Iraque retoma evento cultural promovido por Saddam Hussein

Encerrado em 2002, Festival da Babilônia volta a ser realizado e reflete conflitos do Iraque democrático

The New York Times |

Saddam Hussein costumava realizar o Festival da Babilônia no final do sufocante verão do Iraque nas antigas ruínas de Hamurabi e Nabucodonosor, ao sul da capital. Era propaganda política, uma expressão anual de megalomania e, até sua última edição no outono de 2002, com o clima de guerra já no ar, um fórum de queixas contra os Estados Unidos.

Este ano, o Ministério da Cultura decidiu reavivar o festival de três dias, que terminou na segunda-feira. Os organizadores, apoiados pelo primeiro-ministro Nouri Al-Maliki, previram uma celebração de um novo Iraque democrático. Em vez disso, o festival trouxe consigo o conflito das cismas religiosas e políticas – e o caos – advindo da democracia.

Na véspera de sua abertura, no sábado, depois que uma dúzia de tropas estrangeiras de música e dança já haviam chegado aos montes, o vice-governador da região proibiu música e dança. Ele citou a coincidência do aniversário do sexto imã do Islã, Muhammad Ibn Jaafar Al-Sadiq.

A proibição prejudicou muito do programa ao longo do fim de semana, que havia sido preparado com meses de antecedência, e deixou inúmeros artistas – que vieram da Argélia, Azerbaijão, Dinamarca, Finlândia, Irã e Rússia, entre outros – na mão, gastando um tempo inesperadamente livre nas ruínas da Babilônia.

Um grupo de teatro da província de Diwaniya apresentou uma peça chamada "Globalização", que narrou o deslocamento dos iraquianos por causa da guerra. A ala cultural do movimento antiamericano do clérigo Moqtada Al-Sadr apresentou uma peça sobre os Estados Unidos chamada "O Diabo" (algumas coisas nunca mudam). Houve exposições de fotografias e pinturas, uma feira de livros e leituras de poesia.

O comparecimento foi baixo, no entanto, com jornalistas e artistas que não fizeram nada em número maior do que a própria plateia. O festival, promovido fortemente pelos oficiais em Bagdá, não foi anunciado em Hilla, capital da província que faz divisa com as ruínas.

Na segunda-feira, último dia do festival, o resto do programa foi simplesmente cancelado, e os músicos e dançarinos enviados de volta a Bagdá após o almoço.

O vice-governador, Sadiq Al-Muhanna, declarou a proibição de música e dança na ausência do governador, que é um rival político do partido de Al-Maliki, o Dawa.

O governador, Salman Al-Zargany, é um incansável promotor do turismo na província e lutou para o renascimento do festival. O motivo de sua ausência não ficou claro, mas ele está sob investigação pelo conselho provincial que o elegeu.

Al-Muhanna argumentou que o Ministério da Cultura esperou tempo demais para enviar o programa de eventos, incluindo o registro das apresentações musicais e de dança, que qualificou de ofensivas aos muçulmanos durante as cerimônias religiosas para Al-Sadiq. Mas ele também disse que as pessoas reclamaram do custo de se sediar um evento tão intimamente associado com o governo anterior.

"Ele lembrou as pessoas do que Saddam costumava fazer", ele disse.

Por Steven Lee Myers

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