Jade do oeste da China supera valor do ouro

Região atingida por conflitos étnicos tem uigures como principais comerciantes de pedra preciosa para chineses han

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Os habitantes de Khotan, na China sempre se lembram do rio lamacento que atravessa essa cidade oásis, no sul de Xinjiang, que traz consigo pedras brancas de tonalidade cremosa, com suas arestas polidas pelas águas que caem das montanhas do Tibete. E lembram que essas pedras – uma espécie de jade semi-transparente – não valiam mais do que pedras de rio.

Lohman Tohti, 30 anos, conta que quando criança colocava essas pedras em sacos de areia para impedir a subida das águas do rio Jade Branco.

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Vendedores comercializam jade em bazar na cidade de Khotan, na China
Quando compradores chineses começaram a chegar a Khotan no início dos anos 90 e os moradores ficaram sabendo do possível valor das pedras, seu tio fez um negócio invejável: trocou uma pedra do tamanho de um porco bem alimentado por uma vaca magra do seu vizinho. "Hoje, meu tio seria um milionário", disse Tohti, agora vendedor de jade.

Atualmente, Khotan é louca por jade - ou pelo menos pelas riquezas que a pedra trouxe para a cidade. Seu surto de prosperidade anterior ocorreu há milhares de anos, quando comerciantes das antigas Roma e Constantinopla passavam por ali a caminho de Xi'an, a então capital do império chinês e o extremo leste da Rota da Seda.

Grama por grama, as melhores pedras de jade se tornaram mais valiosas do que ouro, com as pepitas mais valiosas chegando a valer US$ 3.000 por cada 28 gramas, um aumento de 10 vezes em relação a uma década atrás.

"O amor por jade está no nosso sangue e, agora que as pessoas têm dinheiro, todos querem algo dessa pedra em torno de seu pescoço ou na sua casa", disse Xiankuo Zhang, vendedor chinês.

Conflitos étnicos

Em uma região atingida por conflitos étnicos, é notável que a dádiva parece ter enriquecido tanto os nativos uigures de Khotan, adeptos da língua turca e do islã, quanto mais recentemente os chineses da dinastia han, que são muitas vezes vistos como colonizadores vorazes.

Os uigures fizeram sua fortuna amplamente sobre a exploração de jade do rio e sua venda a intermediários chineses. Pelo fato de os muçulmanos devotos serem proibidos de lidar com determinadas imagens de representação, os han passaram a monopolizar a venda de esculturas e estatuetas budistas, fazendo tigres e repolhos em miniatura que são populares entre os consumidores chineses.

"A jade não tem nenhum significado para a nossa cultura, mas nós somos gratos a Deus que os chineses são loucos por ele", disse Yacen Ahmat, um vendedor uigur.

*Por Andrew Jacobs

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