Iraquianos vivem odisseia em busca de parentes mortos na guerra

Registros confusos, falta de identificação e desordem fazem parentes peregrinarem até encontrar vítimas da guerra lançada por EUA

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Em uma sala de paredes cor pastel no necrotério de Bagdá conhecido simplesmente como "Desaparecidos", onde os rostos dos milhares de mortos não identificados da guerra são projetados em quatro telas, Hamid Jassem veio à procura de respostas em um domingo.

Em uma cadeira de plástico azul, ele se sentou sob as duras luzes fluorescentes e diante de um relógio que dizia 08 horas, 58 minutos e 44 segundos, mas já não marcava o tempo. Com deferência e paciência, ele olhou para a tela, onde cada corpo era identificado através de quatro dígitos e a palavra "majhoul" (desconhecido).

O número 5060 passou, com uma bala na têmpora direita, o 5061, com um rosto ferido e inchado, o 5062 tinha uma tatuagem que dizia: “Mãe, onde está a felicidade?”. Os olhos do 5071 estavam abertos, como se lembrando do que tinha acontecido com ele.

“Volte”, Hamid pediu ao projecionista. O número 5061 voltou à tela. “É ele”, disse, balançando a cabeça tristemente.

Sua mãe o acompanhou até a sala, seu rosto triste emoldurado por um véu negro. “Mostre-me o meu filho!”, ela gritou. Atrás dela, Hamid pediu silêncio. Ele acenou com as mãos ao projecionista, implorando-lhe para poupá-la. Em vão, ele sacudiu a cabeça e articulou a palavra “não”.

“Não me diga que ele está morto”, ela gritou. “Não é ele! Não é ele!”. O número 5061 voltou à tela.

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Parentes choram morte de Muhammad Al-Jassem Bouhan Izzawi, depois de peregrinação para identificar corpo
Ela cambaleou para frente, balançando a cabeça em negação. Seus olhos buscavam reconhecimento - e, em segundos, os 33 anos de vida de seu filho passaram diante de seus olhos.

“Sim, sim, sim”, ela finalmente chorou, caindo para trás na cadeira. Num reflexo, suas mãos tapearam o rosto. Elas arranharam, até as unhas tirarem sangue.

O horror desta guerra são os seus números, refletidos nos retratos do necrotério que lembram Pompéia: os olhos fechados de uma criança e os cabelos de uma mulher penteados com sangue e cinzas. “Arquivos em prateleiras”, disse um policial sobre os mortos, e que esse próprio anonimato dá nome à guerra aqui – al-ahdath.

Na prestação de contas oferecida pelos Estados Unidos - os números são vistos como sucesso - de quase 4 mil mortos em um mês em 2006 para as poucas centenas de hoje. O Ministério do Interior oferece sua própria contabilidade da guerra – 72.124 desde 2003, um número muito preciso para ser verdade. No necrotério, mais de 20 mil mortos ainda não foram identificados, mas mesmo as estimativas mais sóbrias sugerem um total de 100 mil ou mais.

Número com nome

O número 5061 era Muhammad Al-Jassem Bouhan Izzawi, pai, filho e irmão. Às 9 horas daquele domingo, dia 15 de agosto, sua família deixou o necrotério de luto em um Nissan branco e partiu em busca de seu corpo em uma cidade dividida entre lembrar e esquecer, quando a morte assombra um país nem em guerra nem em paz.

Há um preceito no pensamento islâmico chamado taqiya, em que os fiéis podem esconder a sua fé diante da perseguição. A família Hamid, moradora do bairro sunita predominantemente xiita de Nova Bagdá, fazia isso.

Conforme os assassinatos sectários se intensificarem em 2005 e as milícias xiitas aumentaram os ataques, eles penduraram dois cartazes de santos xiitas perto das janelas do apartamento, destruído por atentados de carro bomba e remendado com papelão. Para estranhos, eles mudaram seu nome tribal de Izzawi para Mujahadi, esperando se misturar. Eles aprenderam a não dizer "Salaam Aleikum" – a paz esteja com você – quando se despediam, como os sunitas mais devotos fazem.

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Flores de plástico em homenagem a vítima da guerra, enterrada no cemitério dos Mártires, construído depois de queda de Saddam Hussein
Corpulento e barbudo, Muhammad era o mais devoto da família e, talvez, o menos discreto. Ele se permitia assistir filmes de ação americanos, “Van Damme e Arnold”, lembrou o irmão. Mas sua rotina era ordenada de acordo com as orações, que o levavam cinco vezes por dia à mesquita Arafat.

“Nós dissemos 'Nos ouça, reze apenas em casa’”, Hamid recorda ter implorando. "Está nas mãos de Deus, se eu vou morrer”, respondeu o irmão.

Desaparecimento

No dia 1º de julho de 2005, às 5h, armas bateram à sua porta da frente, soando como pequenos sinos de metal frágil. A mãe de Muhammad abriu e homens vestidos como policiais forçaram a entrada. Mal desperto, Muhammad desceu as escadas em uma camiseta branca e um pijama vermelho. Os homens o levaram em uma caminhonete da polícia, deixando para trás sua filha de 2 meses de idade, Aisha, e sua esposa e mãe, clamando por ajuda. Ao todo, 11 homens desapareceram naquela manhã.

Assustados pelas milícias, a família descobriu que ir ao necrotério era perigoso demais, mas depois de muitas semanas, o irmão de Muhammad foi assim mesmo. Ele não encontrou nada. A família deu cerca de US$ 650 para um parente que tinha um amigo que conhecia um motorista de uma milícia xiita. Um mês depois, ele voltou sem nenhuma informação, mas ficou com US$ 100 por seu tempo. Outro conhecido ofereceu ajuda por US$ 20 mil.

“Onde conseguiríamos esse dinheiro?”, Hamid perguntou.

Um encontro casual em agosto trouxe a família ao necrotério. Um vizinho tinha encontrado seu pai entre as fotos na sala dos desaparecidos. Ele era um dos 11.

Desdém

Hamid é um homem quieto em uma cidade que não abraça o silêncio. Modesto, quase tímido, ele é cheio de gestos abreviados e perguntas são gaguejadas quando ele é confrontado com a autoridade.

Cautelosamente, ele segurava uma carta do necrotério. Número 5061, ele disse, junto com o nome da delegacia, Rafidain, que tinha recuperado o corpo de seu irmão. Ele levou sua família para a grande favela xiita que é a cidade Sadr, depois de um posto de gasolina chamado 9 de abril - data da queda de Saddam Hussein - e de um pedestal vazio onde antes havia uma estátua do ditador.

Policiais em uniformes misturados estavam esparramados em cadeiras na entrada, perto de uma barreira de arame farpado e pneus, uma cadeira e um guarda-lamas que sugeria a impermanência da cidade.

“O que você quer?”, um deles gritou a Hamid.

A família precisava de um ofício da delegacia, o primeiro passo para reivindicar o certificado de óbito de Muhammad e descobrir onde foi enterrado. Com Hamid a seu lado, a mãe pediu que os deixassem entrar. Eles haviam procurado por ele por cinco anos, ela disse.

O policial olhou para ela com desconfiança. “Se você estiver mentindo, vou colocar todos na cadeia agora”, ele gritou.

“Meu filho está morto, e é isso que você me diz?”, respondeu a mãe.

O policial virou a cabeça em desgosto. “Cadela”, ele murmurou.

Slogans estão espalhados por toda Bagdá. Eles são rabiscados nas paredes desmoronadas por explosões que dividem o concreto da cidade. Eles são proclamados em outdoors acima do tráfego formado em pontos de controle. Quanto mais são ditos, ao que parece, menos ressonantes se tornam.

“Respeitar e ser respeitado”, dizia o cartaz visto pela família ao entrar na delegacia.

Eles seguiram Kadhem Hassan, um policial cansado de 60 anos, encarregado de registros, cujo escritório fica na esquina de banheiros cheios de excrementos.

Seu escritório continha apenas uma mesa bamba e arquivos amarelados. Um ventilador circulava o ar quente – Hassan o comprou por US$ 20. Sentado em sua cadeira, ele vasculhou os arquivos. Em palavras arrastadas pela falta de dentes, ele disse ao sobrinho de Hamid que fosse comprar papel se quisessem uma carta.

Ele encontrou o relatório policial da morte de Muhammad. Datado de 3 de julho de 2005, em rabiscos quase indecifráveis: “Nós descobrimos 11 corpos não identificados, com as mãos amarradas atrás das costas, os olhos vendados e as bocas amordaçadas. Os corpos tinham sinais de tortura”.

“Todos nós somos vítimas”, disse Hassan a Hamid, em uma tentativa de compaixão. “Quem foi exceção? Ninguém foi. Nem os mártires e nem os policiais, ninguém”. “Deixe-me ser honesto. Teria sido melhor se tivéssemos ficado sob Saddam Hussein”.

Odisséia burocrática

Da delegacia de Rafidain, com uma carta em papel que ele tinha comprado, Hamid foi para o necrotério. Sua carta, disse um funcionário lá, Ihab Sami, estava incompleta.

Às vezes com a mãe, às vezes com o sobrinho, ele voltou a o necrotério, a delegacia de polícia, ao tribunal de Sadr e ao necrotério. Durante sete dias, ele colecionou papéis com o número 5061.

“Nós perdemos alguém”, disse Hamid enquanto dirigia. “Eles deveriam facilitar para nós”. Ele ficou em silêncio. “Eu acho que nada termina facilmente”, ele sussurrou, “para os vivos e os mortos”.

Em um país cauterizado preso entre o seu passado assombrado e futuro incerto, parece que a morte molda a vida em Bagdá. Conforme Hamid dirigia pacientemente por sua paisagem destruída, ele passou por cemitérios cujas lápides são um inventário de guerra, um deles construído no dia seguinte à queda de Saddam Hussein em um parque beira-rio, perto de árvores de romã tão desidratadas que já não dão frutos.

“Quem lê o Alcorão para mim, chora a minha juventude”, dizia o epitáfio de Oday Ahmed Khalaf. “Ontem eu estava vivendo, e hoje eu estou enterrado sob a terra”.

Orfãos

Do outro lado do rio Tigre estava o Orfanato Jawad, onde Rahim Hussein, que não sabe sua idade, brincava com dezenas de outras crianças cujos pais foram mortos pela violência. Uma explosão enterrou sua família em sua casa em julho de 2008. Ele viveu porque estava jogando futebol. O nome do seu pai, ele acha, era Ali. Mas ele não consegue se lembrar o nome de sua irmã de 6 meses de idade, nem de sua mãe. Eles são o passado, ele disse, e “ninguém quer falar sobre isso”.

Uma mina na estrada havia fechado a rua e Hamid havia estacionado há quase uma milha de distância. Com o seu sobrinho, ele caminhou em direção ao escritório de atestados de óbito não solicitados onde um cartaz dizia: “De mãos dadas, vamos construir o Iraque unido”. Escritórios do governo em construção estão em ruínas antes mesmo de serem concluídos. As carcaças dos carros-bomba foram empilhadas na rua ao lado.  “Eu já não considero este o meu país”, disse Hamid. “Realmente, eu me sinto como um estranho. Não sou só eu. Todo mundo se sente assim”.

O escritório – um termo lisonjeiro para um barraco desorganizado – ficava em uma estrada de terra, do outro lado de uma creche cercada de vasos sem plantas. Aqui, até os vasos estavam enrolados em arame farpado. “Eles nem sequer colocar uma placa na frente”, reclamou-Hamid.

Registros

Animada, com um bom humor que parecia em desacordo com o seu trabalho, Maysoun Azzawi estava em sua mesa ao lado do assistente Hajji Saleh. Ela o despachou para vasculhar os 100 cadernos de registros – empilhadas na vertical e do lado deles, alguns sem capa, todos com páginas rasgadas – para encontrar a certidão de óbito do número 5061.

“Vamos, apresse-se!”, ela gritou. “Procure pelos registros de 2005!”  Ela virou-se para Hamid. “Você é sunita ou xiita?”, ela perguntou.

“Misto”, ele respondeu.

Ela assentiu com conhecimento de causa, então gritou novamente. “Hajji, você vai encontrá-lo ou tenho que entrar aí?”

Ele trouxe o livro e ela se debruçou sobre suas páginas amassadas contendo, linha após linha, os registros de mortos não identificados. “O que aconteceu conosco?”, ela perguntou, enquanto virava as páginas procurando pelo número 5061. “Existem pessoas boas aqui, meu irmão, mas Deus amaldiçoou esse país”.

Ela tirou a certidão de óbito, escrita em vermelho e numerada 946777. O necrotério enviou o corpo de Muhammad para o enterro no dia 22 de julho, ela disse a Hamid, e o responsável foi Sheikh Sadiq Al-Sheikh Daham. Ela entregou-lhe o certificado em papel de seda. “Você tem tudo o que precisa agora”, ela disse. “Você pode ir a Najaf”.

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Mortos chegam ao cemitério de Najaf, buscando bênção perto do túmulo de cúpula dourada do Imã Ali
Capital xiita

Najaf, capital espiritual do islã xiita, é uma cidade de mortos. Há mais de um milênio, os mortos chegam ao seu cemitério, o Vale da Paz, buscando bênção em sua sepultura perto do túmulo de cúpula dourada do Imã Ali, o reverenciado santo xiita. Há momentos de beleza aqui – caligrafia finamente impressa sobre azulejos azul turquesa, cúpulas de uma simetria perfeita impossível na vida. Mas predominam os tons de ocre, as lápides da cor tijolo que se estendem até o horizonte como suplicantes, no aguardo de uma audiência. O cemitério recebe os desconhecidos, sunitas ou xiitas.

Antes do sol se levantar, no nono dia após a identificação da imagem de seu irmão, Hamid levou suas três irmãs, a esposa e filha de Muhammad e sua mãe, para além dos arredores de Bagdá. Jatos americanos passavam pelo céu. Quando o sol se levantava, o carro de Hamid passava pelo túmulo do profeta Job.

Na mão de Hamid o certificado da morte de seu irmão. “Corrigido”, dizia simplesmente.

Apenas o coveiro sabia onde estava o túmulo de Muhammad, ele havia esboçado sua localização em um mapa feito à mão em um livro de capa de couro vermelho amarrado por quatro pedaços de fita amarela. Três pilhas de tijolos cobertos com concreto apressadamente derramado marcavam o local. “Desconhecido, 5061, 02 de julho de 2005”, dizia. Ao lado estava o 5067, 5060 e assim por diante, centenas de túmulos que se estendiam fileira após fileira, tão próximos que alguns dos mortos compartilhavam um mesmo.

As mulheres deitaram sobre o túmulo, jogando areia em suas cabeças em luto. Seu coro de gritos cruzaram os lamentos de um funeral xiita que acontecia nas redondezas. A esposa de Muhammad tocou a lápide como se fosse encarnada. Sua irmã beijou o cimento.

“Quanto tempo procuramos por você, meu filho?” sua mãe gritou, lágrimas transformando a areia em seu rosto em lama. “Todo esse tempo e você sofrendo sob o sol”.

Hamid ficou para trás, suas lágrimas transformadas em soluços. “Não há mais nada a fazer”, ele disse, sacudindo a cabeça.

Uma hora mais tarde, a família se afastou no carro de Hamid, o choro de sua mãe ainda audível. “Deixe-me tomar o seu lugar”, ela gemia. Ele virou à direita, depois à esquerda em uma pista de asfalto preto. Por um momento, o carro pegou o brilho do sol, em seguida, desapareceu atrás das incontáveis tumbas.

Para trás ficava o número 5061. Com um tijolo, eles escreveram sobre o marcador. Com uma garrafa de água, eles lavaram o túmulo revelando uma cobertura branca em um mar de túmulos marrons.

*Por Anthony Shadid

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