Líbia desafia Estado policial de Kadafi para contar abusos

Vítima de tortura e estupro de milícias ligadas ao governo trouxe à luz violência e ameaça habituais contra mulheres na Líbia

The New York Times |

Eman Al-Obeidy afirma que o governo de Muamar Kadafi a vitimou duas vezes. Primeiro os membros de sua milícia a sequestraram e estupraram repetidamente. Depois a sua rede de televisão estatal a atacou, chamando-a de ladra e prostituta.

Mas ao contrário da maioria das vítimas na Líbia, a estudante de direito levou o caso à mídia internacional, levando as forças de segurança de Kadafi a retirarem-na à força de um hotel cheio de jornalistas enquanto ela gritava para contar sua história. Graças à publicidade, ela disse em sua primeira entrevista depois daquele episódio, ela pode ter tido menos problemas do que o esperado.

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Eman al-Obeidy conta a jornalista como foi espancada e estuprada, em Trípoli, capital da Líbia
Outras mulheres na sua situação, segundo defensores dos direitos humanos, acabam geralmente confinadas durante décadas nos chamados centros de reabilitação, submetidas a exames de virgindade nada científicos, privadas de qualquer entretenimento ou educação, com exceção das aulas de islamismo, e são submetidas ao confinamento em solitárias ou algemadas diante do menor sinal de resistência à autoridade.

Al-Obeidy, que exibia graves hematomas no rosto e na coxa quando esteve no hotel, disse que foi mantida em uma solitária durante três dias, sem nenhuma ajuda médica ou psicológica, e foi interrogada diversas vezes por várias autoridades. Os seus captores estavam preocupados principalmente com a publicidade em torno do caso, disse ela em uma entrevista a um canal de televisão via satélite da oposição líbia.

“Durante todo o tempo que passei na prisão, eles só me pediam uma coisa: que eu falasse ao canal estatal líbio que os indivíduos que me sequestraram não faziam parte das forças de segurança de Kadafi, mas sim de grupos revolucionários e gangues armadas”, disse Al-Obeidy. “Esse era o seu único pedido e eu recusei todas as vezes”.

Al-Obeidy afirmou que agora está em uma espécie de prisão domiciliar na capital líbia, Trípoli. Ela conta que foi cercada por homens armados, arrastada novamente para longe dos jornalistas antes que pudesse sequer entrar no hotel e impedida de deixar o país ou de retornar para a sua família na região leste do país. No domingo, ela disse que havia sido novamente sequestrada e espancada por tentar se encontrar novamente com jornalistas estrangeiros.

“Eu fui sequestrada por um carro e eles me espancaram no meio da rua”, ela disse. “Eles disseram: ‘Sempre que você sair de casa, faremos isso com você’”. Ela acrescentou: “Eu pedi para ver os jornalistas e só por isso eles me espancaram e me mandaram de volta para casa”.

Cultura

Em uma cultura na qual o estupro carrega um forte estigma, Al-Obeidy tornou-se uma improvável heroína por causa de sua teimosia em desafiar o caprichoso Estado policial de Kadafi. “Pura, corajosa e guerreira”, declarou o website da oposição Líbia 17 de fevereiro, cujo nome é uma referência à data em que teve início a revolta. “Que Deus lhe dê paciência”.

O governo de Kadafi fez declarações contraditórias sobre Al-Obeidy desde que ela foi retirada do hotel contra sua vontade. Musa Ibrahim, porta-voz do governo, sugeriu primeiro que ela estava bêbada e que era possivelmente louca. Depois ele disse que Al-Obeidy era uma prostituta e que as acusações de estupro seriam retiradas porque ela havia se recusado a realizar um exame médico.

Ibrahim prometeu diversas vezes que ela teria outra oportunidade de falar à imprensa, chegando a escolher um pequeno grupo de jornalistas, mas no último sábado afirmou a Hadeel Al-Shalchy, repórter da Associated Press, que Al-Obeidy havia se recusado a dar entrevistas. Ele passou um número de celular para Al-Shalchy no qual uma pessoa dizendo ser seu advogado afirmou que ela não desejava dar entrevista porque o seu caso ainda estava pendente.

Mas, em suas entrevistas, Al-Obeidy disse que havia sido submetida a um exame médico que confirmou que ela foi estuprada. Al-Obeidy disse que após três dias de encarceramento e interrogatórios ela foi transferida para um procurador que disse que apresentaria acusações formais de estupro contra os homens.

Ela disse que o seu calvário teve início quando soldados armados de uma das inúmeras barreiras policiais de Trípoli a retiraram à força de um táxi. Em entrevista à CNN, ela disse que eles prenderam suas mãos e pés, a espancaram e jogaram álcool em seus olhos para cegá-la. Ela disse que eles a estupraram repetidamente e a sodomizaram com rifles. “'Deixa os homens do leste da Líbia verem o que estamos fazendo com suas mulheres, como as estamos estuprando'”, contou ter ouvido Al-Obeidy.

Al-Obeidy disse que eles a amarraram com força, em parte porque ela lutou contra eles, mas uma menina de 16 anos que também estava presa apresentou menos resistência. “Eles não a prenderam porque ela desistiu por medo e não resistiu mais a eles ou lutou contra suas tentativas”, disse Al-Obeidy. “Por volta das 7h estava muito frio e ela veio me cobrir. Eu implorei que ela me soltasse e apesar do medo ela o fez. Ela não quis fugir comigo por medo deles, mas me deu seu nome e endereço e pediu que eu avisasse a polícia”.

Na segunda-feira, simpatizantes de Kadafi circularam pela internet um suposto vídeo pornográfico feito por Al-Obeidy. Um jornalista da mídia estatal apresentou uma cópia do vídeo. Mas o que se vê é apenas um vídeo amador relativamente discreto de uma mulher que pratica a dança do ventre e que não se parece com Al-Obeidy.

Tradição

Como em muitos países tradicionalistas da região, os líbios tratam o estupro como um crime contra a honra da mulher e de sua família, e não como um ataque contra a mulher. Em certas famílias, uma menina ou mulher que é estuprada é expulsa e deserdada.

No governo de Kadafi, juízes responsáveis por casos de estupro geralmente impõem casamento entre a vítima e o estuprador como forma de restituir a honra perdida pela mulher. Em outros casos, a vítima é mandada para um centro para “mulheres que correm o risco de se engajarem em uma conduta imoral”, e ela não pode sair até que seja libertada por um marido ou se case.

As mulheres que se encontram nessas instituições, chamadas de centros de reabilitação, são obrigadas a casar com homens que chegam buscando esposas que apresentem um comportamento dócil, disse uma mulher ao grupo Human Rights Watch, que enviou pesquisadores a dois desses centros.

Perguntada por que foi escolhida para o casamento, uma mulher detida nas instalações de um centro perto de Trípoli disse ao Human Rights Watch: “Porque eu não sou encrenqueira”. Outra mulher disse: “Se pudéssemos escapar, todas iríamos embora”.

Al-Obeidy disse que está determinada a não desparecer como as outras. Ela disse que mentiu ao motorista de táxi dizendo que trabalhava no hotel, para conseguir falar com os jornalistas. Ela se recusou a calar-se mesmo quando agentes de segurança à paisana no hotel tentaram cobri-la com um casaco.

“Eu sei que eles poderiam me prender e que com isso ninguém saberia a minha história”, ela disse. “Mesmo quando me bateram e tentaram cobrir o meu rosto para que eu não contasse a verdade às pessoas, eu não tive medo”. “Eu cheguei ao limite da minha tolerância a tudo isso como ser humano”, ela disse.

*Por David D. Kirkpatrick

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