Jornal de idioma inglês na China quebra o silêncio em Tiananmen

PEQUIM - A Prosperidade é tangível pela Avenida Chang´an era a inócua manchete do Global Times, o mais novo jornal chinês no idioma inglês. O texto que se seguia era só um pouco mais engajado.

The New York Times |


Mas o artigo da página principal desta quinta-feira era, em certo sentido, uma grande exclusiva: nele, a tomada da mídia estatal na China, oficialmente, quebrou o silêncio em 4 de junho de 1989 tomando posição sobre o movimento pró-democracia chinês.

A cobertura - na verdade, um par de artigos que apareceram na segunda e na quinta-feira - foi mais notável mais por ter sido feita do que pelo que revelava. O artigo de quinta-feira começava e terminava contrastando cenas benignas de crianças e turistas na Praça da Paz Celestial nesta semana, com o que se chama o tumulto "que ocorreu em de 4 de junho em Tiananmen".

Os artigos nunca disseram, expressivamente, o que aconteceu na Praça há 20 anos. Eles, implicitamente, endossaram o veredicto oficial de que a supressão dos protestos foi necessária para abrir o caminho para a recente prosperidade da China.

Mesmo assim, o editor-chefe do jornal, Hu Xijin, quebrou o tabu da discussão da tomada que prevaleceu durante duas décadas na mídia estatal da China. E, fazendo isso, ele parecia mostrar que alguns meios de comunicação do país - ao menos um novo, politicamente bem protegido, e na língua inglesa - poderia se arriscar a quebrar sérias regras.

Os editores do jornal disseram em entrevistas recentes que estavam agindo sozinhos, em níveis desconhecidos de risco profissional.

Além disso, críticos são suspeitos. O governo central está colocando peso político e financeiro adicional por trás de suas próprias marcas midiáticas importantes. Oficiais esperam projetar a própria visão da China de seu desenvolvimento para uma audiência global mais do que se apoiar em mídias estrangeiras para apresentar o país para o mundo.

Um importante componente do mandato, de acordo com jornalistas de notícias da mídia oficial, é pressionar a própria mídia de língua estrangeira na China a trabalhar mais rápido e mais abertamente em questões altamente delicadas de preocupação mundial, como o Tibete.

"Isso é o que as pessoas na liderança consideram uma pressão leve do poder", disse David Bandurski do Projeto de Mídia da Universidade de Hong Kong. Um grande empecilho, disse ele, é que "você ainda tem essa grande sombra do partido no ar, dando espaço a isso ou aquela mídia confiável".

Hu, como muitos editores importantes na mídia estatal, é um nomeado do Partido Comunista. Mas ele também acaba sendo um homem da mídia populista.

Em uma entrevista no começo de maio, ele descreveu o ímpeto de criar uma edição em inglês do "Global Times", um tablóide de língua chinesa conhecido por defender agressivamente os interesses da nação. Ele é parte do grupo de mídia "People´s Daily". E mostrou que a edição em inglês foi criada, em parte para competir com o "China Daily", o jornal de língua inglesa oficial do país, ao qual foi adicionado, recentemente, uma versão chinesa e obteve sucesso financeiro comprovado.

O "Global Times" está buscando sua parte no barulho criado por levantar tópicos controversos, disse Hu.

Desde o começo em 20 de abril, o "Global Times" investigou a injustiça com os pais cujas crianças morreram, no ano passado, nos desmoronamentos de escolas em um terremoto, em Sichuan. Ele também escreveu de forma crítica as ligações da China com a Coreia do Norte, que recentemente conduziu seu segundo teste nuclear.

"Dá para perceber que o jornal tem maiores dimensões para noticiar" do que o "China Daily". disse Ding Gang, vice-diretor do "People´s Daily" do departamento de notícias internacionais e conselheiro sênior do "Global Times". Assim, mais uma vez a China não perdeu uma valiosa oportunidade de desenvolvimento histórico.


Por JONATHAN ANSFIELD

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