anne Barnard

    Leia tudo sobre: morte de kadafikadafilíbiamundo árabeuniversidade

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG