Jovem se prepara para posição de liderança no budismo tibetano

Ogyen Trinley Dorje, 26 anos, tem linhagem diferente da do dalai lama, mas é visto por muitos como seu sucessor

The New York Times |

Aos 7 anos de idade ele foi considerado a 17º reencarnação do Karmapa – uma das figuras mais reverenciadas no budismo tibetano – e levado da tenda de sua família nômade no Himalaia para ser preparado para a liderança em um mosteiro.

Agora com 26 anos, sua mera aparição ao lado do dalai lama no palco de uma cerimônia em Washington este mês emocionou os tibetanos presentes na multidão. Ali estava mais uma evidência para eles de que o dalai lama tomou o jovem Karmapa como seu protegido, para servir como professor e figura paterna na Índia, onde ambos vivem no exílio porque a China reivindica soberania sobre o Tibete.

O Karmapa e o dalai lama lideram diferentes linhagens do budismo tibetano e não são iguais; o dalai lama, que tem 76 anos, é o líder espiritual do Tibete. Ainda assim, muitos tibetanos estão olhando para o Karmapa como a melhor pessoa para assumir o manto do dalai lama quando ele morrer, e com isso adotar o papel de pastor do povo tibetano e levá-los de volta para casa.

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Ogyen Trinley Dorje, reconhecido como a 17ª reencarnação do Karmapa, concede entrevista em Woodstock, Nova York

A conversa de sucessão parece ser pesada para o Karmapa, um jovem alto e de olhar sereno, cujo nome é Ogyen Trinley Dorje. Questionado sobre seu futuro durante uma entrevista em um mosteiro localizado nas montanhas de Woodstock, Nova York, o Karmapa disse que o dalai lama deixou claro que suas esperanças para o futuro do Tibete estão nas mãos dos seus jovens líderes.

"Quanto a isso, Sua Santidade tem sido muito gentil comigo, e tem servido como um mentor e me guiado muito", disse o Karmapa em tibetano, traduzido por um lama americano. "Mas sou apenas um de muitos."

Em inglês, ele acrescentou: "Não preciso de mais pressão."

O Karmapa sorriu, depois ficou sério e acrescentou em tibetano: "Não acho que posso fazer mais nada. Ser o Karmapa já é duro o suficiente."

Sua Santidade o Karmapa acaba de passar por um momento de provação. No início deste ano ele foi investigado pela polícia indiana, que encontrou mais de US$ 1 milhão em moeda estrangeira em sua residência, incluindo mais de US$ 166 mil em yuans chineses.

O Karmapa e seus assessores insistiram que o dinheiro tinha sido doado por devotos que foram para a Índia com o intuito de vê-lo. Embora haja um rival que também reivindica o título, o Karmapa é considerado pelo dalai lama e pela maioria dos tibetanos como o líder dos 900 anos da linhagem Karma Kagyu, uma das quatro principais escolas do budismo tibetano, com centenas de mosteiros e centros de dharma em mais de 60 países.

Os assessores do Karmapa disseram que planejavam usar o dinheiro para comprar um terreno para a construção de um mosteiro na Índia. Mas a mídia indiana espalhou rumores de que ele era um espião chinês.

Para os tibetanos e para os estudiosos do budismo tibetano, a ideia é um absurdo. O Karmapa fugiu do Tibete quando ele tinha 14 anos, saindo do mosteiro pela janela e indo até um carro que o esperava, evitando os postos militares e montando um cavalo através das planícies nepalesas para chegar à Índia. A fuga foi parecida com a passagem do próprio dalai lama pelas montanhas de gelo do Himalaia, em 1959.

Mas os rumores sobre o 17º Karmapa persistiram em parte porque o governo chinês o reconheceu como líder legítimo da tradição Kagyu e evitou denunciá-lo mesmo depois de sua fuga para a Índia. Essa postura contrasta com as denúncias chinesas de que o Dalai Lama é um "separatista".

Isso coloca o Karmapa em uma posição singular, disse Robert J. Barnett, diretor do Programa de Estudos Tibetanos Modernos na Universidade de Columbia.

"O Karmapa está perfeitamente posicionado para ser alguém que poderia intermediar uma solução no futuro", disse Barnett. "Este é um dos temas bastante raros em que os exilados e aqueles que ainda vivem no Tibete estão de acordo. Eles têm um respeito muito grande pelo Karmapa”.

O Karmapa rival, Trinley Thaye Dorje, tem o apoio de um lama sênior na tradição Kagyu e alguns seguidores no ocidente (que conseguiram garantir os direitos ao endereço karmapa.org). Mas Barnett comparou a rivalidade à "controvérsia do nascimento" envolvendo o presidente Barack Obama. "Para a maioria das pessoas, esta é uma questão resolvida", disse ele.

Tenzin Chonyi, presidente do mosteiro de Woodstock (chamado Karma Triyana Dharmachakra), foi assessor do 16º Karmapa, e quando criança, em 1959, fugiu do Tibete com ele.

Ele disse que o 17º Karmapa foi identificado por um grupo de lamas que estava encarregado da tarefa de encontrar a criança que eles acreditam ser a reencarnação do Karmapa anterior. "Este Karmapa foi encontrado com base na instrução do Karmapa anterior", disse Chonyi. "Então nós não temos nenhuma dúvida."

Em resposta à investigação da polícia indiana, milhares de tibetanos demonstraram seu apoio ao Karmapa. O governo tibetano no exílio enviou delegações para Nova Délhi. A polícia indiana rapidamente o inocentou.

Vários meses depois, o governo indiano lhe deu permissão para viajar para os Estados Unidos, a permissão que tinha negado desde a sua primeira viagem ao país em 2008.

Questionado se as suspeitas haviam prejudicado as relações entre a Índia e os tibetanos em exílio no país, o Karmapa disse:

"A conexão entre a Índia e o povo tibetano tem milhares de anos", disse ele. "É uma conexão espiritual e uma ligação cultural e é de grande afeto. Afinal, o caminho espiritual do budismo, o caminho espiritual seguido pela maioria dos tibetanos, veio da Índia para o Tibete".

Ele acrescentou: "Esta ligação tem durado geração após geração, e não acho que esteja em qualquer perigo."

Em sua última viagem para os Estados Unidos, o Karmapa evitou falar de política. Mas desta vez ele não mediu palavras quando questionado sobre o Tibete. Ele disse que o Tibete estava "em situação de emergência" que só piorou desde a repressão chinesa sobre manifestações locais em 2008.

"O governo da China tem permanecido extremamente restritivo", limitando as atividades nos mosteiros e o número de monges, disse ele.

"A construção de infraestrutura – estradas, trens, aeroportos e assim por diante – e a grande imigração de pessoas de região central da China para o Tibete ameaçam a sobrevivência da cultura tibetana e do seu ecossistema", disse ele.

"É um sinal muito bom", afirmou ele sobre o encontro entre o presidente Obama e o dalai lama este mês.

O Karmapa está nos Estados Unidos para uma palestra no Hunter College, em Nova York. Ele disse que iria falar sobre compaixão – e não política –, que seus devotos dizem ser o chamado de um lama reencarnado.

"Você poderia dizer que ele tem 20 e poucos anos, mas ao mesmo tempo ele tem 900", disse Kathy Lama Wesley, uma americana convertida ao budismo tibetano e membro do conselho do mosteiro Woodstock. "A sabedoria do primeiro Karmapa continua nele."

Por Laurie Goodstein

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