Jovens americanos querem mostrar ascendências e assumir raças

Nova safra de estudantes universitários fazem questão de dizer que são herdeiros de mais de uma etnia

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Em outro tempo ou lugar, a brincadeira "O que você é?", que foi jogada em uma noite do outono passado na Universidade de Maryland poderia ter sido maldosa, ou ameaçadora: para responder à pergunta, os colegas de Laura Wood analisavam suas feições em um esforço para adivinhar sua raça.

"Quantas misturas você tem?" perguntou um dos cerca de 50 jovens presentes. Com sua pele bronzeada e cabelos castanhos encaracolados, a ascendência de Wood poderia ser de qualquer lugar do mundo. "Eu sou a mistura de duas raças", disse ela educadamente.

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Laura Wood, estudante da Universidade de Maryland, que é mulata
"Você é mulata?", perguntou Paulo Skym, utilizando uma palavra antes marcada pela vergonha e que está voltando a ser usada em alguns círculos de jovens. Quando Wood confirmou que ela é de fato negra e branca, Skym, que é asiática e branca, vangloriou-se:

"É isso aí!", disse em afirmação à sua própria mistura.
Em seguida, o grupo de amigos - formalmente, a Associação de Estudantes Multirraciais e Biraciais - explodiu em gargalhadas e aplausos, uma rotina adotada para exaltar seu orgulho de raça mista.

Mudança

A nova safra de estudantes universitários inclui o maior grupo de mestiços a chegar à idade adulta nos Estados Unidos, e eles são a vanguarda: o país está no meio de uma mudança demográfica impulsionada pela imigração e pelos casamentos.

Um em cada sete novos casamentos acontece entre cônjuges de diferentes raças ou etnias, de acordo com dados de 2008 e 2009, que foram analisados pelo Centro de Pesquisas Pew. Americanos multirraciais e multiétnicos (geralmente agrupados como "raça mista") são um dos grupos demográficos que mais crescem no país. E os especialistas esperam que os resultados raciais do Censo de 2010, que começarão a ser divulgados no próximo mês, mostrem continuidade ou aceleração dessa tendência.

Muitos jovens adultos de origens diversas estão rejeitando as definições de cor que marcaram os americanos por muitas gerações em favor de um sentido muito mais fluido de identidade. Pergunte a Michelle Lopez-Mullins, uma caloura de 20 anos e presidente da Associação de Estudantes Multirraciais e Biraciais, como ela seleciona sua raça em formulários como o censo, e ela diz: "Depende do dia, e depende das opções".

Eles também estão usando a força do seu número crescente para afirmar as raízes que já foram retratadas como trágicas ou miseráveis. "Eu acho que é muito importante reconhecer quem você é e tudo o que faz de você o quê é", disse Wood, 19 anos, vice-presidente do grupo. "Se alguém tenta me chamar de negra eu digo sim - e branca também. As pessoas têm o direito de não reconhecer tudo, mas elas o fazem porque a sociedade diz que não podem".

Preconceito

Ninguém sabe ao certo como o crescimento da população multirracial vai mudar o país. Os otimistas dizem que a mistura das raças é um passo em direção à superação da raça, a um lugar onde a América estará livre de preconceito, da intolerância e de programas como a ação afirmativa.

Os pessimistas dizem que um movimento multiracial mais poderoso conduzirá a uma estratificação e isso vira às custas da perda da influência de outros grupos minoritários, especialmente dos afroamericanos. Alguns sociólogos dizem que agrupar todas as pessoas multirraciais juntas passa por cima de diferenças de condições entre alguém que é, digamos, negro e latino, e alguém que é asiático e branco.

Entre os casais interraciais, aqueles formados por brancos e asiáticos tendem a ser mais educados e a ter rendas mais elevadas, de acordo com o demógrafo social Reynolds Farley, um professor emérito da Universidade de Michigan.

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Shannon Palmer tem ascendências japonesa e irlandesa
Ao longo dessa linha, ele afirma que as taxas de casamentos mistos são mais baixas entre negros e brancos, o que indica a distância econômica e social duradoura entre eles.

Rainier Spencer, diretor do Programa de Estudos Afroamericanos da Universidade de Nevada, em Las Vegas, e autor do livro "Reproducing Race: The Paradox of Generation Mix” (A Reprodução da Raça: O Paradoxo de uma Geração Mista, em tradução livre), diz acreditar que existe "investimento emocional" demais na noção de multiracialismo como uma panaceia para as divisões do país. "A identidade mestiça não é uma transcendência da raça, é uma nova tribo", disse ele. "Uma nova balcanização da raça".

Mas para muitos dos estudantes da Universidade de Maryland, essa não é a questão. Eles estão afirmando sua liberdade para determinar como escolhe. "A sociedade está tentando te fazer escolher um lado", disse Wood. "Eu quero que nós tenhamos nossa própria opinião”.

Como nós éramos

Os americanos pensam em si mesmos em termos de uma raça singular. Veja a resposta do presidente Barack Obama para a questão racial no censo de 2010: apesar de sua mãe ser branca e seu pai negro, Obama marcou apenas uma opção no questionário, negro, embora pudesse ter optado por ambas.

Alguma proporção da população do país tem sido mestiça desde que os primeiros colonos brancos tiveram filhos com os nativos americanos. O que mudou é como os americanos de raça mista são definidos e contados.

Há muito tempo atrás, o país via-se em tons mais variados do que apenas preto e branco: o censo de 1890 incluía categorias de misturas raciais, como "quadroon" (um quarto negro) e "octoroon" (um oitavo negro). Com exceção de um levantamento entre 1850 e 1920, o censo incluía uma categoria mulata, que era para as pessoas que tinham qualquer traço de sangue africano.

Mas, no censo de 1930, os termos para as pessoas de raça mista haviam desaparecido, substituídos pela regra de uma gota, uma convenção de antes da guerra que considerava que qualquer pessoa com um traço de ascendência africana era apenas negra. (Da mesma forma, as pessoas que eram "brancas e índias" eram, em geral, consideradas indígenas.)

Começando com o censo de 2000, os americanos foram autorizados a optar por mais de uma raça. A opção multirracial veio depois de anos de reclamações e pressão, principalmente das mães brancas de crianças birraciais que se opunham aos seus filhos serem obrigados a optar por apenas uma raça. Em 2000, 7 milhões de pessoas – cerca de 2,4% da população – foram relatadas como raça mista.

De acordo com estimativas do Bureau do Censo, a população mestiça cresceu cerca de 35% desde 2000. E os pesquisadores acreditam que o recenseamento e outros levantamentos subestimam a população mista.

As estatísticas de 2010 sobre a população mestiça será divulgada, Estado por Estado, durante o primeiro semestre do ano. “Pode haver algumas grandes surpresas”, disse Jeffrey S. Passel, demógrafo sênior do Centro Hispânico Pew, o que significa que o número de americanos de raça mista pode ser alto. "Além de haver menos estigma de pertencer a esses grupos, há um certo tom positivo".

Setores

As faces dos mestiços da América não estão apenas nos campi universitários. Elas estão na política, nos negócios e nos esportes. E os etnicamente ambíguos estão especialmente onipresente nos filmes, programas de televisão e na publicidade. Há websites de notícias, de namoro e redes sociais com foco no público de raça mista, e até mesmo produtos de consumo, como xampus, para este setor da sociedade. Há conferências e festivais de cinema mestiços. E grupos de estudantes como o de Maryland, oferecendo apoio e ativismo, se tornaram mais comuns.

Esse tipo de clube não teria existido há uma geração, quando a questão central na pergunta "O que você é?" teria sido uma provocação em vez de um quebra-gelo. ''É uma espécie de revide para nós, estamos tomando as rédeas", disse Lopez-Mullins. "Nem sempre precisamos deixar isso nos botar pra baixo”, acrescentou, referindo-se à pergunta que pessoas de raça mista ouviram durante várias gerações.

“Nós existimos principalmente para dar às pessoas que não se sentem obrigadas a escolher um lado próprio, não com base em interpretações de outras pessoas e rótulos pré-existentes, mas um espaço seguro”, disse. Lopez-Mullins é chinesa e peruana, por um lado, branca e nativa americana, por outro.

Esse espaço seguro não existia entre os edifícios de estilo neoclássico do campus quando Warren Kelley se matriculou em 1974. Apesar de sua mãe ser japonesa e seu pai afroamericano, ele tinha, basicamente, uma escolha quando se tratava de sua identidade racial. ''Eu era negro e orgulhoso disso", disse Kelley. "Não havia nenhuma opção de eu ser multirracial. O discurso público nas universidades não reconhecia a comunidade multiracial”.

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O estudante Rex Jarrett é descendente de alemães e negros
Quase 40 anos depois, Kelley é o vice-presidente assistente para assuntos estudantis no conselho de professores universitários para o clube multirracial, e ele muitas vezes se admira com a mudança no campus. Quando o grupo multirracial foi fundado em 2002, Kelley disse: ''Houve uma audiência instantânea”.

O grupo promoveu uma semana de discussões destinada a aumentar a conscientização da identidade multirracial e concebeu uma nova classe sobre a experiência de mestiços asiático-americanos, que passou a fazer parte do currículo no ano passado. ''Mesmo se alguém tivesse formado um grupo de raça mista nos anos 70, será que eu teria entrado?". Kelley se questiona. "Eu não sei. Minha identidade multirracial não era proeminente na época. Eu não acredito que houvesse esse conceito ainda”. A mãe de Kelley nasceu em Kyoto. Ela conheceu seu futuro marido, um soldado negro do Alabama, enquanto ele servia no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial.

Optar por ambas as raças não era uma escolha fácil, Kelley disse, ''como um homem negro, com tudo o que isso significa em termos de orgulho sobre esse patrimônio, bem como razões para retribuir e fazer parte do progresso”. “Quando eu atingi a idade adulta é que eu comecei a respeitar os meus pais mais e ver como a cultura da minha mãe é refletida em mim", disse ele. "A própria sociedade também mudou”.

Grupo

No outono de 2009, uma dúvida perseguia Sabrina Garcia, na época caloura em Maryland, uma universidade pública com 26, 5 mil alunos de graduação: ''Onde é que eu me encaixo?” se perguntava Garcia, que é palestina e salvadorenha.

''Eu considerei a união dos estudantes latinos, mas eu sou apenas metade como eles", disse ela. "Eu não queria sentir como se estivesse escondendo alguma parte de mim. Eu fui a uma reunião da Associação Mista e foi realmente ótimo. Eu realmente sinto como parte de um grupo que entende quem sou”.

O grupo realiza reuniões semanais, além de sediar noites de cinema, jantares, festas e, ocasionalmente, transmissões no YouTube. Nem todos os seus cerca de 100 membros se consideram raça mista e o clube está aberto a todos.

Em uma reunião no outono, David Banda, que é hispânico, e Julicia Coleman, que é negra, participaram apenas para descontrair. Eles discutiram as frustrações de ser um casal interracial, ainda hoje, especialmente em sua cidade natal, Upper Marlboro, Maryland.

''Quando voltamos para casa por um fim de semana e vamos ao shopping, por exemplo, eles nos veem andando e eu percebo os olhares, você sabe, como quem diz: ‘Por que você está com ela? Você não é negro, então ela deveria estar com uma pessoa negra’”, disse Banda, 20 anos, em uma reunião do grupo. "Até mesmo alguns dos meus amigos me dizem: 'Por que você não namora uma menina hispânica?'.”

Banda e Coleman pensam em ter filhos um dia. ''Uma das principais razões que entrei para o grupo é  tentar entender o que as pessoas de raça mista passam, para que possamos estar preparados para quando esse momento chegar”, disse.

Luta

E apesar do crescimento da população mestiça, há lutas. Ian Winchester, um júnior que é parte de Gana, parte da Escócia-Noruega, disse que se sente feliz sendo birracial. Seu avô escocês fez questão de vesti-lo em kilts (saiote masculino escocês) quando menino. O outro lado da família o colocava em um dashiki (vestimenta africana). ''Eu me sinto forte por ser birracial", disse ele. "A habilidade de questionar a sua identidade – a identidade em geral – é realmente uma dádiva”.

Mas, continuou ele, ''eu já nem gosto de me identificar como uma raça". "Minha família me puxou para dois lados diferentes do que eu sou. Eu só quero ser uma pessoa”, disse.

Lopez-Mullins também se vê em termos não raciais. ''Eu não tinha aprendido a palavra ‘hispânico’ até que cheguei em casa da escola um dia e perguntei ao meu pai como deveria me referir a ele para expressar o que eu sou", disse ela. "Ao crescer com os meus pais, eu nunca pensei que fosse diferente de qualquer outra família”.

Mas não demorou muito para Lopez-Mullins vir a detestar aquela que era a pergunta mais comum feita na escola, mesmo por amigos. "'Você é o quê?' e 'De onde você é?' eram as perguntas que faziam”, contou. Eles ficavam fascinados com seu pai, um latino com raízes asiáticas, e sua mãe, com o cabelo longo e loiro, que tinha uma ascendência principalmente europeia, apesar de mista com alguns Cherokee e Shawnee.

''Eu sempre tinha de explicar de onde meus pais são porque dizer apenas ‘eu sou de Takoma Park, Maryland’ não era suficiente. Dizer 'eu sou americana’ não era suficiente", explicou. ''Agora, quando as pessoas perguntam o que eu sou, eu digo: 'Quanto tempo você tem?'", disse. "Uma raça não irá automaticamente te contar a minha história”. O que ela escolhe nos formulários do censo? ''Hispânicos, brancos, asiáticos, nativos", disse ela. "Eu opto por quase tudo”.

Em uma reunião da Associação Multirracial e Birracial, Wood contou uma história sobre as surpresas e como aceitá-las. ''Até eu completar 8 anos, eu achava que era branca", disse ao grupo. "Minha mãe e minha tia um dia me disseram que o cara que eu chamava de pai não era meu pai. Eu comecei a chorar. E ela disse: ‘Seu verdadeiro pai é negro’”.

A mãe de Wood, Catherine Bandele, que é branca, e seu pai biológico se separaram antes de ela nascer. Enfrentando problemas econômicos e resistência de sua família sobre a criação de uma criança mestiça, Bandele deu a filha para adoção a um casal que havia solicitado um bebê birracial. Mas depois de duas semanas, ela mudou de ideia. ''Eu tive de lutar para recuperá-la, mas peguei-a de volta", disse Bandele. "Nós somos muito orgulhosos da Laura”.

Eventualmente, parentes mais próximos de Wood amoleceram e passaram a aceitá-la. Mas alguns parentes mais distantes nunca o fizeram. ''Eles não conseguem ver além da cor da minha pele e me aceitar, embora eu compartilhe seu DNA", disse ela. "Dói muito, porque eu nem mesmo conheço o lado paterno da minha família”. Wood procurou por seu pai na Internet, sem sucesso.

''Estar na associação realmente ajuda com isso", disse ela. "Encontrar um grupo de pessoas que me aceita por quem eu sou me ajuda a aceitar a mim mesma, ser capaz de olhar no espelho e dizer: 'Eu estou bem do jeito que eu sou!'." “Demorou muito tempo para isso acontecer”, disse. Agora Wood é um dos grandes impulsionadores do grupo.

Obama

Durante o jantar com Lopez-Mullins uma noite, ela perguntou: ''E se Obama tivesse optado pela raça branca? Teria havido um tumulto porque ele é o primeiro ‘presidente negro’, apesar de ele ser raça mista. Eu gostaria de ter uma conversa com ele sobre o porquê fez isso”.

Sem essa oportunidade, Wood falou sobre a sua preocupação a respeito da opção racial de Obama em uma reunião da associação no ano passado. Vicky Key, ex-presidente da associação, que é grega e negra, se juntou a ela. A questão para a discussão era saber se Obama é o primeiro presidente negro ou o primeiro presidente multirracial. Key lembra-se de alguém responder à pergunta sem muita discussão: “Vale a regra da uma gota, ele é negro”.

''Mas nós dissemos, espere um pouco, isso nos ofende. Sentamos ali e tentamos defender nossa posição, mas eles disseram: 'Não, ele é negro e é isso’. Então alguém disse: 'Parem de tentar tomar nosso presidente negro’. Eu não entendo de onde eles estavam vindo, e eles não me entendem também”.

Há um debate mais amplo entre os mestiços sobre quais devem ser os seus objetivos a longo prazo, tanto no campus como fora. ''Eu não quero uma sociedade daltônica", disse Wood. "Eu só quero que as duas raças em mim sejam reconhecidas”. Lopez-Mullins rebateu: ''Eu quero que as minhas raças não importem”.

*Por Susan Saulny

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