Liberdade e arrependimento marcam vida de americana no Peru

Nova-iorquina Lori Berenson é libertada depois de 14 anos presa por ajudar grupo marxista, mas vive em meio a medo e críticas

The New York Times |

Nas palavras de Juan Luis Cipriani Thorne, arcebispo de Lima, conceder liberdade condicional a Lori Berenson fez do país uma "piada". Julio Galindo, o principal procurador-chefe de combate ao terrorismo do Peru, diz que Berenson uma nova-iorquina condenada por colaboração com um grupo rebelde marxista, continua a ser uma ameaça "irascível" para a sociedade.

O vice-presidente Luis Giampietri pronunciou duas palavras ao saber de sua libertação este ano: "Que ultraje!"

Depois de mais de 14 anos nas prisões do Peru, Lori, 41 anos, recebeu essas afirmações no apartamento onde mora, no quinto andar de um prédio sem elevador. Graças a uma grande cobertura televisiva, o país sabe que o apartamento alugado fica na esquina das ruas Grau e Itália.

Em uma extensa entrevista concedida em sua casa em Lima, Lori disse que passa os dias cozinhando e recitando versos infantis a seu filho Salvador, de um ano e meio. Ela tem medo de coisas simples, como andar na rua, consciente das reações que gera entre os transeuntes.

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Depois de 14 anos na prisão, Lori concede entrevista em apartamento que vive com filho
"As pessoas saíram às ruas gritando que eu era uma assassina de crianças e coisas assim", disse durante a entrevista feita neste mês, descrevendo como os seus vizinhos a receberam após sua libertação da prisão em maio.

Desde então, uma mistura de esperança e turbulência tem definido a sua existência. Ela começou a usar a internet pela primeira vez, fazendo aulas online a fim de se tornar uma tradutora profissional. Mas um tribunal peruano ordenou sua volta à prisão, em agosto, baseando sua decisão em um "tecnicismo" (aparentemente, a polícia deixou de inspecionar seu apartamento).

Mas este mês um juiz restabeleceu sua condicional, restaurando certa liberdade a Lori. Ela deixou a prisão onde estava com seu filho por uma porta lateral e retornou à ira de seus vizinhos. Ela se esquiva ao lembrar de um incidente recente, enquanto andava pela rua, segurando o filho pela mão.

"No outro dia alguém me abordou e disse: 'Você está condenada e ele está perdido. Você vai sofrer por toda sua vida e ele vai te fazer sofrer ainda mais'", disse. "Eu compreendo perfeitamente que as pessoas sentem uma forte antipatia por alguém que representa o terrorismo. O problema é que eu talvez não seja a pessoa que pintam e elas nunca se saberão disso", acusou.

Cicatrizes

A história de como Berenson, filha de professores universitários de Nova York, se tornou uma das pessoas mais desprezadas no Peru continua forte em todas as suas reviravoltas. Depois de ter sido a melhor aluna em uma escola de prestígio de Nova York e no Massachusetts Institute of Technology (MIT), ela seguiu para o Peru em 1994.

Uma carta de uma revista chamada Third World Viewpoint lhe deu credenciais de imprensa para entrar no Congresso do Peru. Mas a polícia a prendeu, em 1995, em um ônibus no centro de Lima. Horas antes, eles haviam feito uma incursão em uma casa de quatro andares que ela alugava, onde foram encontradas 8 mil balas, três mil bananas de dinamite e mais de uma dúzia de membros do Movimento Revolucionário Tupac Amaru (MRTA).

Ela ainda insiste que não tinha conhecimento dos planos violentos do grupo. Mas um tribunal militar a condenou à prisão perpétua por traição. As autoridades a enviaram a uma cela úmida em Yanamayo, uma prisão gelada no alto dos Andes. Sua pena foi reduzida para 20 anos em um novo julgamento que ocorreu em 2001 onde ela foi considerada culpada de alugar a casa usada no plano falho de tomar como refém todo o congresso peruano, mas não de participação na trama.

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No Peru desde os anos 90, Lori evita se expor com medo da reação das pessoas
Atrás dos muros da prisão, a vida continuou. Em 2003, ela se casou com Anibal Apari, um membro do MRTA que conheceu enquanto ambos estavam presos. Ela recebeu permissão de visitas íntimas a Apari, que agora atua como seu advogado, apesar de serem divorciados. Ela deu à luz em 2009, a Salvador, cidadão do Peru e dos Estados Unidos, que passou a maior parte de sua vida na prisão com a mãe.

Várias coisas distinguem Lori de outros americanos que se encontram no distrito de Miraflores. Uma delas é sua fluência impressionante em castelhano, que fala com um sotaque peruano. Outra são as mãos, desgastadas e rachadas por conta da exposição aos elementos das prisões onde ficou detida.

Mas muitos peruanos ainda dizem questionar se ela realmente lamenta suas ações, ou apenas faz o possível para não voltar para a cadeia. "Certamente me entristece e me arrependo de ter feito parte de algo considerado tão prejudicial", disse ela, segurando seu filho no joelho e admitindo seus vínculos com o MRTA, um grupo agora completamente marginalizado. "Minha participação foi a colaboração. Você sabe, eu aluguei uma casa, compartilhei da ideologia", continuou ela, dizendo que nunca planejou participar de um ato violento.

Símbolo

Ainda assim, a maioria das pessoas no Peru a vê como um símbolo da turbulência que atingiu o país na década de 1980 e 1990, quando quase 70 mil pessoas morreram em um período de guerra e rebelião. O Sendero Luminoso, um grupo maoísta, foi responsável por mais da metade dessas mortes. A televisão nacional ainda transmite um vídeo de Lori gravado em 1996 que ficou marcado na memória do país. Com os punhos cerrados, ela gritava: "No MRTA não há terroristas criminosos. É um movimento revolucionário!"

"A minha lógica estava errada e a maneira como eu disse foi ainda pior", ela disse ao lembrar da juventude explosiva. "Foi um grande erro".

Algumas pessoas pedem que o Peru vire a página e aceite essas palavras como as de uma mulher que refletiu os erros do seu passado. Essas visões são frequentemente sufocadas, ainda que incluam as do presidente do país, que manifestou seu ponto de vista embora tenha permitido que os juízes lidem com o caso de Lori.

"Todo esse medo de uma pequena mulher que passou 15 anos na prisão?", disse o presidente Alan García em uma entrevista recente. "Nós podemos cometer erros na vida e temos o direito de ser punidos e libertados quando termina o castigo", disse ele.

Veredicto

Ainda não está claro quando a punição de Lori irá acabar, quando ela poderá voltar aos Estados Unidos como gostaria. Galindo, o procurador antiterrorismo, está apelando de sua prisão preventiva. Um tribunal deverá decidir em breve e há risco de que ela seja enviada de volta à prisão para o resto de sua pena até 2015.

Refletindo sobre os desafios que a esperam, ela disse que muitas vezes se lembra de um livro que leu na prisão, La Gesta Del Marrano, um romance do escritor argentino Marcos Aguin. O livro fala sobre a Inquisição espanhola no Peru colonial e centra-se na perseguição de um importante médico que admitiu sua origem judaica.

"A história é muito viva na forma como as coisas ainda são na sociedade", disse Lori, ao refletir sobre o destino dos exilados de então e de agora. "Acredito que a diferença é que as pessoas acusadas de terrorismo não foram queimadas na fogueira. Se tivéssemos sido, eu me pergunto se nós seríamos menos interessantes. Acho que por alguma razão, é útil que as pessoas continuem sendo consideradas perigosas", acrescentou.

*Por Simon Romero, com reportagem de Andrea Zarate

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