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James Cameron cria mundo e tecnologia alternativos, mas apela para paz em Avatar

LOS ANGELES ¿ ¿Bem-vindo a Avatar.¿ O diretor James Cameron materializou-se, como que por um toque de mágica digital, diante da plateia que aguardava uma prévia da projeção de seu provável próximo estouro de bilheteria. Não estava bem claro, porém, para que o diretor tinha convidado a ver naquele dia no início de dezembro. Seria a pequena produção de US$ 230 milhões que ele acabava de finalizar? Ou seria o ¿mundo¿ criado pelas avançadas técnicas digitais produzidas por ele? Ou seria ainda o ¿desavergonhado motor da comercialidade¿ que ele alegou, sem tom de brincadeira, ter construído? Independentemente de qual nuance de ¿Avatar¿ o diretor tinha em mente, a alegria ¿ e o lucro ¿ das férias de muita gente depende dele. Sua estreia, porém, teve alguns contratempos.

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Influência de "Avatar" vai depender da bilheteria e de como a estética será recebida

As luzes da sala diminuíram. Apareceu o logo da 20th Century Fox. Trombetas ecoaram. Mas, antes que a primeira cena da fábula espacial eco-pacifista de ficção futurística pudesse causar qualquer impressão, as luzes aumentaram.

Foi um pouco mais curto do que vocês estavam esperando, desafiou Cameron, esboçando um riso educado. Tem um problema na sala de projeção, ele completou. Temendo pela vida do projecionista, a plateia observou Cameron ¿de pele clara e atualmente um pouco barrigudo, em sua habitual camisa azul de botões ¿ desaparecer. Caiu a escuridão e Avatar ressurgiu. Desta vez, a plateia conseguiu ver o resultado de quatro anos de trabalho e o mais alto nível de efeitos visuais. 

No dia seguinte, Cameron mantinha um irônico ar de mistério durante entrevista no hotel Four Seasons de Beverly Hills. Ninguém sabe, disse ele quando indagado sobre o que houve de errado com a projeção. O filme desligou o computador e o ligou novamente. Ele se autoconserta, não sabemos por que. Eu sempre detestei essa resposta, sempre quis saber o porquê das coisas.

Soando como o garotinho que despedaçou o relógio do papai para ver porque ele fazia tic tac, há muito tempo Cameron é um diretor associado tanto à tecnologia quanto à dramaturgia. Suas criações são inesquecíveis: o vilão rápido e imprevisível de O Exterminador do Futuro 2; a fantasmagoria no fundo do mar de O Segredo do Abismo; a louca e encharcada viagem de Titanic ¿ filmes que por vezes pareceram girar em torno das habilidades e das funções do diretor.

Avatar também é assim. Muita gente da indústria cinematográfica ¿ incluindo o próprio Cameron ¿ presumem que os processos que ele usa neste filme, especialmente a técnica conhecida como performance capture (tradução livre: captura de movimentos), irá revolucionar o cinema, e que o Fusion Camera System inventado por Cameron (uma única câmera que filma ações ao vivo em 3D estereoscópico), irá redefinir o cinema tridimensional. O tamanho do rastro deixado por Avatar basicamente irá depender, de modo geral, do resultado obtido pelo filme ¿ tanto no campo estético quanto financeiro.

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Cameron pacifista: "Uma parte de mim quer
colocar uma margarida no barril de pólvora"

Cameron realmente ama seus brinquedos. No último mês de abril, o maquinário físico de Avatar permanecia inativo nas instalações do Lightstorm Entertainment em Playa del Rey (local da antiga empresa de aviação Hughes Aircraft). O veículo AMP (armored mobility plataform), que o ator Stephen Lang dirige na cena de batalha climática do filme, parecia um vulto cinzento e sombrio do brinquedo Rock 'Em Sock 'Em Robot, com articulações do tamanho de carburadores. Carcaças de helicópteros, armas de 2,5 metros de altura e o galpão de 200 metrosonde Howard Hughes construiu seu desafortunado Spruce Goose, tudo era de um silêncio nefasto.

Do outro lado do estacionamento, porém, em um espaço menos interessante batizado por Cameron como performance capture volume (ou como disse Land, Nerd Central), a equipe de técnicos em animação do estúdio Lightstorm digitava em seus laptops ¿ dando vida virtual ao mundo de Avatar. Parte deste mundo ainda lembrava um vídeo game dos anos 1990, mas o imaginário ainda seria aprimorado à medida que o mesmo viajasse através de um universo de muitos criadores: o estúdio Digital Domain, co-fundado por Cameron; o Legacy FX; o Industrial Light & Magic, de George Lucas; e o WETA, do diretor neozelandês Peter Jackson ¿ que o Sr. Cameron diz deter os direitos autorais de algumas das ferramentas desenvolvidas em Avatar. A divindade reinante, porém, é o próprio Cameron. Ele espera que, diferentemente dos notórios veículos pilotados por Hughes, sua galinha bote ovos de ouro.

Entretanto, ao mesmo tempo ele espera que a história da tecnologia tenha um certo declínio uma vez que Avatar seja lançado na sexta-feira. Foi divertido observar as pessoas comentando sobre esse filme por cinco meses, pois percebo que eles só estão mordiscando as bordas do biscoito. Elas ainda não chegaram ao que interessa. No momento que verem o filme, elas vão dizer: Nossa, tem mais uma infinidade de coisas sobre as quais precisamos conversar.

Barreira entre animação e emoção

Coisas como o imperialismo, como a divindade feminina, como a violação da natureza. O ano é 2154 e Jake Sully (Sam Worthington) ¿ soldado que ficou paraplégico em combate numa guerra que não compreendeu ¿ é requisitado para substituir seu finado irmão gêmeo em um programa em operação a muitos anos luz dali, em uma lua chamada Pandora.

Numa atmosfera tóxica aos humanos, Pandora é habitada por uma tribo conhecida como os Navi: ágeis aborígenes azuis de 3 metros de altura para os quais Pandora é um lugar sagrado. O que os terráqueos querem é o mineral unobtainium de Pandora, que foi provado ser a solução para os problemas energéticos que assolam a Terra. O que os Navi querem é os terráqueos mortos. Em um esforço para ganhar aceitação ¿ e talvez para evitar que coronel Miles Quaritch (Lang) e seus camaradas mercenários dizimem os Navis enquanto se apropriam de seu território ¿, cientistas ligados à campanha de mineração criaram os avatares Navi, que são geneticamente semelhantes aos seus operadores. Como o DNA de Jake é semelhante ao de seu irmão, ele é o substituto perfeito. E já que incorporar um avatar significa que ele irá andar novamente, Jake concorda em fazê-lo.

Jake é um cara de honra. Eles dizem a ele que o dinheiro é bom, mas ele não o faz por dinheiro. Ele vai porque está em busca de algo, diz Cameron. O diretor conta que ao escrever o roteiro, que apesar de bastante atual foi iniciado antes das filmagens de Titanic, ficou obcecado pelo modelo errado.

Fiquei preso naquele modelo do veterano pós-Vietnã, raivoso e amargo, e isso simplesmente não estava funcionando, disse ele. Não é assim que um soldado agiria. Meu irmão é um deles, e seus amigos são amigos meus, e eles pensam dessa forma. A ideia deles é de que quanto mais difíceis as coisas forem ficando, de melhor forma você é definido. Entendo disso, é por isso que faço filmes assim. Não carrego nas costas uma mochila de 50 quilos durante dez horas debaixo de um sol de 40 graus, mas é o mesmo tipo de coisa. Sei que estou fazendo algo que outras pessoas não conseguem fazer.

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Diretor e equipe aprimoraram mecanismos de captura de movimentos do corpo e rosto

O que Cameron e seus muitos colaboradores tentaram fazer foi dissolver a barreira entre a animação e a emoção humana. Basicamente, os filmes giram em torno de um close-up e não de uma tomada aberta, afirma Jon Landau, um dos produtores de Avatar e amigo de Cameron de longa data. A equipe analisou o que cineastas tinham feito no passado, incluindo a captura de movimentos ¿ que envolve artistas usando sensores que traduzem seus movimentos corporais em personagens digitais (sendo O Expresso Polar provavelmente o melhor exemplo disso). O que ele não faz é capturar expressões faciais, ou sentimentos. Landau fez um trocadilho com as palavras: Para nós, sempre faltou um letra essencial na captura de movimentos: A letra E. E-motion Capture (captura de emoções). Ao invés disso, eles buscaram um processo baseado em imagens, apropriando-se de uma técnica usada no segmento de concertos musicais.

Se a Madonna pode ficar sacolejando pelo palco com um microfone no rosto e ainda fazer uma apresentação incrível, pensamos então: Vamos substituir o tal microfone por uma câmera de vídeo. A câmera fica com o ator enquanto capturamos seus movimentos, e apesar de não usarmos a imagem em si, podemos entregá-la para a empresa de efeitos especiais e eles a reproduzem em um nível frame-by-frame, quase que poro a poro, explicou Landau.

Se eles tivessem usado a imagem em si, diz ele, os personagens correspondentes teriam feições faciais de proporções humanas. Os profissionais de animação têm mais liberdade, e os Navi têm uma aparência mais original (olhos mais largos, por exemplo), sem perder a expressividade.

Chegar ao ponto em que tudo isso pudesse ser realizado demandou bastante fé por parte da Fox, que quatro anos e meio atrás foi solicitada a bancar o projeto de Cameron e Landau enquanto eles testavam a tecnologia e criavam um mundo. Quando você está lidando com um cineasta como Jim, conhece suas ambições e como ele as realiza com consistência, você acaba topando a parada, disse Jim Gianopulos, co-chairman da Fox.

Gianopulos disse estar gratificado pelo conteúdo emocional dos personagens gerados por computador, assim como pela resposta que o estúdio vem recebendo das mulheres ¿ principalmente em relação ao personagem de Zoë Saldana, Neytiri.

Cameron se mostrou menos entusiasmado em relação a tal reação. Pode ser que não tenhamos garotas de 14 anos voltando quatro vezes ao cinema, mas este é, definitivamente, um filme para mulheres.

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Sam Worthington e Sigourney Weaver à frente do elenco "humano" do filme

É também um filme sobre paz, de um cara que reconhece ter impulsos paramilitares. Tenho total admiração por homens que têm um senso de dever, que têm coragem, garante o diretor. Mas sou também filho dos anos 1960. Uma parte de mim quer colocar uma margarida na ponta do barril de pólvora. Acredito na paz através do poder de fogo superior, mas por outro lado abomino o abuso de poder e o imperialismo rastejante disfarçado de patriotismo. É impossível levantar algumas dessas questões sem ser chamado de antipatriota, mas eu acho muito patriótico questionar um sistema que precisa ser confinado para não se tornar uma Roma.

Não que Avatar seja uma lição de moral, o filme é barulhento demais para tal. Ele adora uma barulheira. Esse é o lado garoto que existe em nós, a parte divertida da produção cinematográfica, explica Lang. Ele faz alusão ao final das filmagens em Playa del Rey. Não teve um único dia que Jim não chegasse com um brilho nos olhos. Mas teve um dia em que seus olhos brilhavam mesmo. E a primeira frase que saiu de sua boca foi: Então, Slang, tudo bem se hoje a gente te incinerar? Claro, respondi de forma retórica, como você quiser. E foi o que fizemos. Ele deu andamento para tacar fogo em mim.

O que Cameron quer agora é que o mundo se emocione tanto com as bolas de fogo quanto com as outras maravilhas visuais que ele preparou, e com a história pela qual elas estão a serviço. E, depois da projeção do início de dezembro, ele parece ter deixado para trás suas dúvidas de abril, quando se perguntava se iria querer fazer tudo isso de novo. Parece confiante de que o filme tenha dado certo ¿ tanto emocionalmente, quanto tecnicamente e artisticamente. É interessante, isto é um bom prenúncio para uma sequência, disse ele.

E se não houver uma sequência? Quer dizer que não ganhamos dinheiro, sentenciou.

Assista ao trailer de "Avatar":

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