Jornalistas brasileiros enfrentam território hostil na Copa

Acostumados ao livre acesso durante os campeonatos locais, jornalistas brasileiros sofrem com a falta de contato com jogadores

The New York Times |

Quando Pelé marcou o seu famoso milésimo gol, no dia 19 de novembro de 1969, a bola não foi a única coisa a balançar a rede. O vídeo do momento da comemoração no estádio do Maracanã mostra Pelé entrando no gol para pegar a bola e os repórteres entrando em campo para filmar e entrevistar Pelé.

No Brasil, país fanático por futebol, os repórteres de rádio e televisão ficam atrás do gol e ao longo da linha lateral durante os jogos. Tecnicamente, eles são restritos a entrevistar os jogadores apenas antes dos jogos, no intervalo e após o apito final. Mas, às vezes, eles conseguem alguns comentários após os gols ou quando os jogadores recebem um cartão vermelho. Certa vez, eles chegaram a seguir Pelé até o chuveiro.

"No Brasil, tudo é possível", disse Jorge Baptista, um comentarista de televisão que é assessor de imprensa do Estádio Ellis Park durante a Copa do Mundo, onde as regras são muito mais rígidas.

Durante a Copa do Mundo, os fotógrafos podem ficar perto do campo, mas os repórteres não. Eles devem sentar-se na área designada para a imprensa e esperar para fazer suas entrevistas com os jogadores em uma área chamada zona mista, somente após o jogo.

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Fotógrafos que cobrem a Copa ficam limitados a pequenos espaços nos jogos e treinamentos

Em alguns jogos, principalmente aqueles que não envolvem o Brasil, é ainda pior para os febris comentaristas de rádio e televisão do país: o espaço para os membros da mídia é limitado, então eles precisam fazer o seu trabalho longe dos estádios e diante de uma TV, no Centro Internacional de Transmissões.

"Isso é muito frio", disse Reinaldo Costa, um comentarista de rádio brasileiro que trabalha na área há 41 de seus 58 anos. "O principal é a emoção do gramado. Quando você não tem isso, você não tem como transmitir isso ao seu ouvinte. Antes, era mais romântico, como se estivesse participando da história do jogo".

Algumas restrições parecem inevitáveis. As redes de televisão que pagam milhões de dólares em taxas de direitos autorais querem alguma exclusividade de acesso em troca. Além disso, milhares de jornalistas estão cobrindo a Copa do Mundo. Seria um pesadelo logístico e de segurança se cada um deles tentasse ficar na lateral do campo. "A ideia é dar oportunidades iguais para todos", disse Baptista. "Se você abrir espaço para o caos, você vai ter caos".

Dunga, o prático técnico da seleção do Brasil, também tem limitado o acesso diário aos seus jogadores às coletivas de imprensa, ao invés de entrevistas individuais. E ele restringiu o acesso aos treinos, que costumavam ser transmitidos ao vivo.

Isto não caiu bem com as estações de rádio que têm horas de tempo a preencher todos os dias durante o torneio. A Rede Globo, detentora dos direitos de transmissão no Brasil, brevemente deixou de chamar Dunga pelo nome depois que ele teve um desentendimento com um de seus jornalistas e começou a se referir a ele apenas como o técnico do Brasil, relatou a agência Reuters na semana passada.

Dunga confronta a imprensa brasileira com uma certa frequência, e ela por sua vez o critica por montar uma equipe que depende do músculo e não da beleza do futebol. Mas ele sabe que as críticas serão muito mais duras se não levar para casa o sexto troféu da Copa do Mundo. Assim, ele prefere manter os seus métodos, certificando-se de que os seus jogadores estão descansados e não distraídos.

"Dizem que o Dunga não permite que os jogadores deem entrevista", ele disse após o jogo em que o Brasil derrotou o Chile por 3 - 0 na segunda-feira e avançou às quartas de final, quando pega a Holanda na sexta-feira. "Nós temos que pensar na nutrição, recuperação e descanso".

Ao mesmo tempo, os torcedores brasileiros estão perdendo um pouco do imediatismo que historicamente têm desfrutado ao seguir o seu esporte favorito. O Brasil conquistou suas duas primeiras Copas do Mundo em 1958 e 1962, quando poucas pessoas no país tinham televisores, fazendo do rádio uma forma vital e tradicional de consumo do futebol.

"A TV e a internet podem mudar muitas coisas, mas ainda há o hábito de ouvir futebol no rádio", disse André Kfouri, jornalista da ESPN Brasil. "É como o beisebol nos Estados Unidos. Os torcedores gostam do jeito que o futebol é narrado no rádio. É muito mais rápido e você tem que criar a emoção".

No Campeonato Brasileiro, a separação entre os jogadores e jornalistas durante uma partida é muitas vezes inexistente. André Henning, um comentarista de televisão que passou boa parte de sua carreira na rádio disse que uma vez falou com um jogador que havia sido expulso depois de uma briga e viu a briga recomeçar durante a entrevista.

Os jogadores que são condecorados como o melhor do jogo, antigamente recebiam rádios como uma recompensa de estações patrocinadoras. Hoje, aqueles que marcam três gols em uma partida podem pedir uma música que será tocada em sua homenagem no popular programa de televisão "Fantástico".

Depois de marcar gols, os jogadores sempre correm para as câmaras de televisão, muitas vezes encorajados por mulheres atraentes segurando cartazes que dizem: "Envie sua mensagem aqui". E eles o fazem, muitas vezes para as suas famílias, algo como "eu te amo mãe" ou " o papai está com saudade".

Outras frases são mais memoráveis. Claudiomiro, um jogador brasileiro da década de 1970, foi questionado certa vez se havia gostado da cidade de Belém e respondeu: "Estou feliz por estar aqui no local de nascimento de Jesus Cristo".

Outro jogador da década de 1970, o exibicionista Dadá Maravilha, fazia comentários como "eu não sei jogar futebol, eu passo tempo demais fazendo gols" e "só existem três coisas pairam no ar: beija-flor, helicóptero e Dadá ".

Muitas vezes, de acordo com Henning, os jogadores brasileiros perguntam a repórteres de televisão parados perto do banco se um impedimento foi exato ou quantos minutos restam de jogo. "Se o técnico é seu amigo, ele pode vir e dizer: 'eu não gosto de como o meu time está jogando' ou 'devíamos ter atacado mais pelo lado direito'", disse Henning.

Cerca de uma década atrás, um repórter de rádio grandalhão entrou no campo no estádio do Maracanã, acreditando equivocadamente que o jogo tinha acabado, disse Henning. "Então cem mil pessoas gritaram: 'gordo, você está louco? O jogo não acabou'. Depois, o técnico o culpou porque sua equipe não conseguiu um empate".

Quando o ex-estrela Ronaldo voltou a jogar futebol no Brasil no ano passado, depois de uma carreira de sucesso na Europa, ele foi cercado por jornalistas após a sua primeira partida, atingido na cabeça por um microfone e uma câmera de televisão e saiu com um olho roxo, de acordo com a Reuters.

"Mas isso é o Brasil", disse Henning. "Nós entramos no gramado. Conversamos com o técnico. Aquela maca que eles usam para pegar jogadores lesionados? Também pegamos se for preciso. Então chegamos na Copa do Mundo e não percebemos que nem todo o mundo é assim".

* Por Jere Longman

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