Julgamento mostra que vínculos com terror continuam profundos no Paquistão

RAWALPINDI ¿ Em uma prisão de segurança máxima na cidade, cinco homens ¿ todos membros do grupo militante islâmico descrito pelos EUA e a Índia como os organizadores do ataque terrorista em Mumbai, no ano passado ¿ foram trazidos diante um tribunal temporário, na primeira tentativa do Paquistão em levá-los à justiça.

The New York Times |

As breves aparições no sábado, descritas por um advogado de defesa, foram conduzidas em segredo por razões de segurança, em um caso que o Paquistão diz mostrar sua vontade em processar o grupo, Lashkar-e-Taiba. O país também afirma que o caso demonstrará que seu exército, que uma vez apoiou o grupo como forças hospedeiras contra a Índia, cortou todos os vínculos com os militantes.

Mas por trás dos primeiros indícios do caso, simpatias pelo Lashkar-e-Taiba, seus militantes e pela cultura anti-indiana continuam profundas nesse país, levantando um difícil desafio contra quaisquer mudanças duradouras para desmantelar a rede.

A sociedade de Lashkar-e-Taiba se estende a cerca de 150 mil pessoas, de acordo com um oficial de cargo médio da principal agência espiã paquistanesa, a Directorate for Inter-Services Intelligence. Juntos com outro grupo militante, Jaish-e-Muhammad, os fiéis à Lashkar-e-Taiba poderiam colocar o Paquistão em chamas, admitiu o oficial. Além desse risco, os militantes da jihad são boas pessoas e poderiam ser controladas, de acordo com o oficial, falando sob a condição de anonimato, para manter os hábitos da agência.

Oficiais da administração de Obama dizem que continuam pressionando os paquistaneses para garantir a prevenção de uma sequência dos ataques de Mumbai em novembro, no qual mais de 160 pessoas foram mortas em uma investida contra dois hotéis cinco estrelas, um centro judaico e uma estação de trem lotada.

Uma confissão surpresa, na semana passada, do único combatente sobrevivente deixou claro que a Lashkar-e-Taiba tem a capacidade de treinar de forma barata e rápida homens jovens de vilas, para torná-los seguidores intensos e assassinos habilidosos, disse um oficial sênior da administração de Obama.

O combatente, Ajmal Kasab, 21, contou que recebeu treinamento em campos em Muzaffarabad, capital da parte paquistanesa da Caxemira, e em Manshera, uma cidade ao nordeste.

No Paquistão, muitos deduziram que a declaração de Kasab foi algo forçado por investigadores indianos, mas muitos detalhes se encaixam com as descrições das operações do Lashkar-e-Taiba fornecidas por dois ex-integrantes. Eles, que disseram ter relações amigáveis com o grupo, contaram que ao menos um campo de treinamento da milícia ainda estava em operação nas colinas ao redor de Muzaffarabad.

O Paquistão disse que os vínculos com o Lashkar-e-Taiba foram cortados logo após os ataques de 11 de setembro, sob a pressão da administração Bush para se unirem à campanha contra o terror. O ministro do Interior, Rehman Malik, disse em uma entrevista que a infraestrutura do grupo não é mais tão completa.

Mas oficiais da administração Obama dizem que ainda estão tentando entender o estado das relações entre o Paquistão e o grupo. Entre as versões mais prováveis, de acordo com eles, ninguém obstruiria as hostilidades entre o Paquistão e a Índia.

As possibilidades incluem o fato de que o Lashkar-e-Taiba continua sendo uma alavanca para o Estado paquistanês ou que o grupo ou outros integrantes se realinharam silenciosamente com os interesses do Paquistão e poderiam ser usados secretamente. Além disso, poderia ser que os grupos tivessem se separado dos instrumentos da segurança oficial e estão agindo independentemente.

Um oficial paquistanês sênior reforçou essa possibilidade, dizendo que as conexões entre a agência espiã do Paquistão e o Lashkar-e-Taiba estavam tão divididas, que era uma questão de arrependimento que o exército não pudesse mais controlá-lo.

Uma falta de controle poderia trazer consequências devastadoras da mesma forma que se o exército paquistanês ainda estivesse apoiando os grupos, disseram dois oficiais seniores dos EUA. Meu chute é que, o exército não tinha conhecimento da ordem dos ataques de Mumbai, disse um oficial dos EUA. Foi uma falta de disciplina? É um assunto muito, muito sério não importa de que forma tenha sido.

O comandante do exército do Paquistão, general Ashfaq Parvez Kayani, disse em conversas com a administração de Obama que estava tentando controlar o Lashkar-e-Taiba.

Eles dizem, nós estamos sendo mais vigilantes, mas acrescentam, a propósito, a Índia deve parar de mexer com o Baluquistão, disse um oficial americano, familiarizado com os diálogos, sobre os paquistaneses. Ele se referiu a uma província devastada por combates brutais de extremistas, no qual o Paquistão acusou a Índia de financiar insurgentes.

O objetivo maior do Lashkar-e-Taiba, que opera sob a frente de caridade, Jamaat-ud-Dawa, é a derrota da Índia. Ele também envolve uma forte plataforma anti-israelense e a união ao Ahl-i-Hadith, uma tensão do grupo Wahabi do islã. Nessas terras doutrinárias, o Lashkar-e-Taiba tem muito mais em comum com os objetivos internacionais da Al-Qaeda, dizem especialistas em terrorismo.

O Lashkar-e-Taiba e a Al-Qaeda são aliados na jihad islâmica global, disse Bruce Riedel, que dirigiu as análises do presidente Barack Obama quanto a política para o Afeganistão e Paquistão, neste ano. Eles compartilham da mesma lista de alvos, e suas atividades frequentemente trabalham e se escondem juntas.

Entre as evidências da sofisticação de Lashkar nos ataques de Mumbai está a voz de um dos treinadores dos combatentes, que falava um inglês fluente, no que parece ser fitas de ligações interceptadas, fornecidas pelo Canal 4 da Grã-Bretanha para um documentário mostrado neste mês.

Malik, ministro do Interior paquistanês, disse que perguntou à Índia por telefone os números das ligações.

Pareceu improvável que o treinador fosse o homem acusado de planejar os ataques, Zaki ur-Rehman Lakhvi, que foi um dos cinco homens que foram ao tribunal no sábado. Lakhvi, de cerca de 55 anos, não fala inglês, de acordo com dois ex-integrantes do Lashkar.

Na fita, o treinador fala em tons calmos enquanto informa ao homem armado os alvos que deve mirar, as armas que deve usar e o que dizer aos reféns e às autoridades indianas, enquanto se mantém calmo sob a pressão.

O Lashkar-e-Taiba definitivamente estava envolvido, mas tiveram ajuda e assistência de fora, disse Sajjan Gohal, um especialista em terrorismo na Grã-Bretanha. A fita sugere que o treinador recebeu treinamento militar que foram além das preparações básicas de um terrorista.

Em certo ponto, ele disse a uma mulher mantida como refém no centro judaico, apenas se sente e relaxe, e, talvez você vá comemorar o Sabbath (sábado, dia religioso para os judaicos) com sua família. Mais tarde, a mulher foi morta por ordem do treinador.

Por Jane Perlez e Salman Masood


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