Juventude iraquiana combate elite política para conquistar espaço

Onda de revoltas democráticas no mundo árabe e no Oriente Médio expõe conflito de gerações no Iraque

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Jovem participa de manifestação na Praça Tahrir, em Bagdá (08/04)

Inspirados nos levantes que tomaram conta do Oriente Médio, os jovens legisladores do Parlamento iraquiano estão agindo contra uma elite política ainda dominada por exilados que seguiram os tanques americanos de volta ao Iraque para estabelecer uma democracia frágil e marcada pela violência.

Nas ruas, as vozes dos jovens manifestantes e jornalistas foram silenciadas pelos cacetetes e balas das unidades de segurança de elite. Elas só respondem a um primeiro-ministro que, segundo os agentes, envia ordens por mensagem de texto.

A "primavera" do mundo árabe não aconteceu no Iraque.

Em um país onde a população está cada vez mais jovem, mais até do que em lugares como o Egito, a Tunísia e a Líbia, a onda de mudanças políticas na região expôs um conflito de gerações. O país é dividido por velhos ressentimentos, alimentado pela ditadura e pela guerra, bem como por jovens que se esforçam para ter uma participação no novo Iraque.

"A nova geração está preparada para avançar. Eles carregam menos ressentimentos", disse Rawaz M. Joshnaw, 32, integrante do Parlamento curdo, em entrevista recente.

No entanto, as forças da juventude são enfraquecidas pelas mesmas forças que tem privado a sociedade do Iraque por tanto tempo: violência, economia estagnada, política de soma zero e sectarismo. Isso tem impedido o surgimento de uma nova classe política que leve o Iraque a um novo futuro democrático.

Um sentimento comum percebido em diversas entrevistas com jovens iraquianos recentemente é um desencanto prolongado tanto com os líderes políticos quanto com a forma como a democracia tem sido implementada no país.

"A juventude é a classe dos excluídos da comunidade iraquiana", observou Alves Swash, 19, estudante de Direito em Kirkuk. "Então começamos a nos unir através do Facebook, pela internet ou por meio de manifestações e à noite em cafés, simpósios e universidades. Mas não temos poder”.

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Protesto em Bagdá busca inspiração em levantes no Egito e na Tunísia (08/04)
O governo de unidade do Iraque está dando sinais cada vez maiores de divisão devido a um acordo de partilha do poder apoiado pelos Estados Unidos.

Se o governo sofrer uma ruptura e uma pequena maioria de partidos liderada pelo primeiro-ministro xiita Nouri Al-Maliki, antes no exílio, assumir o controle, o resultado seria uma grande divisão e potencialmente mais violência.

Para os jovens, é outro indício da dificuldade em conseguir ter voz na democracia do Iraque e uma narrativa contra a grande história que está sendo escrita em outras partes do Oriente Médio.

Em Basra, Salah Mahmod, 18, disse que os políticos locais estão "enamorados" do poder. "Não temos democracia e os políticos não têm nenhuma ideia do que isso significa”, afirmou.

No entanto, é um indício de progresso que esses alunos possam falar livremente e realizar protestos nas ruas. Um resultado é que os bares reabriram em Bagdá, depois de terem sido fechados em janeiro.

"Eu não quero ser negativo a respeito disso", disse Shereen Ahmed, 19 anos, que está estudando para se tornar professor na província de Anbar. "Sim, nós estamos testemunhando uma pequena dose de democracia agora, a partir do que vemos nos protestos no Iraque. Quando Saddam Hussein estava aqui, nem mesmo um único iraquiano poderia ir para a rua protestar porque eles seria morto”.

Talal Al-Zubai, 41, é legislador do bloco Iraqiya , uma coalizão liderada por Ayad Allawi, que foi eleito pelos Estados Unidos para ser primeiro-ministro em 2005 e já foi atacado no exílio por assassinos enviados por Saddam empunhando machados. Al-Zubai decidiu formar um bloco parlamentar de jovens depois de ter testemunhado os protestos na região e no próprio país.

Ele disse que seis deles se juntaram e outros 20 têm secretamente manifestado seu interesse, mas têm medo de sair em público porque "por enquanto, temem seus próprios líderes”.

Al-Zubai, um político sunita que diz com orgulho o número de tentativas de assassinato a que sobreviveu (três: um carro-bomba, uma bomba e uma arma de fogo), não tem esse medo e falou abertamente sobre o seu desprezo pela elite política, em entrevista no saguão do escritório Iraqiya no Parlamento.

"O problema é que esses líderes têm mais poder do que nós", disse Al-Zubai, que trabalha em seus estudos de pós-graduação em uma faculdade em Bagdá. "Eles têm mais dinheiro para concorrer a uma eleição. Eles podem usar o Exército e a polícia para consolidar seu poder”.

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Hussein al-Najar é membro de um grupo que convoca protestos pelo Facebook em Bagdá (31/03)

No Iraque, as tendências demográficas que têm sido o elemento central da onda de levantes democráticos são muito mais pronunciadas do que em outros países. A idade média no país é de 21 anos, com base no World Fact Book da CIA. No Egito, 24, e na Tunísia, 30 anos. Quase 40% da população iraquiana tem 14 anos de idade ou menos, em comparação com 33% no Egito e Líbia, e 23% na Tunísia. Comparações com o Bahrein e a Síria são semelhantes.

Recentemente, um grupo de jovens iraquianos que se voltou para o Facebook para organizar protestos por melhores serviços se reuniu em Bagdá, perto de uma igreja onde mais de 60 cristãos foram mortos no ano passado. Os organizadores informaram que foram detidos e agredidos pelas forças de segurança depois dos protestos – eles dizem ter sido chamados de homossexuais e baathistas.

O jornalista Ali Abdul Zahra contou ter visto um de seus amigos ser espancado enquanto o policial perguntava: "Você é o cara do Facebook? Você quer a liberdade, né? Vou dar-lhe a sua liberdade”.

No Iraque, a violência e a política continuam entrelaçadas - mesmo oito anos após a invasão dos Estados Unidos, seis anos após a ratificação de uma Constituição e depois de várias eleições nacionais e locais, todas aprovadas por grupos internacionais como livres e justas. Recentemente, um ataque brutal contra o chefe do governo local em Tikrit, cidade natal de Saddam Hussein, matou quase 60 pessoas, incluindo três membros do conselho provincial.

Essa insurgência cria um espaço para líderes como Al-Maliki centralizarem o poder, principalmente nas forças de segurança, segundo os críticos. Allawi disse em uma entrevista que, como parte do acordo de partilha do poder para formar o governo no ano passado, “concordou que as unidades ligadas ao primeiro-ministro deveriam ser liberadas”. Isso não aconteceu.

"Não há partilha de poder", disse ele, "não há democracia”.

Por Tim Arango

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