Líbia recruta mais soldados novos para defender Kadafi

Com soldados profissionais das milícias em montanhas e fronteiras, novos recrutas são convocados para a capital Trípoli

The New York Times |

Refat, 26 anos, estava feliz trabalhando no departamento de tecnologia da informação de uma loja britânica na capital líbia, Trípoli, até poucos meses atrás, quando foi chamado para o serviço militar pelo governo do líder Muamar Kadafi.

Agora Refat, cujo nome completo foi omitido por medo de retaliação das forças de segurança da Líbia, está patrulhando o bairro rebelde de Souq al-Juma vestindo um uniforme de peças diferentes, dirigindo um pequeno carro branco do governo e preocupado com sua vida noite após noite por causa do crescente número de ataques rebeldes contra soldados como ele na capital.

Na quinta-feira da semana passada, segundo ele, quatro rebeldes armados atacaram um grupo de seus soldados em um posto de controle, matando outro soldado amador chamado Walid, um estudante de 20 anos, e deixando outro ferido. "Estamos com medo", disse Refat. "Estamos de pé sob a luz e eles vêm da escuridão”.

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Partidária de Kadafi participa armada de tour promovido pelo governo líbio em Trípoli (17/6)
Soldados novatos como Refat, cujos relatos revelaram a primeira confirmação de histórias de rebeldes sobre seus ataques noturnos de guerrilha, parecem ser uma parte cada vez mais importante da defesa do governo Kadafi contra a possível insurreição em TrÍpoli. Os soldados profissionais das milícias de Kadafi que antes cruzavam as ruas de bairros como Souq al-Juma em suas picapes brancas, segundo ele, foram chamados para combater na linha de frente perto de Misrata, das montanhas Nafusa ou da cidade de Brega.

Enquanto a ansiedade paira sobre a capital, quatro meses depois do início da revolta na Líbia, Refat patrulha as ruas com um outro soldado amador, um engenheiro de petróleo na sua vida civil, sob a supervisão de um líder mais velho e não uniformizado que ganhava a vida como professor.

"Ninguém tem uma arma ou uma Kalashnikov", disse Refat, para provar o grau de calma no bairro ao acompanhar jornalistas estrangeiros em um passeio sem acompanhantes oficiais.

Segurança

Com os rumores de um ataque rebelde ou de uma manifestação, no entanto, a segurança era rigorosa. Os jornalistas estrangeiros foram quase completamente impedidos de deixar o hotel até depois das 4h30, e os dois que conseguiram espiar lá fora brevemente pela manhã informaram ter visto caminhões da polícia de choque. Para contrariar qualquer potencial oposição, o governo organizou uma passeata de milhares de apoiadores de Kadafi durante o dia na Praça Verde, a praça central da cidade – essa foi a maior manifestação desse tipo aqui em algumas semanas.

Alto-falantes e a televisão estatal transmitiram uma mensagem desafiadora gravada por Kadafi. "A Otan será derrotada", previu ele, chamando os rebeldes que desafiam seu reinado de "filhos de cães”. Horas antes, jatos da Otan voltaram a sobrevoar e bombardear Misrata em plena luz do dia, aumentando a tensão. Uma grande explosão ao sul da cidade lançou uma espessa nuvem de fumaça negra serpenteando ao longo do horizonte.

Cerca de 160 quilômetros ao leste, as forças de Kadafi permaneciam em confronto direto com os rebeldes que tentam avançar de Misrata em direção ao quartel da cidade de Zlitan. A Associated Press noticiou que combatentes rebeldes e uma mulher que vive nas proximidades foram mortos quando as forças de Kadafi dispararam foguetes Grad e artilharia contra os rebeldes na linha de frente.

Em Trípoli, as ruas de Souq al-Juma estavam cheias do que pareciam ser policiais à paisana e agentes de segurança - vários dos quais conversavam com os soldados - e alguns moradores disseram que estavam com medo de serem vistos conversando com repórteres.

Batalhas

Por algum tempo, um grupo de jovens fumando narguile debaixo de uma árvore em um café em uma calçada sussurravam sobre suas batalhas noturnas contra as forças de Kadafi, a sua gratidão pelo bombardeamento da Otan e as suas esperanças de que os combatentes rebeldes acabariam por chegar à capital. Quando um repórter imitou um famoso slogan contra Kadafi, um jovem respondeu com um olhar de pedra, dizendo: "Não diga isso aqui! Você está em Souq al-Juma!" E ele insistiu que, mesmo fora do bairro, “90% dos moradores de Trípoli querem que Kadafi deixe o poder”.

Em seguida, outro grupo de homens sentou-se no café. O primeiro grupo ficou ansioso e silencioso. E, em seguida, os recém-chegados explicaram que todos em Souq al-Juma, como todos em Trípoli, apoiam Kadafi.

A poucos quarteirões de distância, dois jovens à paisana, que estavam sentados perto de um muro, se levantaram para se apresentar como policiais. Em seguida, eles convocaram os soldados para escoltar os jornalistas para longe dali.

Ao passear pelo bairro, Refat notou o vazio das delegacias de polícia que os rebeldes haviam queimado no início da revolta, há quatro meses. E ele apontou onde todas as noites os rebeldes haviam pintado graffiti anti-Kadafi nas paredes de escolas, mesquitas e outros edifícios, forçando Refat e seus companheiros soldados a encobri-los com graffiti pró-Kadafi na manhã seguinte.

Como civil, ele disse que era "viciado em internet" e que sentia muita falta da rede desde que o governo Kadafi a desligou no início da insurreição (apenas os jornalistas estrangeiros têm acesso em seus hotéis). Ainda assim, ele entendeu as razões do governo - "porque as pessoas estavam colocando coisas ruins sobre a Líbia, dizendo que 'Kadafi mata pessoas'.

Ao cair da noite, o suposto ataque rebelde à capital não havia se concretizado. Alguns disseram ainda esperar que rebeldes locais marcassem o dia com algumas ações após a oração final da noite, às 22h, mas até lá os jornalistas estrangeiros já haviam sido confinados a seus hotéis, com seus telefones e internet também desligados.

*Por David D. Kirkpatrick

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