Jovens retomam tradição de mergulho em busca de pérolas no Kuwait

Expedição anual permite que população entre em contato com esquecido passado marítimo do país

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Não foi como nos velhos tempos: desta vez, os navios eram menores, a viagem mais curta, o trabalho mais fácil e os jovens marinheiros certamente menos durões.

Mas nada disso perturbou um antigo mergulhador, que observava com aprovação enquanto uma nova geração de homens do Kuwait partia ao mar, erguendo velas e batendo palmas enquanto cantavam antigas canções dos mergulhadores de pérolas.

Para o mergulhador, Khalifa Al-Rashid, 74 anos, os jovens representaram a esperança de que, num país transformado pelo petróleo – em uma terra de grandes shoppings centers, carros de luxo e vidas subsidiadas pelo Estado, onde a cidadania tem sido um caminho para o privilégio – ainda há espaço para algo antigo e difícil.

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Jovens do Kuwait participam de expedição de mergulho em busca de pérolas no Golfo Pérsico

Al-Rashid foi um dos guias de uma expedição anual de mergulho em busca de pérolas, uma viagem que os organizadores qualificam como uma simples tentativa de conectar os jovens do Kuwait com seu passado esquecido.

Todos os anos desde 1986, no quente verão do Kuwait, os homens, adolescentes e jovens na faixa dos 20 anos, navegam em embarcações de madeira e vela por 97 quilômetros em uma caçada de 10 dias em busca das pérolas que antes formavam o pilar da economia da região.

As viagens também servem a outro propósito, segundo alguns observadores. Em um país torturado por disputas sobre quem realmente pertence ali, as expedições em busca de pérolas comemoram o histórico das famílias mais proeminentes do país, recordando os dias em que eram comerciantes que ganhavam a vida no mar.

Mas esses debates não acontecem nos barcos. Em um sábado recente, cerca de 200 jovens sentados em 15 embarcações no fim de sua jornada, saboreavam, ainda que exaustos, seus últimos momentos juntos.

“Nós dormimos no exterior e cozinhamos “, disse Aqeel Ashkanani, 26, sentado ao lado de Rashid num dos barcos. “Não pensei que seria tão difícil”.

A embarcação seguia para o Kuwait Sea Sport Club, onde os parentes dos jovens mergulhadores se reuniram na areia para cumprimentá-los. Autoridades do governo assistiram tudo de cadeiras confortáveis em um deck de observação. A televisão local transmitiu o evento ao vivo.

“Esta é a nossa tradição. Devemos mantê-la”", disse Ashkanani.

O evento é popular, em parte porque testa jovens que os kuwaitianos mais velhos temem ser mimados. “A descoberta do petróleo mimou toda uma geração”, disse Saad Al-Ajmi, escritor e ex-ministro da Informação do Kuwait. “Eles não fazem trabalhos ditos inferiores. O mergulho em busca de pérolas era uma profissão dura e difícil. Ela faz parte da nostalgia dos ‘bons tempos’, ao contrário de hoje, quando os kuwaitianos são empregados principalmente pelo Estado”.

Ali Al-Qabandi do Kuwait Sea Sport Club explorou as virtudes do ritual de verão. “Eles aprendem a se comportar e a participar de um grupo. Eles aprendem a respeitar os mais velhos e descobrem como seu avô e seu pai viviam”. “Eles aprendem a ser pacientes”, disse.

A expedição faz parte de um longo debate no Kuwait sobre o significado da cidadania do país, de acordo com os estudiosos locais. “Alguns segmentos da sociedade acreditam que reviver este evento é de certa forma uma resposta para saber quem é realmente do Kuwait”, disse Abdulhadi Al-Ajmi, um historiador do país.

O evento, segundo os pesquisadores, repete a história de kuwaitianos que são vistos como parte da classe “fundadora” do país, comerciantes e pescadores que viviam e trabalhavam no mar, controlando os mergulhos em busca de pérolas e outras atividades. Embora estas tenham se tornado as famílias mais proeminentes do Kuwait, outras, como as dos beduínos que vieram do deserto, por vezes, têm dificuldades para reivindicar seus direitos.

O debate sobre o estatuto desigual tem espaço proeminente em jornais locais e na Assembleia Nacional do país, segundo o professor Abdullah Alhajeri, que leciona história moderna na Universidade do Kuwait.

“Nós nos concentramos na história dos assentados”, disse ele. “Metade da história está faltando”.

Faz décadas que os kuwaitianos viviam do mar. O comércio, praticado em todo o Golfo Pérsico, foi prejudicado pela Grande Depressão, o surgimento de pérolas cultivadas no Japão e a descoberta de petróleo.

Os mergulhadores eram servos endividados, de acordo com pessoas que têm estudado a prática do comércio local, que viviam do dinheiro emprestado dos capitães dos barco. Eles mergulhavam para pagar suas dívidas e, se morressem antes do reembolso dos empréstimos, seus débitos eram passados para seus filhos ou irmãos.

“Muitas pessoas nem sequer sabem muito sobre a economia do Kuwait antes da era do petróleo”, disse Anh Nga Longva, professor da Universidade de Bergen, na Noruega, que tem estudado as semelhanças entre as condições econômicas enfrentadas pelos mergulhadores antigos e os imigrantes atuais no Kuwait.

Os mergulhadores, ele disse, “eram pessoas muito pobres e tinham dívidas durante toda a sua vida”.

Rashid aprendeu o ofício com seu pai e começou a mergulhar quando tinha 16 anos. Os barcos realizavam dezenas de mergulhadores e poderiam ir até Omã em viagens que duravam cerca de quatro meses. Os mergulhadores usavam pregadores em seus narizes, cera em seus ouvidos, dedais de couro em seus dedos e cestos para transportar as ostras.

Eles permaneciam na água por mais de um minuto para colher pérolas a 18 metros ou mais de profundidade.

“Nós comíamos peixe e arroz”, disse Rashid. Eles mergulhavam 30 ou 40 vezes ao dia, uma programação rigorosa que levava a lesões frequentes e às vezes eram fatais.

Mas mesmo com essas dificuldades, a nostalgia daquela era não parece estranha a Rashid. As coisas são mais fáceis hoje em dia, “mas a nossa cultura daquela época se foi”, disse.

As embarcações eram construídas no Kuwait, mas agora são importadas de outros países do Golfo. Hoje os mergulhos duram menos de um minuto e os jovens fazem busca a 3 ou 4 metros de profundidade.

Mas o trabalho ainda é difícil, segundo os homens. Depois que a viagem terminou – rendendo cerca de 600 pérolas – Fahad Al-Hamad, 16 anos, disse que sua vida tinha mudado. A viagem tinha quebrado a sua rotina habitual de se hospedar em casas de verão ou perder tempo em um cafés sheesha.

Não havia ar condicionado ou eletricidade.

“Você tem que depender de si mesmo”, ele disse. “No mar, há regras”.

Por Kareem Fahim

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