Irmã de premiê deposto energiza oposição na Tailândia

Yingluck Shinawatra atrai eleitorado de Thaksin, que comanda o partido Pheu Thai de se refúgio em Dubai

The New York Times |

O ex-premiê Thaksin Shinawatra, deposto em um golpe há mais de quatro anos, está de volta ao centro da política tailandesa sob a sombra da pessoa que ele chama de seu clone: sua irmã mais nova, Yingluck, que é candidata ao mesmo cargo como líder do principal partido da oposição.

O partido, conhecido como Pheu Thai e que é orientado por Thaksin, 61 anos, de seu refúgio em Dubai, está liderando nas pesquisas de opinião antes da eleição que acontecerá no dia 3 de julho. Uma vitória voltaria a colocá-lo em conflito com os líderes das Forças Armadas e a elite entrincheirada que apoiou o golpe militar em setembro de 2006.

"Deixem eu me apresentar: eu sou a irmã mais nova de Thaksin Shinawatra”, disse Yingluck Shinawatra, 43 anos, a uma multidão entusiasmada em um comício político na semana passada. Ela falou abertamente sobre sua experiência como administradora de uma empresa, cuja única experiência política foi a de observar e aprender com seu irmão.

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Yingluck Shinawatra (C) atrai partidários de seu irmão, o ex-premiê Thaksin Shinawatra
"Eu sou a irmã que sempre ouve de Thaksin que ele sente muita falta de seu povo", disse ela. "Aplausos para Dubai!".

Ela estava em campanha no território de Thaksin, no nordeste da Tailândia, onde vivem muitos dos manifestantes antigoverno conhecidos como "camisas vermelhas", responsáveis por um protesto de dois meses em Bangcoc que foi esmagado pelos militares em maio de 2010. Cerca de 90 pessoas foram mortas na violência, a maioria delas manifestantes.

Ainda assim, sua campanha representa uma extraordinária ressurreição de Thaksin, a personalidade mais polêmica do país. Ele foi declarado politicamente morto por muitos analistas após o golpe e permanece no exterior para fugir de uma condenação à prisão por corrupção, bem como da acusação de terrorismo por seu papel em apoiar as manifestações dos “camisas vermelhas”.

"Eu acho que essa candidatura fez dessa uma eleição sobre Thaksin", disse Chris Baker, um analista britânico da política tailandesa que escreveu uma biografia sobre Thaksin. "Na verdade, acho que ele não fez isso apenas com a candidatura de Yingluck, mas também na declaração exibida nos cartazes eleitorais: ‘Thaksin pensa e o partido faz”, disse. "Essas duas coisas juntas deixam bem claro que esta eleição é apenas sobre isso. Trata-se de Thaksin e o que lhe aconteceu nos últimos cinco anos”.

Tumulto

Esses anos foram tumultuados: cinco primeiros-ministros passaram pelo governo, protestos de rua paralisaram partes de Bangcoc, dois aeroportos da capital foram invadidos e houve focos de violência, incluindo ataques contra o premiê Abhisit Vejjajiva, uma invasão do prédio do Parlamento e o interrompimento de uma reunião de chefes de Estado asiáticos.

A turbulência é parte de uma luta de poder entre o estabelecimento do país – monarquistas, burocratas, oficiais militares e líderes empresariais – e a maioria rural e pobre, que têm se voltado a Thaksin. Uma mudança fundamental no sistema hierárquico tradicional da Tailândia de status e poder tem, em grande parte, se tornado personalizado como uma disputa entre partidários e opositores de Thaksin.

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Partidários de Yingluck Shinawatra, principal voz da oposição tailandesa
Analistas dizem que, em vez de resolver o conflito, a eleição pode levar a mais confrontos, quer no Parlamento, nas ruas ou por meio de intervenção militar. A rápida ascensão e queda dos governos nos últimos anos, seguidas por protestos e violência, têm demonstrado que nenhum dos lados está disposto a aceitar a derrota eleitoral.

"Estamos no meio de mudanças de proporções históricas na sociedade política tailandesa, e uma mudança que vai levar muito tempo para ser concluída", disse Baker. "Estou falando de 10 anos, ou coisa assim. Ao longo desse caminho haverá várias crises e negociações”.

Se o partido Pheu Thai chegar ao poder, disse Yingluck, ele buscará uma anistia geral para as pessoas condenadas por crimes políticos, uma medida que visa limpar o caminho para o retorno de Thaksin. Ele prometeu voltar à Tailândia até o final do ano, mas os analistas questionam se a sua promessa não é apenas uma tática política.

Discurso

O discurso típico de Yingluck consiste em uma série de frases de efeito enfatizando os programas populistas que deram a Thaksin a devoção dos pobres do país: o sistema de saúde barato, a moratória da dívida, o aumento do salário mínimo, a garantia do preço do arroz, fundos para os governos governos de aldeias, bem-estar para os idosos e cartões de crédito especiais para reduzir os custos dos agricultores.

"Não só a redução do custo de vida, mas dinheiro no seu bolso – é o que o Pheu Thai vai fazer", ela disse ao público em Nakhon Phanom na semana passada. "Você gosta de nossas políticas?"

O Partido Democrata, de situação, está revidando com suas próprias promessas, incluindo um aumento de 25% no salário mínimo. O banco central advertiu que o populismo de ambas os partidos poderia prejudicar a economia e estimular a inflação.

A escolha de Thaksin de sua irmã, a mais nova entre oito irmãos, para liderar o partido parece ser uma decisão bem pensada. Yingluck é um rosto jovem e atraente que não está ligado aos confrontos dos últimos anos, e promete o que ela mesma chama de “toque suave de uma mulher”. Ela seria a primeira premiê mulher na história tailandesa. "Ela é linda, inteligente e rica", declarou um orador que subiu ao palco antes dela.

Campanha

Yingluck está à frente de uma campanha que se mostra bem gerida e eficiente, e ela parece estar cada vez mais confiante ao fazer declarações políticas que parecem ser cuidadosamente ensaiadas. Mas seus assessores ainda não estão confiantes o suficiente para aceitar pedidos reiterados do Partido Democrata de que ela realize um debate com Abhisit.

Sua candidatura tem energizado o desgastado partido de Thaksin e levou a uma melhoria imediata nas pesquisas. O Pheu Thai está prevendo uma maioria absoluta nas 500 cadeiras parlamentares disponíveis ou uma pluralidade que lhe daria o direito de formar um governo de coalizão. "As pessoas pensam que ela tem a mesma posição que seu irmão", disse Sithichai Wonwandee, um oficial local, que está concorrendo para chefe de aldeia. "Então ela é como se fosse a mesma pessoa que Thaksin".

Mas isso pode ser uma faca de dois gumes quando Yingluck se aventurar para fora das áreas dominadas pelos “camisas vermelhas” e encontrar um grande número de adversários de seu irmão, e não está claro se ela poderá sustentar a imagem que tem impulsionado seus números nas pesquisas.

Ao aceitar seu papel como representante de Thaksin, ela abriu espaço para ataques envolvendo as acusações de corrupção contra ele. Um grupo de seus adversários já a acusou de falso testemunho em um caso de corrupção contra seu irmão no ano passado. Além disso, a estrada à frente pode se tornar mais difícil conforme a eleição se aproxima, acreditam especialistas.

*Por Seth Mydans

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