Jornal francês para crianças desafia tendência digital

Em tempos de computadores, iPods e iPads, diário "Mon Quotidien" conquista jovens leitores na França

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Quando Elisa Cammarota chega em casa da escola, ela joga sua mochila de lado e lê o jornal do começo ao fim. Anthony Azoulay faz o mesmo, embora ele se concentre nos artigos sobre futebol e nas fotos.

Tanto Elisa quanto Anthony têm 10 anos de idade e estão na quinta série. Ambos são assinantes de um dos jornais mais populares da França.

Em uma manhã recente, as duas crianças se sentaram em uma grande mesa retangular, com vários dos editores do jornal. O "Mon Quotidien", ou o Meu Diário, convida vários de seus leitores duas vezes por semana para ajudar a editar a publicação, exceto pela primeira página, escolhendo as histórias que serão apresentadas em suas outras sete páginas.

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Crianças participam de reunião com equipe do "Mon Quotidien" em Paris

A editora nacional, Caroline Halle, propunha um artigo sobre uma escola na Grã-Bretanha que comprou gaviões e falcões para espantar uma praga de gaivotas que estavam sujando o local.

Como alternativa, ela propôs a notícia de como mergulhadores recentemente encontraram garrafas de champanhe que o rei francês Luís 16 enviou ao czar da Rússia, que afundaram no mar Báltico junto com o navio que as transportava.

"Qual foi o fim de Luís 16?", perguntou Gasselin Olivier, 40, editor-adjunto do jornal. "Guilhotina", Elisa respondeu, sem levantar os olhos das anotações que estava fazendo.

Francois Dufour, 49, editor e fundador do jornal, propôs um artigo que acreditava que iria provocar risos e conseguir a aprovação das crianças: jornais britânicos estavam relatando que os cientistas haviam descoberto o que veio primeiro, o ovo ou a galinha. A proposta foi recebida por rostos de pedra. A galinha, disse ele, na esperança de conseguir alguma reação das crianças. Os jovens tomaram algumas notas, e o grupo passou para outras propostas.

"Nós propomos, eles escolhem", disse Halle, 34 anos, que começou a trabalhar no jornal há nove anos, depois de trabalhar em um site de notícias na internet.

Numa época em que muitas crianças estão viciadas em computadores, iPods e iPads - e em que os jornais estão sentindo a pressão - o "Mon Quotidien" parece ser uma anomalia, principalmente no clima jornalístico da França.

Apesar de grandes nomes jornalísticos como o "Le Monde" e o "Le Figaro", os franceses leem cada vez menos jornais. Em uma base per capita, no país é vendido a metade de jornais do que em países como Alemanha ou Grã-Bretanha, e o consumo de jornais é especialmente baixo entre os jovens. Apenas 10% dos jovens entre 15 e 24 anos leram um jornal pago em 2007, a última vez que o governo realizou uma pesquisa, um declínio perceptível em relação aos 20% de uma década atrás.

Na verdade, o governo francês estava tão preocupado com o declínio da leitura de jornais que anunciou este ano planos para um programa chamado Journal Offert, ou Jornal Gratuito, que oferece uma assinatura gratuita do jornal de preferência a jovens entre 18 e 24 anos. Embora o programa tenha rapidamente atingido o limite previsto pelo governo de 200 mil leitores, havia poucos indícios de que os leitores continuariam suas assinaturas, uma vez que tivessem que pagar.

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Capa do jornal "Mon Quotidien", feito para crianças
Nada disso dissuadiu Dufour. No início de 1990, ele e dois sócios fizeram dinheiro com uma linha de cartões de perguntas chamada Les Incollables. Com esse dinheiro, eles decidiram abrir um jornal diário para crianças entre 10 e 14 anos, e em 1995 o "Mon Quotidien" foi lançado. Seu sucesso foi tão grande - no terceiro ano a circulação atingiu 50 mil cópias - que fundaram outros dois jornais diários: o "Petit Quotidien", ou Pequeno Diário, para crianças entre 7 e 10 anos, e o "L'Actu", ou As Manchetes, para crianças entre 14 e 17 anos.

"O dinheiro que eu ganhei nos Estados Unidos eu investi na França", disse Dufour. "Nós somos como um jornal local, com três regiões. Eles são completamente diferentes no que você lê".

Os jornais, que circulam todos os dias menos aos domingos, são uma mistura animada e colorida de notícias, fotografias, quadrinhos e passatempos. Uma edição recente do Mon Quotidien mostrava na capa a foto de Paul, o polvo que escolheu com sucesso os vencedores da Copa do Mundo de 2010. Outra edição mostrava um mini carro que se dobra para ser guardado em espaços pequenos e foi apresentado em uma mostra em Berlim.

Particularmente populares são as caricaturas de Berth, que vive em Besancon, perto da fronteira suíça, e se comunica com os editores através do Skype. Um desenho dele ilustrando o carro dobrável descrevia o veículo emitindo ruídos estranhos quando dobrado. Um espectador observa, "Além de dobrar, ele fala!" O outro responde: "Tolice! É o motorista que ficou preso dentro".

A combinação de conteúdo e marketing impulsionou a circulação dos três jornais para 165 mil. "É muito bem feito", disse Françoise Dargent, um crítico literário do jornal "Le Figaro", cujas duas filhas mais velhas, de 11 e 13 anos, são ávidas leitoras dos jornais. "É uma maneira de manter as crianças informadas."

Ainda assim, não há nenhum sinal de que o "Mon Quotidien" e os outros jornais criarão leitores a longo prazo. Com cada nova geração, o número de assinaturas diminui. O "Petit Quotidien" tem 75 mil, o "Mon Quotidien", 60 mil, e o "L'Actu" apenas 30 mil.

Enquanto Elisa devora o seu "Mon Quotidien" diariamente, sua mãe, Carine Abes, 46, que trabalha como assistente social, disse que não assina um jornal. "Eu escuto o rádio, leio livros", disse Abes.

Na verdade, Dufour admite que "compra" a maioria de sua circulação.

"Todo mês de setembro", ele disse, "nós enviamos 15 milhões de cópias gratuitamente para todos os professores na França, 30 exemplares para cada um. Isso é 90% dos 5 milhões de euros "- ou US$6,5 milhões - "que gastamos em marketing direto". Os jovens conhecem o jornal na escola, então pedem que seus pais façam uma assinatura.

Nesse nível, os papéis permanecem rentáveis, mas aumentar a circulação aumentaria as perdas, explicou. Os jornais são vendidos por assinatura apenas, não nas bancas, porque isso aumentaria os custos de distribuição, disse Dufour.

Além disso, ele está mantendo o formato de jornal, resistindo à tendência da web. "Nós não fazemos nada na Internet", ele disse, embora o "Mon Quotidien" tenha um programa gratuito de notícias online de cinco minutos. "Os pais não pagariam por isso".

Dufour diz que não pode prever o futuro do "Mon Quotiden". "Isso pode mudar com o iPad", ele disse. "Os pais nunca pagam por mais tempo na internet. A questão é: será que os pais irão ver o iPad como outro jornal ou mais um veículo de consumo da internet?"

Por John Tagliabue

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