Jovens palestinos querem fim da divisão entre Cisjordânia e Gaza

Impulsionados por revolta no mundo árabe, palestinos se voltam a problemas internos e encontram união pelo fim de duas lideranças

The New York Times |

Os jovens palestinos, observando as revoluções no Egito, na Tunísia e em outros países da região, não carecem de suas próprias causas dignas de protesto.

Eles têm a ocupação de 43 anos de Israel, a frustração com a liderança entrincheirada e envelhecida da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), a falta de liberdade no âmbito das autoridades palestinas concorrentes na Cisjordânia e em Gaza e, mais recentemente, a raiva a respeito do veto americano a uma resolução do Conselho de Segurança da ONU condenando a atividade de assentamentos israelenses ilegais na sexta-feira passada - uma medida que eles dizem demonstrar o "duplo padrão" adotado pelos Estados Unidos.

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Trabalhadores tentam se proteger do frio em blocos de concreto enquanto esperam, em Qalqilya, Israel, onde vivem centenas de palestinos
Mas, nos últimos dias, jovens estudantes e ativistas palestinos têm encontrado uma voz e um foco, unindo-se em torno de uma única questão que eles acreditam que ajudará os palestinos em todas as anteriores: acabar com a divisão entre a Cisjordânia, onde o secular Fatah domina a Autoridade Nacional Palestina, e Gaza, que está sob o controle do rival do Fatah, o grupo militante islâmico Hamas.

O grupo Sharek, que organiza atividades e programas para jovens, preparou o seu primeiro protesto contra a divisão e em favor da unidade nacional em meados de fevereiro, em Ramallah.

Protestos

Na época, a Autoridade Palestina e o Hamas impediam manifestações de apoio à revolução no Egito e na Tunísia, temendo serem visto como partidários nas disputas do Oriente Médio, e que os protestos saíssem do controle.

Mas a unidade nacional é uma questão de consenso entre os palestinos e na qual as lideranças rivais dizem ter interesse.

O Sharek, que promove atividades para jovens, realizou uma coletiva de imprensa nesta semana em Ramallah, na Cisjordânia, para apresentar um manifesto da juventude adotando o slogan "O povo quer o fim da divisão", uma adaptação do estrondoso grito de guerra usado em todo o Oriente Médio: "O povo quer o fim do regime".

Repetidos esforços mediados pelo Egito para a reconciliação entre o Hamas e o Fatah fracassaram. Mas o novo apelo à unidade, liderado pelos jovens, parece estar surtindo efeito. Na quinta-feira, centenas de palestinos se reuniram na Praça Manara, em Ramallah, para uma manifestação pacífica em favor da unidade nacional. Excepcionalmente, os diversos grupos políticos que estavam participando deixaram de lado seus próprios símbolos e todos marcharam sob a bandeira da Palestina.

"Acabar com a divisão se tornou mais urgente por causa do veto americano", disse Suheil Khader, oficial da União Palestina. "Nós preferimos passar fome a pagar com a nossa dignidade".

Manifestações contra o veto e em favor da reconciliação nacional se espalharam por outras partes da Cisjordânia. E, dada a demanda na região por mais responsabilidade do governo, líderes tanto na Cisjordânia quanto em Gaza têm parecido ansiosos em responder.

Queixas

Entre muitas reclamações, os jovens ativistas queixam-se da opressão. Abu Helal observou que os jovens que usaram o Facebook para convocar protestos em solidariedade com as revoluções árabes foram chamados para interrogatório e disse que sua organização foi tratada duramente pelas forças de segurança na Faixa de Gaza, onde atualmente é proibida, e na Cisjordânia.

Mas muitos palestinos na Cisjordânia geralmente parecem satisfeitos com a administração do presidente palestino, Mahmoud Abbas, que restaurou a lei e a ordem após anos de caos. Salam Fayyad, o premiê da Autoridade Palestina, está testando a ideia de formar um novo governo de unidade, incluindo o Hamas, que poderá abrir caminho para as eleições nacionais e para um acordo de reconciliação mais abrangente.

Abbas pediu a convocação de eleições até setembro, mas o Hamas rejeitou imediatamente a ideia. Agora, Abbas diz que elas só poderão acontecer se forem realizadas na Cisjordânia e em Gaza ao mesmo tempo.

Ao contrário de alguns déspotas regionais que governam durante décadas, Abbas não é um autocrata e está no poder desde 2005. Ele disse que não está interessado em concorrer a outro mandato e em algumas ocasiões ameaçou deixar o cargo.

"Abbas e Fayyad são muito bons para nós", disse Muhammad Abu Ghazaleh, proprietário de uma loja de jeans em Ramallah. "Eles nos deram segurança". Quanto a acabar com a separação de Gaza, ele disse: "É claro que todos os palestinos querem isso”.

*Por Isabel Kershner

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