Jovem dos EUA usa internet para encontrar outros 'hiperpoliglotas'

Após aprender dezenas de línguas, Timothy Doner, 16 anos, publica vídeos na rede e faz amizade com interessados do mundo todo

The New York Times |

Há quem consiga aprender um pouco de hebraico antes de seu bar mitzvah, a falar espanhol por causa de suas mães ou até mesmo um pouco de japonês após passar um semestre no Japão. Timothy Doner, 16 anos, não é uma dessas pessoas.

No outono de 2009, depois de estudar para o seu bar mitzvah, ele decidiu que queria aprender a falar o hebraico moderno. Então continuou tendo aulas com o seu tutor, engajando-se em longos diálogos sobre a política israelense. Depois, quis aprender árabe, e logo após a oitava série participou de um programa de verão para estudantes universitários da Universidade de Brigham Young. Ele demorou quatro dias para aprender o alfabeto, explicou, e uma semana para ler com fluidez.

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Timothy Doner, 16, que aprendeu dezenas de línguas e encontrou amigos na internet (05/03)

Em seguida, mergulhou no russo, italiano, persa, suahíli, indonésio, hindi, ojibwe, pashto, turco, hausa, curdo, iídiche, holandês, alemão e croata, aprendendo com livros de gramática e aplicativos em seu iPhone. Tudo isso além de um estudo mais formal de francês, latim e mandarim que faz na Escola de Dalton, onde está cursando o segundo colegial.

Então, em março do ano passado, durante suas férias, Timothy fez algo que mudou seu estudo de línguas. No apartamento de sua família em Nova York, fez um vídeo de si mesmo falando em árabe e o publicou no YouTube, com legendas em inglês. A resposta foi fraca, porém cheia de entusiasmo principalmente de pessoas do Oriente Médio: "É isso aí, Tim!"

Ele continuou publicando mais vídeos e cada um tinha mais espectadores. Até que seu vídeo em pashto, publicado no dia 21 de dezembro de 2011, teve 10 mil visualizações em apenas dois dias.

De repente, Timothy tinha com quem conversar em todas as línguas que falava - e não apenas falantes nativos, mas também pessoas como ele, que estavam interessadas em aprender para seu próprio bem. Criou-se uma subcultura pequena, porém vibrante, repleta de interessados por línguas - algo apenas possível graças à internet.

Em um livro publicado recentemente intitulado “Babel No More: The Search for the World’s Most Extraordinary Language Learners” (O Fim da Babilônia: Uma Busca Pelos Mais Fantásticos Estudantes de Línguas, em tradução livre), o linguista Michael Erard, descreve esses autodidatas como uma "tribo neural", pessoas que são unidas não apenas por ter um interesse em comum por línguas, mas por possuírem uma "promiscuidade linguística". À medida que o domínio do inglês fez com que ficasse cada vez mais possível explorar o mundo com apenas um idioma, estes hiperpoliglotas já não estão isolados em sua paixão pela aprendizagem de dezenas ou mais línguas.

Assim como Timothy, há Benny, na Irlanda, Moses McCormick, em Ohio, Alexandre Arguelles, em Cingapura, e Mike Campbell, aka Glossika, em Taiwan. Timothy foi inspirado por um vídeo de Richard Simcott, um hiperpoliglota britânico, no qual ele fala 16 línguas. Simcott, por sua vez, apresentou os vídeos de Timothy no fórum online que administra, o “How to Learn Any Language” (Como aprender qualquer língua, em tradução livre).

"Quando Moses me mandou um email, achei a coisa mais legal do mundo", disse Timothy sobre McCormick, que publica seus vídeos sob o apelido de Laoshu505000.

"Esse é um cara que tem vídeos falados em 50 línguas diferentes. Foi como se eu estivesse conversando com uma celebridade".

McCormick, 30, disse que a incompreensão foi a resposta mais comum das pessoas de fora da tribo. "Muitas pessoas me dizem que sou louco", disse. "As pessoas me disseram para escolher um idioma e dominá-lo. Mas eu tenho uma verdadeira paixão por aprender um monte de línguas."

Os hiperpoliglotas sempre foram alvo de curiosidade, pelo menos desde o século 19, quando o Cardeal Giuseppe Mezzofanti, de Bolonha, dominou mais de 50 idiomas. Já faz tempo que as pessoas debatem se a capacidade de falar línguas estrangeiras é inata ou aprendida.

Erard, que pesquisou 400 hiperpoliglotas para seu livro, disse que muitos relataram ter tido experiências desconfortáveis quando foram convidados a falar diferentes línguas. Mas eles também falaram a respeito do aprendizado como sendo uma experiência mística.

Mike Campbell, em um email enviado de Taiwan, escreveu que saber falar línguas antigas o fez sentir "como se pudesse falar com a Terra."

"E, de fato, quando estou sozinho fazendo uma trilha pelas montanhas ou pelas cachoeiras", acrescentou, "prefiro pensar e falar em Thao do que em qualquer outra língua." (Thao é uma língua quase extinta falada por um grupo aborígene de Taiwan).

No dia 5 de março, durante sua semana de provas, Timothy publicou um vídeo seu falando Hindu e pediu ajuda com sua pronúncia para outros usuários. Este é seu 11º vídeo publicado.

Ele também disse que seu objetivo não é ser fluente em todas as línguas, mas poder aprender o suficiente enquanto seu cérebro ainda está em ótimas condições.

Entretanto, ele disse que seu objetivo de aprender diversas línguas não tem interferido em sua vida social, embora nenhum de seus colegas compartilhe de seu interesse. Ele cultiva amizades através de emails e via Skype com pessoas ao redor do mundo em uma variedade de idiomas.

"Não quero que as pessoas pensem que não sou normal ou que me vejo como sendo superior ou diferente delas", disse. "Não sou um nerd, não tenho muito interesse em matemática. Apenas encontrei meu nicho. Não sou obsessivo: é minha maneira de lidar com o estresse."

Por John Leland

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