Jovem passa de celebridade a manifestante antigoverno na Rússia

Conhecida como 'Paris Hilton da Rússia', Kseniya Sobchak assume papel de destaque na onda de protestos contra o governo

The New York Times |

Hoje em dia é tentador imaginar que a mudança política que aconteceu em Moscou no inverno não passou de uma miragem. Com a vitória de Vladimir Putin no primeiro turno das eleições presidenciais e com o fim de grandes protestos antigoverno, a maioria das pessoas parecia recuar, com pesar ou alívio, à rotina que haviam abandonado cinco meses atrás.

No entanto, esse não foi o caso de Kseniya Sobchak.

Anti-Putin: Polícia da Rússia detém cem manifestantes em protesto

Autora do livro "Philosophy On The Boudoir" (A Filosofia no Boudoir, em tradução literal) e "How to Marry a Millionaire" (Como Se Casar Com Um Milionário, em tradução literal), acabou se tornando uma líder da oposição. Na semana passada, Sobchak recebeu líderes de protesto em seu novo programa de televisão político, que foi cancelado pela MTV da Rússia depois de apenas um episódio e agora é transmitido em um site.

NYT
Kseniya Sobcha, conhecida como a Paris Hilton da Rússia, em comício da oposição (10/3)
Ela repetiu a declaração que havia feito de que iria deixar o país caso as autoridades impedissem a liberalização política. E continuou - muito cuidadosamente - falando contra Putin, um amigo de sua família - alguns dizem que é seu padrinho.

É difícil imaginar uma porta-voz como Sobchak, 30, a menina loira do partido conhecida como a Paris Hilton da Rússia. A maioria das pessoas do país a conhece por sua atrevida carreira em reality shows, ou por suas ligações pessoais escandalosas e noivados interrompidos que fizeram parte da estrutura básica da cultura dos tabloides da Rússia.

Inspiração

No entanto, durante os últimos meses, a transformação de Sobchak começou a parecer verdadeira, dando início a rumores de que ela está seguindo o caminho de seu pai, Anatoly A. Sobchak, cuja postura contra o comunismo fez dele um herói entre os liberais da Rússia.

"Sou sincera no que estou dizendo agora e era sincera antigamente também", disse Sobchak este mês, quando o apresentador de um programa de televisão ucraniano Oleksandr Tkachenko, perguntou se ela ainda era a mesma pessoa de antigamente. "Sim, também fui aquela garota vulgar com tiaras cor-de-rosa no cabelo que dizia coisas sem pensar. Isso também fez parte da minha vida, de quem fui e sou."

"E, sim é verdade que vivi durante muito tempo sendo uma jovem rebelde. Sim, fui aquela pessoa."

Ela acrescentou: "Comecei a mudar e um número cada vez maior de pessoas conseguiu enxergar as mudanças. Mas foi tudo parte da minha trajetória entre meu aniversário de 20 anos para os meus 30 anos."

Apesar da rebeldia, ela também mostrou relances de uma inteligência afiada. Aos 21 anos, quando estava em uma boate chamada Chocolate, ela e seus amigos sabiam que seus mundos tinham sido construídos sobre areia movediça: "Nossos pais são ricos hoje e amanhã podem estar na cadeia", ela afirmou. Ela evitou temas políticos, explicando que a sua gratidão a Putin superava suas queixas contra seu governo.

Em algum momento no ano passado, isso tudo mudou. Em outubro, ela filmou Vasily G. Yakemenko, o ministro da Juventude, em um restaurante de Moscou exorbitantemente caro, dizendo para a câmera que era de se esperar que membros da sociedade russa bebessem champagne que custasse US$ 45 o copo, mas em se tratando de autoridades do governo era outra história.

O vídeo foi um sucesso. O porta-voz de Yakemenko chamou Sobchak de "prostituta barata" e ela teve conflito com os executivos de televisão sobre seu desejo de entrevistar figuras da oposição como o blogueiro Aleksei Navalny.

Dois meses depois, ela estava na vanguarda do movimento de protesto, diante de 80 mil manifestantes que gritavam: "Rússia sem Putin".

Em uma entrevista, Sobchak disse que não pensava muito sobre o risco que corria por falar o que queria. "Se você passar por um garoto sendo espancado em um beco escuro, você não vai simplesmente passar reto, você vai parar e tentar defendê-lo, mesmo que isso signifique que você também pode apanhar", disse ela. "Acredito que ninguém quer se sentir como uma escória e foi isso que me aconteceu. Percebi que não conseguiria continuar a fazer parte de toda essa injustiça. E por isso resolvi mudar a minha postura."

NYT
Opositora é autora do livro “How to Marry a Millionaire”
O discurso de Sobchak aos manifestantes da oposição em dezembro não foi muito bem-vindo. Sabendo de seus laços com Putin, muitos manifestantes chegaram a duvidar de sua sinceridade e a vaiaram quando ela subiu ao palco. A crítica foi ainda mais severa em alguns círculos de São Petersburgo, onde sua postura foi vista como uma traição a Putin.

"Humanamente falando é algo inexplicável - ela precisa ser grata a alguém que fez tanta coisa para ajudar seu pai, sua mãe e ela mesma", disse Yagya, 73, ex-assessor de seu pai. "Somente o futuro irá dizer se o que ela fez foi um erro ou não."

Yagya acrescentou: "Para a sua mãe, está sendo um momento doloroso. Acho que para seu pai também teria sido".

Críticas

Sobchak fez o máximo possível para evitar críticas pessoais a Putin, mas é uma situação claramente dolorosa para ela também. Ela reconheceu que não pode mais falar sobre política com a mãe, uma legisladora de alto escalão na câmara do Parlamento russo, a quem ela chamou de "a pessoa quem eu mais amo neste mundo."

No momento, sua escolha é a de direcionar todo o potencial de seu glamour para a oposição, que há anos tem lutado para passar a sua mensagem a um público mais variado.

Presidência: Putin vence eleição na Rússia e oposição denuncia fraude

No comício mais recente, no início deste mês, ela não só era a pessoa mais famosa a estar falando mas também uma das poucas que chegou a oferecer uma visão clara do futuro, dizendo à multidão: "Sabemos contra quem estamos lutando. Agora precisamos mostrar o motivo."

No dia 14 de março, na emissora de televisão via internet Dozhd, Sobchak vestia um par de sapatos de salto alto em um debate contra Sergei Udaltsov, líder da Frente de Esquerda, que durou uma hora.

Mas pouco importou o que foi dito no debate. Udaltsov, uma figura marginal radical até poucos meses, passou uma hora desfrutando da atenção que Sobchak atrai por onde passa. Ela se agasalhou e se dirigiu para o estacionamento coberto de neve, onde seu motorista a aguardava.

Udaltsov foi embora a pé. Em uma entrevista, ele disse que tinha dificuldades em acreditar que a transformação de Sobchak não passava de uma fase em que protestar contra o governo estava na moda.

"Talvez eu esteja errado", disse ele. "Só o tempo irá dizer."

* Por Ellen Barry

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG