Letreiro de Hollywood causa disputa entre moradores e turistas

Aparelho de GPS facilita chegada a local que é um dos ícones de Los Angeles e irrita população em busca de privacidade

The New York Times |

 Tom LaBonge, um alegre e energético vereador de Los Angeles, dirigiu seu carro oficial pelas estradas estreitas e perigosas que levam a Hollywood Hills, virou uma esquina e freou repentinamente. Um casal se encontrava no meio da estrada, com suas câmeras apontadas para o letreiro de Hollywood em toda sua glória.

"De onde vocês são?", LaBonge perguntou. "Indiana", eles responderam.

"Aproveitem sua estadia", disse ele antes de sair dirigindo novamente. Outro meio quilômetro adiante, ele encostou para abrir espaço para dois carros, abarrotados de turistas. Um pouco mais adiante, uma limusine também chegava trazendo seis pessoas. "Sidney, Austrália!", disse uma delas a LaBonge.

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Turistas franceses posam para foto em área restrita próxima ao letreiro de Hollywood, em Los Angeles (06/09)

Este labirinto isolado de estradas e trilhas nas colinas de Hollywood se tornou o local para uma espécie de guerra entre os moradores - que mudaram para lá para desfrutar da vista das montanhas, da privacidade e dos encontros com coiotes - e um fluxo cada vez maior de turistas em busca de uma foto do letreiro. Uma invasão feita por carros, pessoas que praticam a escalada, o ciclismo e o motociclismo, além de ônibus de turismo em uma tentativa de chegar perto de um marco que parece uma atração turística do mesmo porte do Grand Canyon.

O culpado tem um nome curto: GPS.

O Sistema de Posicionamento Global se tornou um guia para os visitantes que passam pelas complicadas curvas e estradas que levam ao letreiro, uma aventura que, no passado, precisava ter o acompanhamento de guias locais mais experientes.

Rico Carrillo, 30, um engenheiro de som que vive a apenas alguns metros de distância do letreiro, disse que seu endereço é tão obscuro que os sistemas de navegação não conseguem encontrá-lo. "Então eu digo às pessoas que vêm me visitar apenas para colocar em seu GPS ‘letreiro de Hollywood’", disse ele.

Tudo isso levou a uma incrível disputa entre dois grupos da comunidade e colocou vizinhos contra vizinhos, proprietários contra turistas e contribuintes contra autoridades da cidade que abraça o turismo. No entanto, mesmo no meio de todo esse caos, ela também ressalta a importância de um letreiro que foi construído em 1923 para promover as vendas de um lote de terrenos batizado de Hollywoodland.

Em uma cidade onde tantos monumentos e vestígios históricos foram demolidos e substituídos, esse letreiro é um dos poucos símbolos remanescentes do glamour e das celebridades que, na verdade, já nem existem como antigamente.

"Los Angeles é um lugar que não preservou alguns locais mais antigos, então o letreiro se tornou um ícone", disse Gregory Paul Williams, historiador de Hollywood que vive em Beachwood Canyon, logo embaixo do letreiro. "É um marco fotográfico perfeito. É como a Torre Eiffel - você sabe onde está."

Durante todo o dia, o letreiro atrai fãs como Helen Hilt e Michael Kari, ambos turistas alemães. Kari disse que tinha decidido procurar o letreiro depois de ver Justin Timberlake ficar de pé no letreiro no filme "Amizade Colorida".

"Nós colocamos o letreiro no GPS", disse ele com uma placa de "Entrada Proibida" diante de si.

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Cartas criado por morador de área do letreiro de Hollywood pede que turistas deixem o local
Parece que não há fim à intriga que isso vem causando. Uma associação de bairro argumentou que este é um problema com o qual precisam lidar e não ignorar, e colocou uma placa que direciona os turistas para um local de onde se pode observar o letreiro e há vaga para estacionar tranquilamente. Essas placas desapareceram durante a noite, disse LaBonge, removidas por um grupo rival que quer desencorajar as pessoas de irem até o letreiro. Uma reunião recente da Câmara Municipal atraiu centenas de pessoas reclamando sobre ruas congestionadas, lixo e - acima de tudo – cigarros no chão, um ato de alto risco para o meio ambiente do sul da Califórnia, particularmente nesta época de seca.

Não é que as pessoas que vivem nesta área não gostem dos turistas, e elas certamente não negam que entendem o motivo das visitas a um letreiro que se tornou um símbolo do show business americano.

Mas a área é em grande parte de classe média alta, tomada por uma deslumbrante variedade de estilos arquitetônicos. Vans turísticas notam que esta não é uma região de Los Angeles habitada por grandes celebridades - embora LaBonge tenha sido rápido em apontar a casa onde Madonna morou por um tempo.

Autoridades municipais sabem que esta região é na sua maioria constituída por parques, e mesmo que simpatizem com a irritação dos proprietários das casas, dizem que não há como proibir os turistas de visitar uma área que está aberta a todos que saibam como chegar lá. Na verdade, recentemente LaBonge atuava como um anfitrião turístico, parando para dizer "olá" a todos que via, entregando mapas do parque e realizando uma espécie de censo ao perguntar aos visitantes de onde eles vinham (Rússia, Alemanha, Bélgica, Nevada).

Ainda assim, a frustração que abala a região é compreensível. Quando LaBonge conversava com três pessoas que estavam prestes a iniciar uma caminhada por uma trilha de terra em direção ao letreiro, um dos homens estava fumando um cigarro. Perto dali, uma placa alertava "Não faça caminhadas até o letreiro de Hollywood". Mas era só levantar os olhos para ver as três pessoas caminhando até o letreiro.

As pessoas da vizinhança se irritam com a ideia de que estão, na opinião de muitos, recebendo o que merecem. "Estou cansado de ouvir da rádio e da imprensa que não deveria ter me mudado para cá porque sabia que o letreiro estava na região”, disse Hank Pinczower, ex-presidente da Associação de Proprietários de Imóveis de Hollywoodland em uma das reuniões. Segundo ele, antes de ser substituído, em 1978, "o letreiro estava caindo aos pedaços e nós esperávamos que continuasse assim. Isso não aconteceu. Então, temos que lidar com ele."

Crosby Doe, um agente imobiliário local, pediu que a cidade não anuncie o letreiro como ponto turístico. "Deixem-nos em paz. Não existe a necessidade de colocar um letreiro", disse ele. "Mantenha o parque. Desfrute do parque. Mas não torne este local em um ponto para todos os turistas do mundo."

A polícia pode multar pessoas que fumam ou que joguem lixo na área, mas, como as autoridades mesmas admitem, não há como impor uma penalidade a alguém prestes a voltar para, digamos, a Alemanha - e cada vez mais estas multas são ignoradas. E como este não é um local que recebe os mesmos visitantes dia após dia, qualquer tipo de "lição" dada aos turistas tem uma vida útil de um dia.

"Não vejo este fluxo diminuindo", disse David Schafer, que é marido de Schafer e coloca vídeos no YouTube mostrando o congestionamento das ruas da região. "Vjo o fluxo apenas aumentando. Você vai a Hollywood e o que tem para fazer? É o maior ícone de Los Angeles "

Por Adam Nagourney

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