Iraque expulsa e recebe família novamente após exílio nos EUA

Após fugir do governo de Saddam, iraquianos voltam ao país para prosperar. E relatam as dificuldades da vida na América

The New York Times |

BAGDÁ - Ali al-Subiahi retornou de seu exílio nos Estados Unidos para tentar dar um novo sentido para sua vida em um novo Iraque. Aos 26 anos, ele é dono de algumas escolas particulares em Bagdá, que financiou com seu salário como intérprete para os militares dos Estados Unidos. Ele se adaptou, demonstrando o que aprendeu com o empreendedorismo americano, fazendo propagandas para suas escolas em muros que uma vez foram vestígios da guerra.

Sendo um cidadão dos Estados Unidos e um ex-oficial militar, ele teme por sua vida. Mas como um iraquiano e um muçulmano, ele descobriu que a vida no Iraque pode ser mais fácil do que em sua nova casa de família na cidade de Lincoln, Nebraska, onde clubes de strip-tease, lojas de bebidas e igrejas fazem parte da paisagem do subúrbio.

"Além da segurança, a vida é mais simples por aqui", disse ele ao sentar-se cercado por livros didáticos em uma de suas escolas em Dora, um bairro que poucos anos atrás era um campo de batalha sectária. "Eu consigo entender melhor as pessoas."

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A família Al-Subiahi fugiu do Iraque de Saddam Hussein em 1999, quando seu pai se tornou um homem procurado por se opor ao governo. Membros da família depois apoiaram a invasão realizada por seu novo país a sua terra natal. E assim como outros americanos, assistiram sem poder fazer nada, uma guerra que era para ser curta e triunfal, mas parecia não ter fim.

Com o tempo, seu futuro já não parecia ser tão promissor, ele tornou-se vítima da desconfiança crescente em relação aos muçulmanos nos Estados Unidos e teve que lidar com a crise econômica que atingiu imigrantes e não-imigrantes da mesma maneira.

Agora, com a partida do último grupo de soldados americanos do Iraque, um momento decisivo para os Estados Unidos também está sendo um momento de mudança para esta família.

O irmão mais novo de Al-Subiahi, um adolescente, não consegue imaginar deixar os Estados Unidos, uma irmã cada vez mais devota não tem certeza se ela conseguiria ficar. Dois outros irmãos estão indecisos.

Sua mãe está no Iraque, pelo menos por enquanto, ajudando nas escolas de Al-Subiahi, que são o ganha pão da família mesmo quando vivem em Nebraska.

Seu pai não quer ceder. "Eu sou americano", disse ele recentemente. "Nossa religião diz que sua casa é onde você é bem-vindo."

A escola de Ali al-Subiahi em Dora se encontra a apenas alguns metros de um batalhão de polícia, é limpa e bem cuidada. O bairro já foi o lar de uma grande população cristã, mas a maioria dos cristãos foi embora durante os confrontos que aconteceram em 2006 e 2007.

Andrea Bruce/The New York Times
Sala de aula de uma das escolas particulares para meninas aberta por Ali al-Subiahi, em Bagdá, no Iraque

Ele disse que retornou ao Iraque, em 2004, por motivos financeiros, já que poderia ganhar cerca de US$ 10.000 por mês como intérprete.

Mas quanto mais tempo ele permanecia, mais ele queria fazer a diferença. E, segundo ele, suas perspectivas de vida eram mais limitadas nos Estados Unidos.

Tendo apenas o ensino médio completo, ele viu que suas opções de trabalho se limitavam ao McDonalds ou seguir o caminho que muitos imigrantes seguem e abrir um negócio. Ele e seu cunhado tentaram montar uma pequena mercearia, mas desistiram porque os impostos eram muito altos para que pudessem tirar qualquer tipo de lucro.

"Eu perdi a fé nos Estados Unidos quanto a abrir um pequeno negócio", disse Al-Subiahi, que criticou as prioridades financeiras da América. "Eles cuidam das pessoas realmente pobres, que não tem dinheiro nem para comer ou que não querem trabalhar, ou das pessoas ricas".

Apontando em direção a sua mãe, Haifaa, ele disse que ela conseguia encontrar apenas trabalhos serviçais nos Estados Unidos, embora tenha sido diretora de escola no Iraque. "Em um país, você trabalha na cafeteria da escola e no outro você é a diretora", disse ele. "Aonde então você prefere estar?"

Isso não quer dizer que a volta para casa tem sido fácil.

A guerra tirou a vida de oito membros de sua família, vítimas de uma guerra civil cuja premissa - identificação por seita - foi um conceito com o qual a família não tinha se deparado anteriormente. Al-Subiahi nem sabia sobre seus antepassados até ser entrevistado para ser intérprete. (Seu pai é xiita, sua mãe é sunita.)

Ele não pode sequer sair à noite para comprar um maço de cigarros sem se preocupar com sua mãe, pois sabe que muitos intérpretes iraquianos que trabalharam para os Estados Unidos têm sido alvos por serem considerados traidores.

Ela o recebe toda vez que volta para casa com as mesmas palavras: "Graças a Alá você está de volta."

A sua casa em Lincoln é uma casa suburbana confortável com uma frente de tijolos expostos e persianas de cor creme, um mundo bem distante em comparação a sua situação no Iraque.

O pai de Ali, Hussein al-Subiahi, é o dono da casa, embora ela esteja em nome de seu filho. Um homem orgulhoso, que às vezes fala de si mesmo na terceira pessoa, Hussein anda mancando por ter sido baleado durante a guerra do Iraque com o Irã na década de 1980.

Enquanto exibia sua nova cidade adotada, Hussein al-Subiahi descreveu a jornada de sua família. Ele era um oficial da força aérea, quando ouviu um boato de que fazia parte de uma lista de alvos a serem assassinados por alegações de que teria feito parte de uma conspiração contra o governo. Tendo presenciado as crueldades de Saddam de perto, ele resolveu não se arriscar. A família fugiu para a Síria através das montanhas do Curdistão e começou a procurar uma casa permanente. "Ninguém nos aceitou - Jordânia, Arábia Saudita, Egito", disse Hussein al-Subiahi. "Ninguém nos aceitou, apenas os Estados Unidos."

Quando a família chegou nos Estados Unidos, ele disse a seus filhos e esposa para "esquecerem o Iraque." Agora, com o fim da guerra, ele tem que lidar com a divisão da família sobre qual dos países é realmente o deles.

No quarto de Ali, passagens do Alcorão estão penduradas na parede e o armário está cheio de lembranças de seu serviço militar: um capacete e fotos com seus amigos da Marinha.

O irmão mais novo de Ali, Mahmoud, se cerca de coisas tipicamente americanas. Estudante da Escola de Ensino Médio Lincoln East, ele favorece o jeans largo no estilo de alguns rappers. Ele visitou o Iraque brevemente após a invasão dos Estados Unidos e não gostou do que viu. Na época, decidiu que nunca mais iria voltar ao país.

Sua irmã de 31 anos de idade, Shaimaa, casada, vive do outro lado da cidade, não muito longe da mercearia que Ali e seu irmão deixaram pra trás.

Shaimaa está cada vez mais tentada a voltar para o Iraque desde que começou a usar um hijab já faz três anos e notou como as pessoas mudaram imediatamente com ela.

No Iraque, ela pensa que poderá ser mais fácil criar sua filha adequadamente como uma muçulmana, podendo "manter sua virgindade até seu casamento".

Mesmo o patriarca da família, Hussein al-Subiahi, reconhece que a América pode dificultar as coisas na hora de se adaptar.

Ele nunca conseguiu um trabalho fixo em Nebraska. Ele também tem raiva de alguns colegas americanos por culparem todos os muçulmanos pelos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

"Os Estados Unidos destruíram o Vietnã e não saímos por aí dizendo que cristãos destruíram o Vietnã", disse ele. Ainda assim, ele menciona sempre a gratidão que sente por ter conseguido encontrar uma nova pátria.

Ao mostrar fotografias antigas em seu computador, ele acaba dando atenção para uma foto tirada com alguns amigos em Kirkuk, em 1977.

Todos presentes na foto sofreram com os tumultos do Iraque. Dois foram mortos na guerra contra o Irã, outro passou um ano em uma prisão iraniana. Ele então passou para outra imagem: um general iraquiano que conhecia. O que aconteceu com ele: "ninguém sabe".

Ali prefere focar no futuro do Iraque ao invés de seu passado e sua história revela, talvez, uma pequena medida de esperança para o eventual retorno da classe média educada do país, que já foi a base de uma sociedade cosmopolita.

Com a abertura das escolas (quatro até agora), ele espera ajudar a formar uma base para um Iraque livre.

Ele faz questão de salientar que as escolas são abertas a todas as seitas, todas as religiões, até mesmo os não crentes.

Mas existem algumas coisas que Ali não pode mudar. O currículo ainda é ditado pelo Ministério da Educação e isso significa que aulas sobre a tirania de Saddam ou a guerra dos Estados Unidos estão fora dos limites - os burocratas dizem que as crianças em idade escolar não estão prontas para descobrir sobre o passado de seu país.

Ali não finge que todos seus motivos são altruístas, ele voltou para o país disposto a crescer financeiramente e está encontrando o caminho certo para fazê-lo. No seu primeiro ano em operação, no ano passado, ele faturou US$ 75.000, milhares de dólares a mais do que ele teria ganhado fritando hambúrgueres.

Andrea Bruce/The New York Times
Aula de Biologia em escola particular para meninas aberta por Ali al-Subiahi. No ano passado, ele faturou US$ 75 mil

Para o seu pai, o legado da guerra é claro. "Quando eu ouço de pessoas de minha tribo, normalmente elas pedem: 'Por favor, abençoe os Estados Unidos, por favor abençoe George Bush pela nossa liberdade", disse ele.

Ali não discorda. Ele resumiu a vida no antigo Iraque com o seguinte comentário: "Se você odiava Saddam, você não podia falar isso nem para si mesmo. Havia a possibilidade da sua consciência entregá-lo".

Ele simplesmente está tendo mais problemas do que seu pai em dividir as duas partes de sua vida e escolher em qual dos países irá ficar permanentemente.

A escolha pode não ser toda sua. Seu futuro, como o destino do legado americano no país, será escrito em um epílogo da guerra, que começou quando os últimos dos soldados dos Estados Unidos cruzaram a fronteira para o Kuwait, deixando os iraquianos com a responsabilidade de decidir se podem viver juntos em paz.

Por Tim Arango

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