Iraque se volta a palco árabe enquanto se afasta dos EUA

Aos poucos, país deixa de ser campo da guerra para reformular relações com Washington e traçar novos rumos no mundo árabe

The New York Times |

Na manhã de uma segunda-feira, o ministro iraquiano das Relações Exteriores estava em uma rotunda de mármore no antigo Palácio Republicano de Saddam Hussein, antes o coração da ocupação americana, quando afirmou que era ali que os Estados Unidos ficavam quando "tentavam nos ajudar a dirigir o nosso país".

Como foi isso? "Mal", disse ele.

Logo, o palácio será o palco para uma reunião de cúpula da Liga Árabe – uma obra-prima para um país que já foi um pária regional e que agora tenta se afirmar relevante nos assuntos do Oriente Médio, no momento em que seus vizinhos estão passando por turbulências. "Será muito importante por causa das mudanças recentes e acontecimentos históricos em outros países árabes", disse o ministro das Relações Exteriores Hoshyar Zebari. "Estamos prontos. Bagdá está pronta para receber todos os presidentes árabes".

O palácio, onde uma empresa turca tem trabalhado sem parar desde agosto para desmantelar as fortificações americanas e restaurá-lo aos padrões de uma grande capital árabe, demonstra a vontade do Iraque em abandonar o fardo da guerra e da ocupação e conquistar um grau de autoconfiança nacional.

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Operários trabalham na reforma da fachada de palácio em Bagdá antes ocupado por embaixada americana
A inauguração das melhorias do palácio na segunda-feira, em uma visita feita pelo Ministério das Relações Exteriores, foi também um símbolo da influência decrescente dos Estados Unidos no país no momento em que decisões cruciais sobre o futuro das relações entre os dois países, tanto diplomáticas quanto militares, precisam ser tomadas.

Os sacos de areia que os americanos deixaram no palácio se foram, mas uma placa que diz "Frota Motorizada da Embaixada dos Estados Unidos"ainda é vista na parede exterior de uma entrada traseira. Havia poucos danos estruturais para correção. "Eles não bombardearam o palácio porque sabiam que iriam ficar aqui", disse H. Almanhal Alsafi, oficial-chefe de protocolo do Ministério das Relações Exteriores.

Tropas

Esses deveriam ser os últimos meses das tropas americanas no Iraque. O presidente Barack Obama disse isso em janeiro, durante o seu discurso sobre o Estado da União. Ele reafirmou isso em seu discurso sobre a Líbia no mês passado, dizendo que as forças militares americanas irão "deixar o Iraque ao seu povo". Mas, como quase tudo o que aconteceu aqui nos últimos oito anos, isso não é tão simples assim.

O secretário de Defesa Robert M. Gates visitou o país na semana passada e abordou um assunto que tem sido discutido nas vielas da cidade de Sadr, na linha divisória étnica do norte, onde árabes e curdos competem por terras e petróleo, e em conversas a portas fechadas entre jornalistas e diplomatas – mas raramente em público pelas autoridades dos Estados Unidos: alguns soldados poderão permanecer no Iraque porque o país precisa deles para proteger suas fronteiras e espaço aéreo.

No sábado passdo, o aniversário da queda de Bagdá em 2003, as ruas estavam cheias de manifestantes denunciando a presença militar contínua dos americanos e alertando para mais violência se as tropas permaneceram além deste ano. Diariamente, a imprensa iraquiana está cheia de especulações e rumores sobre os americanos ficarem ou partirem.

Mas não houve sérias discussões entre os dois governos sobre estender o período de tempo de permanência. "Não houve solicitação do lado iraquiano, nem houve qualquer debate", disse James F. Jeffrey, o embaixador americano no Iraque.

O Departamento de Estado tem trabalhado em planos de duplicar seu tamanho no Iraque em preparação para a retirada militar. Ele pretende ampliar de cerca de 8 mil civis para mais de 16 mil, muitos deles com contratados privados, mas o Congresso ainda não aprovou o dinheiro para pagar por isso.

Representações

O Iraque está participando das negociações sobre o papel do Departamento de Estado. O país pediu dois consulados nos Estados Unidos, além de sua embaixada em Washington –um já existente em Detroit, e outro planejado para a Califórnia – em troca de permitir que os Estados Unidos estabeleçam representações temporárias nas cidades de Kirkuk e Mosul.

São poucos os vestígios dos Estados Unidos no país. Os Estados Unidos são vistos apenas em flashes rápidos de comboios blindados que atravessam as ruas ou nos romances americanos de bordas desgastadas encontrados nas livrarias da Rua Mutanabbi. O número de jornais americanos com bureaus aqui diminuiu.

Por causa da guerra dos Estados Unidos, a Turquia e o Irã têm forjado novas relações no país, diplomática e politicamente. Um executivo cuja empresa turca é responsável pela renovação do palácio acompanhou Zebari na visita ao local. No Hotel Rashid, que também passa por uma extensa reforma para a reunião de cúpula prevista para os dias 10 e 11 de maio, e uma parada na turnê do Ministério do Exterior na segunda-feira, foi um executivo da empresa britânica responsável pela renovação que esteve ao lado de Zebari. A televisão estatal chinesa abriu recentemente um escritório em Bagdá.

Poucas empresas americanas estão aqui para participar do espólio potencial do Iraque, principalmente por causa de preocupações com segurança. Embora a violência tenha diminuído drasticamente, os diplomatas e os poucos executivos americanos aqui continuam a viajar em veículos blindados e com coletes à prova de bala.

Na semana passada, um grupo de executivos financeiros americanos, incluindo alguns do Citibank que espera abrir uma filial no país, comeram omeletes em uma lanchonete de estilo americano chamada DoJo localizada na fortemente protegida Zona Verde. Um homem disse ter feito dinheiro explorando a dívida do governo iraquiano desde o tempo da guerra civil sectária, mas era sua primeira vez em Bagdá e ele ficaria menos de 48 horas. O grupo era transportado em veículos blindados e guardado por seguranças corpulentos com fones de ouvido.

Muitos dos ex-exilados ocidentalizados que voltaram ao Iraque em 2003, se afastaram dos americanos desde então. Tamara Daghistani, uma ex-exilada que informou os norte-americanos no Kuwait sobre a cultura local antes da invasão, entre eles o primeiro administrador americano Jay Garner agora critica os americanos que "não saem da Zona Verde". "Se você está aqui para ajudar, então saia e faça isso", disse ela.

Enquanto isso, no palácio, um Zebari radiante chamou o grande salão onde ele diz que os líderes árabes se reunirão "um símbolo da soberania do Iraque". "Há pessoas que dizem que não estamos prontos. Mesmo no Parlamento, alguns que disseram que não poderíamos ter esse evento aqui", disse ele. "Queremos mostrar a eles que nós estamos prontos para isso".

Quando perguntado sobre o futuro das relações com os Estados Unidos, ele disse que essa era uma discussão para outro dia. "Ainda há um grande debate em andamento", disse ele.

*Por Tim Arango

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