Japão tenta encarar crescimento da população pobre

Escondido por anos pelo governo, empobrecimento do país que se orgulhava de ser igualitário é discutido com dificuldade

The New York Times |

A viúva Satomi Sato, 51 anos, sabia que seria difícil criar uma filha adolescente com os menos de US$ 17 mil por ano que recebia somando os salários de seus dois empregos. Mesmo assim, ela se surpreendeu quando o governo do Japão anunciou pela primeira vez uma linha de pobreza oficial: ela estava abaixo do índice definido.

"Eu não quero usar a palavra pobreza, mas definitivamente sou pobre", disse Sato, que pela manhã trabalha em uma lanchonete e à tarde entrega jornais. "Pobreza ainda é uma palavra pouco familiar no Japão".

Após anos de estagnação econômica e de ampliação da desigualdade social, essa nação que já se orgulhou de ser igualitária está acordando tardiamente para o fato de que tem uma população pobre e crescente. O anúncio oficial do Ministério do Trabalho, feito em outubro de 2009, mostrou que quase um em cada seis japoneses (o equivalente a 20 milhões de pessoas) vivia na pobreza em 2007. A informação chocou o país e iniciou um debate sobre possíveis soluções.

Também surpreendente foi a confissão do governo de que desde 1998 manteve em segredo as estatísticas de pobreza, enquanto negava o problema. Segundo especialistas, isso acabou no ano passado, quando um governo com tendência à esquerda, liderado pelo primeiro-ministro Yukio Hatoyama, substituiu o Partido Democrata Lideral com a promessa de forçar os burocratas japoneses a serem mais abertos, especialmente em relação aos problema sociais.

"O governo sabia sobre o problema da pobreza, mas o escondia", afirma Makoto Yuasa, chefe da Antipoverty Network, uma organização social sem fins lucrativos. "Havia um medo de enfrentar a realidade."

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Satomi Sato tem dois empregos: trabalha em uma lanchonete e entrega jornais

Seguindo uma fórmula reconhecida internacionalmente, o ministério definiu a linha de pobreza em US$ 22 mil por ano para uma família de quatro pessoas, a metade da renda domiciliar média no Japão. Pesquisadores estimam que o número de pobres tenha dobrado desde o início da década de 1990, quando os mercados imobiliário e financeiro entraram em colapso e introduziram duas décadas de estagnação e até declínio de renda.

O anúncio do ministério ajudou a expor um problema que, segundo assistentes sociais, é facilmente negligenciado no relativamente homogêneo Japão, que não tem as altas taxas de crime, a degradação urbana e a divisão racial dos Estados Unidos. Para especialistas, os japoneses pobres podem ser difíceis de serem notados porque se esforçam muito para manter a aparência de classe média.

Poucos japoneses que empobreceram parecem dispostos a admitir sua condição por medo de serem estigmatizados. Ainda que mais da metade das mães solteiras japoneses - como Sato - seja pobre, ela e sua filha, Mayu, 17 anos, tentam esconder suas necessidades. Quando amigos ou parentes falam sobre suas férias, um luxo que elas não podem pagar, elas sorriem, mas "por dentro choram", conta Sato. "Dizer que somos pobres atrairia atenção, então prefiro esconder."

Sato afirma que já tinha pouco dinheiro mesmo antes de seu marido, um operador de máquinas de construção, morrer de câncer no pulmão há três anos. Ela disse que as dificuldades da família começaram no fim dos anos 1990, quando a crise econômica piorou em Hokkaido, onde mora, assim como aconteceu na maior parte das áreas rurais do Japão.

Mesmo com dois empregos, ela não consegue pagar uma consulta médica ou comprar um remédio. No ano passado, quando sua filha precisou de US$ 700 para comprar uniformes escolares obrigatórios, ela economizou dinheiro fazendo apenas duas refeições por dia.

Especialistas dizem que o caso de Sato é típico. Segundo eles, mais de 80% dos que estão em situação de pobreza no Japão são trabalhadores pobres que recebem salários baixos e ocupam vagas temporárias que não oferecem segurança e benefícios. Geralmente eles possuem dinheiro para comer, mas não para atividades como jantar com amigos ou ir ao cinema.

"Em uma sociedade próspera, a pobreza geralmente não significa viver em barracos", afirma Masami Iwata, professor de Bem-Estar Social na Universidade para Mulheres do Japão, localizada em Tóquio. "São pessoas com telefones celulares e carros, mas que são excluídas do resto da sociedade."

Segundo economistas, anos de legislação frouxa no mercado de trabalho e de competição com a China, notória por oferecer salários baixos, criou a proliferação de empregos que pagam pouco no Japão. Grande parte desses empregos não são cobertos pela obsoleta rede de bem-estar social, criada há décadas, num tempo em que as pessoas podiam esperar passar toda a vida fazendo o mesmo trabalho.

 Masami Yokoyama, 60 anos, perdeu seu "emprego para toda a vida" há uma década, enquanto lutava contra uma depressão pós-divórcio. Ele teve uma série de trabalhos que pagavam cada vez menos até que, há três anos, passou a ser morador de rua em Tóquio. Seu pedido de ajuda governamental foi rejetado três vezes porque ele ainda era considerado um homem saudável. "No Japão, não há ninguém para te segurar quando você escorrega", afirmou Yokoyama, que finalmente conseguiu uma ajuda limitada do governo e encontrou um emprego de meio período como vigia noturno.

Uma estatística chamou a atenção ao mostrar que uma em cada sete crianças vive na pobreza, por isso o novo governo prometeu oferecer pagamentos mensais de US$ 270, além de diminuir os custos do ensino médio. Apesar disso, assistentes sociais temem que os pobres não poderão pagar uma série de despesas para permitir que seus filhos consigam competir no sistema educacional japonês. Assim, eles ficariam presos em um círculo vicioso de salários baixos.

"Corremos o risco de criar uma subclasse crônica", afirma Toshihiko Kudo, integrante do conselho diretor da Ashinaga, um grupo sem fins lucrativos com sede em Tóquio que ajuda crianças pobres e órfãs.

Sato teme o mesmo futuro para sua filha, Mayu, que quer ser dubladora de animação. Sato não pode pagar o curso, mas se mantém aparentemente otimista, ainda que conformada.

Ela diz que seu maior desafio é encontrar alguém com quem conversar. Apesar de estar certa de que muitas outas famílias enfrentam um problema similar em sua pequena cidade, a recusa em admitir a pobreza as torna impossíveis de serem encontradas.

"À noite, na cama, eu penso: 'Como caí tanto? Como fiquei tão isolada?", diz Sato. "Mas, geralmente, tento não pensar nisso."

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