Legado de Mubarak atrapalha nascimento de um novo Egito

Após décadas de governo autoritário, nenhum grupo parece preparado para guiar país durante transição para a democracia

The New York Times |

Se as manifestações de fevereiro no Egito foram um levante contra o presidente Hosni Mubarak, a que acontece agora é contra o seu legado.

"Esta é a verdadeira revolução", disse Mohammed Aitman, enquanto ajudava em uma clínica de primeiros socorros improvisada em uma Praça Tahrir turbulenta e, às vezes, em êxtase.

Os vestígios do legado de Mubarak – os militares, a Irmandade Muçulmana e outros islamitas, ou liberais e esquerdistas fragmentados – parecem mal preparados para navegar a transição de seu governo. Este é um acerto de contas bem mais difícil do que aquele que ecoou nas revoltas árabes na Síria, Líbia, Iêmen e Bahrein.

AP
Manifestante balança bandeira do Egito na Praça Tahrir, no Cairo (24/11)

A estratégia que por tanto tempo reprimiu com sucesso a raiva pública e acalmou a vontade das pessoas de se rebelar já não está funcionando. Como resultado, não está claro se o Egito vai encontrar um caminho para avançar. As autoridades esperavam que os manifestantes se esgotariam e voltariam para casa, mas eles não fizeram isso. Os militares tentaram a violência, mas não funcionou. Ele tentaram concessões limitadas, mas não funcionou. E culparam os estrangeiros por incitar a violência, mas não funcionou.

Isso pode prenunciar um período perigoso e prolongado de instabilidade no Egito, à medida que a espetacular demonstração de descontentamento que tomou a Praça Tahrir mostra que não há nenhuma instituição para canalizar as frustrações do povo.

O militares parecem em grande parte alheios à escala dos protestos e os partidos islâmicos estão única e exclusivamente em busca de seus objetivos políticos conforme preveem um bom resultado nas próximas eleições. Nenhum líder, de qualquer inclinação ideológica, surgiu para canalizar o descontentamento que mais uma vez transborda para as ruas.

"Hoje há um fracasso da classe política", disse Ibrahim el-Houdaiby, analista do Dar al-Hikma, um centro de pesquisa no Cairo. "As pessoas se sentem traídas."

Uma das realizações duradouras de tantos autocratas árabes, alguns deles ainda no poder, foi a sua capacidade de atrair, desmantelar ou abolir as instituições que poderiam orientar a transição na sua ausência, enquanto eles apostavam nas divisões sociais para prolongar o seu domínio.

A versão do Egito do legado de um autocrata esteve em exibição na terça-feira, quando militares acostumados a décadas de privilégio se recusaram a entregar o poder (ao menos por enquanto) e uma classe política acovardada por anos de autoritarismo – a Irmandade Muçulmana é o exemplo mais proeminente – pareceu oportunista, defensiva ou sem imaginação.

Para muitos na praça, os políticos estavam colocando seus interesses à frente ou se mostrando incapazes de cumprir uma visão que poderia conter a pior crise diante do Egito desde que Mubarak foi derrubado no dia 11 de fevereiro. A raiva foi tão grande que um político da Irmandade foi expulso do local por uma multidão que, como em fevereiro, está determinada, mas sem liderança.

"Ainda estamos lidando com o sistema de Mubarak", disse Mustafa Tobgi, um oficial do governo de 56 anos de idade. "Eles são todos graduados da escola Mubarak."

A Praça Tahrir, um local icônico dos protestos que derrubaram Mubarak, foi muitas vezes um retrato de desespero, quando os jovens enfrentaram a polícia. A amplitude das reivindicações dos manifestantes – efetivamente um fim imediato do regime militar – e a recusa dos militares em abandonar o poder até o próximo ano sugerem que o descontentamento persistirá. As suspeitas eram tão grandes na terça-feira que nada além de uma medida dramática parecia poder estancar a determinação dos manifestantes ou o fim dos confrontos.

"As diferenças entre os militares e os manifestantes são tantas agora que é quase impossível resolvê-las", disse Shadi Hamid, diretor de pesquisa do Centro Brookings Doha, que está visitando o Cairo. "Esse é o problema. O máximo que os militares podem oferecer não chega ao mínimo do que os manifestantes estão exigindo".

É notável o quão pouco as eleições figuravam em conversas na praça. Elas devem ter início no dia 28, mas ninguém está debatendo plataformas, candidatos ou partidos.
Apesar disso, as eleições parecem fundamentais para a Irmandade e outros islamitas, que poderiam garantir seu maior poder eleitoral na história do Egito.

Analistas dizem que o grupo é assombrado pela experiência das eleições na Argélia em 1991, quando os militares intervieram para evitar uma vitória quase certa dos islâmicos. Isso levou a uma guerra civil que agitou a Argélia por quase uma década, deixando cerca de 200 mil mortos.

Até agora, a Irmandade tem efetivamente permanecido do lado dos militares. Apesar de tentar proteger suas apostas, a Irmandade se manteve praticamente ausente da Praça Tahrir, insistindo que a maioria dos egípcios não está por trás dos protestos.

Alguns analistas traçaram paralelos com a decisão da Irmandade em se juntar à revolta em janeiro apenas depois de ela ter atingido uma massa crítica. "Eles estão novamente atrasados para o show ou completamente ausentes", disse Michael Wahid Hanna, pesquisador da Fundação Century, em Nova York.

Na praça, o objeto da ira das multidões não é apenas o governante do país – marechal Hussein Tantawi, 76 anos, chefe do Exército, que atuou como ministro da Defesa de Mubarak por duas décadas -, mas toda a liderança militar que, pelos relatos, falhou na transição que originalmente deveria durar seis meses.

"A revolução que aconteceu em fevereiro, embora tenha sido linda, nos deixou com um golpe de Estado", disse Ahmed Afifi, um químico de 52 anos de idade, que participou do protesto. "Tantawi nunca foi persuadido de que houve uma revolução. Tudo o que ele quer fazer é renovar o velho sistema ".

Um popular romance egípcio, "Utopia", ambientado em um Cairo do futuro, fala de uma personagem que explica um levante. "Como diz o ditado: ‘A pedra suportou muitos golpes, mas só quebrou no 50º'. Não foi o 50º golpe que quebrou a pedra, mas todos os anteriores". Esse sentimento foi muitas vezes pronunciado em uma praça onde a quantidade de manifestantes aumentava ao longo do dia.

As cenas eram, por vezes, sombrias. Homens em motocicletas passavam pela multidão, buzinando, a caminho de confrontos com a polícia. Jovens recuperavam o fôlego na sarjeta. Alguns estavam enfaixados, outros tinham os olhos vermelhos de gás lacrimogêneo. "Você é um covarde, Marechal de Campo", gritavam os manifestantes. "Não vamos deixar a praça."

Questionado sobre se estava preocupado com a agitação, Hosni Ihab, um engenheiro de software de 27 anos que usava uma máscara cirúrgica para evitar o gás lacrimogêneo, balançou a cabeça. "Ficaria mais preocupado se não houvesse ninguém aqui", respondeu.

Mas alguns analistas sugeriram que as ruas cheias de descontentes poderiam ser uma característica permanente, conforme os políticos insistem em debates sobre a lei islâmica em vez de se preocuparem com preocupações populares como segurança, economia e corrupção, e os militares permanecem entrincheirados em uma narrativa cada vez menos comum: a de que são os salvadores da revolução.

"Se tivermos que passar por outra revolução e outra revolução e outra revolução, que assim seja", disse Hosni. "Ninguém realmente sabe como isso vai acabar."

Por Anthony Shadid

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