Jovens impulsionam apelo para expulsar líder do Egito

Força até então adormecida, jovens egípcios se armam com novas ferramentas na internet e colocam em xeque permanência de líder

The New York Times |

Durante décadas, o autoritário presidente do Egito, Hosni Mubarak, jogou de maneira inteligente com seus adversários políticos.

Ele tolerava uma oposição pequena e "sem garras" formada por intelectuais liberais e cujas campanhas eleitorais criavam a fachada de um processo democrático. E ele demonizou a proscrito Irmandade Muçulmana como um grupo de extremistas violentos que representam uma ameaça que ele usou para justificar as políticas de seu Estado.

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Polícia tenta conter protestos na ponte Kasr Al Nile, no centro do Cairo, capital do Egito
Mas essa relação longa e, para muitos, confortável foi abalada esta semana com surgimento de uma terceira força imprevisível, a liderança de dezenas de milhares de jovens egípcios que exigiam um fim ao governo de 30 anos de Mubarak. E, agora, os adversários mais velhos estão correndo para alcançá-los.

"Foram os jovens que tomaram a iniciativa e definiram a data para agir", disse Mohamed ElBaradei, ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, com alguma surpresa durante entrevista por telefone de seu escritório em Viena, pouco antes de voltar ao Cairo para se juntar à revolta.

ElBaradei, vencedor do Prêmio Nobel, tem sido a face pública de um esforço em fortalecer e unir a fragmentada e ineficiente oposição do Egito desde que mergulhou na política de seu país de origem há quase um ano, e ele disse que o movimento da juventude tinha conseguido isso por conta própria. "Os jovens são impacientes", disse ele. "E, francamente, eu não acho que o povo estava pronto".

Mas a sua disponibilidade aparente – milhares de pessoas enfrentaram gás lacrimogêneo, balas de borracha e agentes da polícia de segurança notórios pela prática da tortura – ameaçou relegar ou deslocar os grupos tradicionais da oposição. Muitos dos partidos políticos pequenos e legalmente reconhecidos – mais de 20 no total, com apenas um punhado de apoiadores de base – estão abraçando o novo movimento pela mudança, mas lhes falta credibilidade com os jovens que estão nas ruas.

Mesmo a Irmandade Muçulmana pode ter se tornado muito protetora de suas próprias instituições e posições para conseguir espaço com o novo movimento da juventude, dizem alguns analistas e ex-membros do grupo. A Irmandade permanece a organização com a maior base de apoio fora do governo, mas já não pode mais reivindicar ser a única entidade que pode levar multidões às ruas.

"A Irmandade já não é o partido mais eficaz na arena política", disse Emad Shahin, estudioso egípcio na Universidade de Notre Dame. "Se você olhar para a revolta da Tunísia, ela é uma revolta da juventude. É a juventude que sabe usar a mídia, a internet, o Facebook, por isso vemos outras peças importantes”.

Oposição ampla

ElBaradei, por sua vez, esforçou-se por quase um ano para unir a oposição em seu grupo guarda-chuva, a Associação Nacional para a Mudança. Mas alguns zombam dele como um diletante itinerante que passa a maior parte do seu tempo no exterior em vez de travar batalhas em casa.

Ele tem dito em entrevistas que nunca se apresentou como um salvador político e que os egípcios teriam que fazer a sua própria revolução. Agora, disse ele, o movimento juvenil "irá dar-lhes a autoconfiança de que precisavam para saber que a mudança vai acontecer através deles e não de uma única pessoa – eles são a força motriz".

E ElBaradei argumentou que, ao abalar a velha relação entre Mubarak e a Irmandade, o movimento juvenil apresentou um novo desafio para os governantes dos Estados Unidos também. "Durante anos, o Ocidente aceitou a demonização da Irmandade Muçulmana pregada por Mubarak por completo, a ideia de que a única alternativa a ele no país seriam esses chamados demônios, a Irmandade Muçulmana, que seria o equivalente a Al-Qaeda". Ele acrescentou: "Tenho a certeza de que qualquer governo livre e justo no Egito será moderado, mas os EUA estão realmente empurrando o Egito e todo o mundo árabe para a radicalização com essa política inepta de apoio à repressão".

As raízes da revolta que tomou as ruas do Egito nesta semana provavelmente remontam a antes da revolta da Tunísia, que muitos manifestantes citam como o catalisador do movimento. Quase três anos atrás, no dia 6 de abril de 2008, o governo egípcio reprimiu uma greve realizada por um grupo de operários têxteis na cidade industrial de Mahalla e em resposta um grupo de jovens ativistas, conectados através do Facebook e de outras redes sociais, formaram o Movimento Juvenil 6 de Abril em solidariedade aos grevistas.

Grito de guerra online

Seus primeiros esforços para convocar uma greve geral foram um fracasso. Mas com o tempo sua rede online descentralizada e outra que surgiram em torno dela – como as redes que ajudaram a impulsionar a revolução da Tunísia – se tornaram singularmente difíceis para as forças de segurança egípcias identificar e eliminar. Foi um grito de guerra online em nome de uma oposição à corrupção, tirania e tortura que levou tantos jovens às ruas na terça e quarta-feira, inesperadamente elevando o movimento da juventude à mais eficaz força política independente no Egito.

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Egípcios correm de gás jogado pelo polícia durante protesto no Cairo (26/1/2011)
"Seria criminoso que qualquer partido político reivindicasse crédito pela mini-Intifada que tivemos ontem", disse Hossam El-Hamalawy, um blogueiro e ativista.

O governo de Mubarak tem mantido um roteiro conhecido. Contra todas as evidências, o seu ministro do Interior imediatamente culpou a instabilidade de quarta-feira no seu antigo inimigo, a Irmandade Muçulmana.

Desta vez, porém, a Irmandade renunciou a qualquer responsabilidade, dizendo que era apenas uma parte do guarda-chuva de ElBaradei. "As pessoas participaram nos protestos de forma espontânea e não há nenhuma maneira de dizer se pertenciam a qualquer grupo", disse Gamal Nassar, um assessor de imprensa da Irmandade, observando a quase total ausência de placas de qualquer grupo ou slogans. "Todo mundo está sofrendo com problemas sociais como desemprego, inflação, corrupção e opressão", disse ele. "Então o que todo mundo está pedindo é uma mudança real".

Operação

A Irmandade opera uma grande rede de escolas e instituições de caridade que compensam as insuficiências de muitos serviços sociais do governo. Alguns analistas afirmam que a inércia institucional pode fazer da Irmandade lenta demais para comandar o Estado egípcio.

"A Irmandade tem estado muito silenciosa", disse Amr Hamzawy, diretor de pesquisa do Centro Carnegie do Oriente Médio, em Beirute. "Este não é um movimento que pode se beneficiar do que vem acontecendo e das pessoas na rua".

Tampouco, ElBaradei argumentou, a Irmandade Muçulmana merece o medo que seu nome evoca no Ocidente. A sua composição abrange um grande número de professores, advogados e outros profissionais, bem como seguidores que se beneficiam de suas instituições de caridade. Ela não cometeu ou tolera atos de violência desde a revolta contra a monarquia apoiada pelos britânicos, há seis décadas, e endossou seu apelo por uma democracia pluralista. "Eles são um grupo religioso conservador, não há dúvida sobre isso, mas também representam cerca de 20% do povo egípcio", disse ele. "E como você pode excluir 20% do povo egípcio?"

ElBaradei, com o seu prestígio internacional, é um crítico difícil para o governo de Mubarak colocar na cadeia, assediar ou caluniar, como fez com muitos que vieram antes dele. ElBaradei acalma as preocupações sobre os islamistas fazendo uso de uma oposição secular, liberal e familiar.

Mas ele tem sido cada vez mais sincero em suas críticas ao Ocidente. Ele ficou chocado, segundo disse, com a reação da secretária de Estado Hillary Rodham Clinton aos protestos egípcios. Em um comunicado, após os confrontos de terça-feira, ela pediu moderação, mas descreveu o governo egípcio como "estável" e “em busca de maneiras de atender às necessidades e interesses legítimos do povo egípcio".

"'Estabilidade' é uma palavra muito perniciosa", disse ele. "Estabilidade à custa de 30 anos de lei marcial e eleições fradulentas?" Ele acrescentou: "Se eles vierem depois dizer, como fizeram na Tunísia: ‘Nós respeitamos a vontade do povo’, será um pouco tarde demais”.

*Por David D. Kirkpatrick e Michael Slackman, com colaboração de Mona El-Naggar

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