Jovem herdeiro enfrenta transição incerta na Coreia do Norte

Após a morte de Kim Jong-il, maior dúvida é se seu filho, Kim Jong-un, será capaz de manter o poder e mudar economia

The New York Times |

Com a repentina morte do líder norte-coreano, Kim Jong-il , o destino de seu regime isolado e nuclear caiu nas mãos de seu filho mais novo, Kim Jong-un , tão desconhecido que o mundo sequer sabia seu nome até o ano passado.

A maior dúvida é saber se o herdeiro será capaz de se manter no poder neste último bastião do comunismo linha-dura e impedir que a sua economia empobrecida entre em colapso.

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AP
Kim Jong-il assiste desfile militar ao lado do filho, Kim Jong-un, em Pyongyang (10/10/2010)

Por enquanto, o recluso regime está agindo como de costume, oferecendo poucas pistas sobre o que irá mudar com a morte de seu ditador de longa data. No entanto, também parece estar oferecendo os primeiros sinais de uma resposta a uma pergunta que há muito tempo atormenta os observadores da Coreia do Norte: se os poderosos militares e integrantes da pequena elite dominante deste país defenderão as ambições da família Kim de ampliar seu domínio dinástico para uma terceira geração.

Poucas horas depois do anúncio da morte de Kim Jong-il, na segunda-feira, o Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte divulgou um comunicado convocando a nação para que se unisse "sob a liderança do camarada Kim Jong-um”.

Ele também foi nomeado chefe da comissão que irá supervisionar o funeral de seu pai em 28 de dezembro - uma medida que alguns analistas interpretaram como evidência de que a transferência de poder para o filho está decorrendo normalmente, pelo menos nestes primeiros momentos. Analistas disseram esperar que o funeral seja uma elaborada exposição pública, não apenas de reverência ao falecido líder, mas também de união nacional em torno do novo governante.

"O primeiro teste da nova liderança será como vai lidar com a morte da antiga", disse John Delury, professor de estudos internacionais da Universidade Yonsei, em Seul.

Alguns analistas disseram que Kim Jong0il usou os três anos posteriores ao seu primeiro contato com a mortalidade, um derrame em 2008, para conquistar um bem-sucedido apoio para o filho. Eles também disseram que a classe dominante da Coreia do Norte reconhece que, pelo menos por enquanto, não têm outra escolha senão aceitar a sucessão: os dois filhos mais velhos do antigo ditador são vistos como playboys preguiçosos, e qualquer movimento para rejeitar a família Kim poderia encerrar a legitimidade de todo o regime.

"Kim Jong-il usou os anos após seu derrame para conquistar um consenso entre a elite de que seu filho seria a face da Coreia do Norte depois que ele morresse", disse Kim Yeon Su, professor de estudos norte-coreanos na Universidade da Defesa Nacional, em Seul. Ele acrescentou que este filho é mais fácil de vender: com as bochechas gordas, cabelo cortado rente e olhar duro, Kim Jong-un tem um aspecto marcante e semelhante ao de seu avô, Kim Il-sung, fundador do regime, que ainda é reverenciado como um Deus no país.

Mas o que irá acontecer depois do funeral permanece uma incógnita.

O único precedente é a última transição na atual dinastia governante, quando Kim Jong-il assumiu após a morte de seu pai, em 1994. Naquele caso, o filho observou um período de três anos de luto tradicionais antes de formalmente assumir o controle da nação, uma medida que reflete a estranha mistura das armadilhas da antiga monarquia com base nos ensinamentos de Confúcio e um culto stalinista da personalidade do século 20.

Com a morte de Kim Jong -il, a maioria dos analistas espera que seu herdeiro observe um período semelhante de luto, que ele provavelmente irá usar para rapidamente consolidar seu poder.

Enquanto seu pai teve uma década para obter apoio e ser apontado como herdeiro e realmente tomar o poder, Kim Jong-un foi publicamente apresentado como sucessor no ano passado, embora analistas digam que ele pode ter sido nomeado no partido em janeiro de 2009. Ele fez sua primeira aparição pública no ano passado, em 9 de setembro, aniversário da fundação da Coreia do Norte, assistindo um desfile militar ao lado do pai.

Masao Okonogi, especialista em Coreia do Norte da Universidade Keio, em Tóquio, disse que durante os primeiros anos do novo líder a Coreia do Norte provavelmente evitará o confronto com os Estados Unidos e seus aliados, como a Coreia do Sul. Foi o que fez Kim Jong-il depois de substituir seu pai, disse Okonogi. Ele pareceu evitar problemas, observando um acordo de 1994 negociado por seu pai que congelava a construção de dois reatores suspeitos de serem usados em um programa de armas nucleares. O Norte eventualmente suspendeu o acordo em 2003 e três anos depois testou sua primeira arma nuclear.

"Pode-se esperar que Kim Jong-un faça alguma oferta, como retomar o diálogo de seis partes", disse Okonogi, referindo-se às negociações multilaterais paralisadas sobre o desmantelamento de armas nucleares da Coreia do Norte. "Ele vai precisar reduzir as tensões com os Estados Unidos, a fim de ganhar tempo.”

Dada a posição relativamente fraca de Kim Jong-un em seu próprio país, Okonogi e outros analistas disseram que algum tipo de poder coletivo poderia emergir desta situação. Muita especulação tem circulado em torno do segundo no comando de Kim Jong-il, seu cunhado, Jang Song Taek, que poderia servir como um “regente”. No entanto, analistas disseram que não houve sinais disso na propaganda feita posteriormente à morte de Kim Jong-il.

Além disso, analistas disseram que há sinais de que Kim Jong-un já começou a construção de um Estado independente, ainda que com um poder limitado, particularmente entre os militares. No ano passado, o jovem Kim foi proclamado general de quatro estrelas por seu pai, que também o nomeou chefe da Comissão de Defesa Nacional, o órgão mais poderoso do país. Kim Jong-un também pareceu polir suas credenciais com os militares ao supostamente supervisionar o ataque do ano passado a um navio de guerra sul-coreano e o bombardeio de artilharia a uma ilha localizada na fronteira do país.

Kim Yeon Su, da Universidade de Defesa Nacional, disse que Kim Jong Un também tem cultivado suas próprias conexões nas Forças Armadas da Coreia do Norte, incluindo o tenente-general Kim Yong Chol, 65, um conhecido linha-dura em questões de defesa e chefe da inteligência militar, que parece servir como mentor do jovem líder. Alguns analistas disseram que também há sinais de que o novo líder já começou a substituir o pessoal militar sênior com uma nova geração de oficiais na casa dos 30 e 40 anos.

"Essa nova geração vai ser agradecida a Kim Jong-un pelo seu poder", disse Chang Yong Seok, pesquisador sênior do Instituto para Unificação e Estudos da Paz na Universidade Nacional de Seul.

Mas isso também poderia deixar Kim Jong-un em dívida com seus militares, deixando incerta a capacidade da nova liderança de criar algum tipo de mudança para o regime e sua economia decrépita.

Ainda assim, Chang e outros analistas disseram que uma mudança de geração pode causar uma reavaliação do isolamento da Coreia do Norte. Eles dizem que um número crescente de oficiais norte-coreanos está visitando a vizinha China para observar o sucesso de sua aceitação da economia de mercado sob um regime autoritário. Visitantes recentes à Coreia do Norte dizem que já há sinais de uma crescente ligação comercial com os chineses, incluindo uma nova classe de comerciantes ricos e um influxo de produtos "Made in China".

"A nova liderança sabe que terá de provar sua coragem nos primeiros anos", disse Delury, que visitou Pyongyang em setembro. "A reforma econômica será o seu maior desafio."

Por Martin Fackler

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