Iraque restaura monumento que simbolizava era Saddam Hussein

Em Bagdá, Arco da Vitória representa mãos de ferro do ex-ditador, que caiu com a invasão americana

The New York Times |

Enquanto centenas de milhares de pessoas protestavam no Egito contra as mãos de ferro do presidente do país, o Iraque começava discretamente a restaurar o punho de bronze de seu ex-ditador Saddam Hussein.

Sem anúncio ou debate públicos, as autoridades locais ordenaram a reconstrução de um dos símbolos mais audaciosos do regime violento e opressor de Saddam Hussein, localizado em Bagdá: o Arco da Vitória, duas enormes espadas cruzadas, seguradas por mãos feitas à imagem e semelhança das mãos do próprio ditador.

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Arco da Vitória tem duas enormes espadas cruzadas, seguradas por mãos feitas à imagem e semelhança das mãos do ex-ditador
"Nuremberg e Las Vegas em uma coisa só", foi como Kanan Makiya, um autor e arquiteto nascido no Iraque, descreveu o monumento em O Monumento: Arte, Vulgaridade e Responsabilidade no Iraque, livro que foi publicado em 1991 sob um pseudônimo para proteger a si mesmo.

Após anos de negligência e de um desmantelamento parcial em 2007, que foi interrompido em meio a protestos depois que os painéis de um punho e partes das duas espadas foram removidos, trabalhadores recentemente começaram a reunir os detritos da megalomania de Hussein.

A restauração representa um ato pequeno, mas significativo, de reconciliação com um passado que continua como um divisor de águas, anos depois do governo de Hussein ter sido derrubado. "Nós não queremos ser como o Afeganistão e os talebans e remover coisas como essa", disse Ali Al-Mousawi, porta-voz do primeiro-ministro Nouri Al-Maliki, referindo-se à infame destruição das estátuas de Buda em Bamian, no Afeganistão, “ou como os alemães que removeram o Muro de Berlim”. "Somos um povo civilizado, e este monumento faz parte da memória deste país”.

Preparativos

O trabalho faz parte de um projeto de embelezamento com um investimento total de US$194 milhões, que busca preparar o país para a reunião de cúpula dos líderes da Liga Árabe, prevista para março, em Bagdá.

Essa reunião já tem enorme significado político por causa de seu anfitrião: o Iraque, um país em desacordo com muitos dos seus vizinhos árabes - antes e depois da guerra, e também em busca de lugar de destaque na comunidade internacional.

A turbulência que varre o mundo árabe agora deve chamar ainda mais atenção para a reunião. O trabalho avançou amplamente despercebido. Vários parlamentares contatados sobre a restauração, expressaram surpresa e, em alguns casos, raiva.

Makiya, que agora vive em Cambridge, Massachusetts, também manifestou surpresa, mas satisfação. "Eu fico feliz que esteja sendo restaurado, não porque é uma grande obra de arte, mas porque é um símbolo perfeito da época do partido Baath”, ele disse. "É vulgar, mas vulgar de uma maneira horrenda e terrível – e, portanto, única".

*Por Steven Lee Myers

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