Lei de imigração expõe contradições do Arizona

Debate sobre imigrantes mostra complexa realidade do Estado americano visto como caricatura da intolerância pelo resto do país

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Adesivo colado em carro do Arizona diz: "Vou ficar com minha fé, armas, liberdade e dinheiro...você fica com o troco"
Os moradores do Arizona já estão acostumados a ser motivo de escárnio para americanos de outros lugares.

Anos depois de a maioria dos Estados americanos ter declarado feriado no dia do aniversário do ativista Martin Luther King Jr., o Arizona ainda resistia; o xerife de seu maior condado força prisioneiros a usar cuecas rosas, em uma aparente agressão à sua masculinidade; as pessoas podem carregar armas de fogo por toda parte, mas não podem cortar um cacto.

O resto dos Estados Unidos pode zombar ou resmungar, mas o Arizona segue em frente.

Agora, depois de aprovar a lei de imigração mais forte do país, que dá à polícia amplo poder para abordar pessoas suspeitas de estar ali ilegalmente, o Estado se vê em meio ao que talvez seja seu mais duro debate em pelo menos uma década.

A lei, que poderá ser questionada pelo Departamento de Justiça, provocou desde uma rara repreensão do presidente até piadas de comediantes na televisão. Conselhos municipais de outros Estados pediram um boicote ao Arizona. Uma empresa cancelou uma conferência em Scottsdale em um momento em que o Estado está falido e desesperado por negócios. Enquanto isso, protestos acontecem no Capitólio.

Mas se para grande parte dos americanos o Arizona se tornou uma caricatura da intolerância, a realidade é muito mais complexa e por vezes contraditória.

O Estado é lar de uma das leis prisionais mais fortes do país e também de uma das mais limpas legislações sobre financiamento de campanha.

Os eleitores reelegeram em peso a democrata Janet Napolitano como governadora no mesmo ano em que colocaram o senador conservador John Kyl em Washington. Jan Brewer, a atual governadora republicana, assinou a lei de imigração, mas também está trabalhando por um aumento de impostos.

“O Arizona é o pedaço de terra mais imprevisível politicamente que eu já vi”, afirma Chip Scutari, um ex-repórter de política que atualmente é dono de uma empresa de relações públicas em Phoenix. “É a terra do xerife durão Joe Arpaio, mas também do congressista liberal Raul Grijalva, que defende um boicote a seu próprio Estado. Esse é o Arizona.”

‘História se move para o leste’

A lei de imigração do Arizona e a reação de todo o país a ela lembram outra batalha, travada em 1994 na Califórnia. Na época, uma lei que impedia imigrantes ilegais de ter acesso ao sistema de saúde, à educação pública e a outros serviços foi aprovada em votação e assinada pelo então governador Pete Wilson.

Conhecida como Proposição 187, a medida foi derrubada pelos tribunais (uma possibilidade no Arizona também, segundo especialistas). O governo Clinton respondeu com a Operação Gatekeeper (Guardião, em tradução livre) e reforçou o controle na fronteira da Califórnia, o que acabou empurrando o tráfico de drogas e imigrantes para o leste. Como resultado, atualmente o Arizona tem o maior número de pessoas presas ao cruzar a fronteira dos Estados Unidos com o México. Além disso, metade da droga apreendida entre os dois países é confiscada no Arizona.

“O cenário político e emocional é quase idêntico”, afirma Dan Schnur, diretor do Instituto de Política Jesse M. Unruh da Universidade do Sul da Califórnia, que foi assessor do governador Pete Wilson. “A história não se repete, apenas se move para o leste.”

Como a Califórnia naquela época, o Arizona está tomando seus próprios passos em vez de esperar o governo federal mudar suas políticas de imigração.

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Em Phoenix, Arizona, imigrante protesta contra lei com cartaz que diz: nós somos humanos

Segundo moradores, cientistas políticos e empresários do Arizona, a aprovação da nova lei de imigração foi possível por causa de uma combinação de fatores, que incluem mudança demográfica (os hispânicos, que eram 25% da população em 200, hoje já são 30%), problemas econômicos e o aumento da violência no México.

Além disso, há a percepção de que o governo federal deixou de agir na questão da imigração, algo que incomoda os moradores do Estado principalmente porque a ex-governadora Janet Napolitano agora chefia o Departamento de Segurança Nacional.

Discussões sobre a nova lei tendem a começar ou terminar com uma referência a Napolitano, uma ex-advogada e procuradora-geral que personificou a complexa política do Estado. Como governadora, ela apoiou o posicionamento de soldados da Guarda Nacional na fronteira, expandiu o uso da polícia estadual em operações antitráfico e pressionou Washington por uma revisão na lei de imigração.

Agora, como secretária de Segurança Nacional, ela corresponde ao apelo do governo por recursos para a fronteira, mas resiste à pressão pelo envio de soldados da Guarda Nacional.

México

O crescimento da violência no México preocupa os moradores do Arizona, bem como o aumento do tráfico de drogas pesadas e de imigrantes ilegais no Estado. A maior parte dos estudos realizados mostra que os imigrantes ilegais não cometem crimes em proporção significativamente maior que outras partes da população. Mas qualquer crime ligado a eles ganha destaque, principalmente os violentos.

Nos últimos anos, à medida que a economia do Estado, bastante dependente do setor de construção, começou a entrar em crise, a hostilidade contra imigrantes ilegais cresceu. “Mais pessoas parecem acreditar que os hispânicos estão roubando os empregos”, disse Bruce D. Merrill, que coordena pesquisas de opinião mensais entre eleitores do Arizona.

Moradora do Estado, a técnica de computadores Mona Stacey diz que “quem não vive no Arizona não entende o problema”. “Grande parte dos imigrantes são de famílias boas e católicas, mas também vêm os traficantes”, afirma. “Isso faz com que as pessoas boas pareçam más. Você não sabe quem é quem.”

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