Iraque: Empresas americanas dominam reconstrução da indústria petrolífera

Antes de produtores terem retorno dos investimentos, companhias de perfuração lucram bilhões com renascente extração no país árabe

The New York Times |

Quando o Iraque leiloou direitos para a reconstrução de sua indústria petrolífera há dois anos, a empresa russa Lukoil ganhou uma porção da bolada – um campo com cerca de 10% das reservas conhecidas de petróleo do país.

Parecia uma vitória geopolítica para a Lukoil. E como apenas um dos 11 campos que os iraquianos leiloaram foi para uma empresa de petróleo americana – a Exxon Mobil – também parecia como poucos benefícios do petróleo chegariam ao país que teve o papel principal na guerra, os Estados Unidos.

O resultado do leilão ajudou a acalmar as críticas no mundo árabe de que os Estados Unidos invadiram o Iraque por seu petróleo. "Ninguém, mesmo os Estados Unidos, pode roubar o petróleo", disse o porta-voz do governo iraquiano, Ali al-Dabbagh, na época.

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Região de Kirkuk, no norte do Iraque, é rica em petróleo (foto de arquivo)
Mas as empresas americanas podem, aparentemente, fazer a perfuração em busca desse precioso material. Na verdade, empresas americanas de perfuração estão lucrando bilhões de dólares com a renascente extração no Iraque muito antes de qualquer um dos produtores de petróleo começarem a ver qualquer retorno de seus investimentos.

A Lukoil e muitas das outras companhias internacionais de petróleo que ganharam campos no leilão estão agora subcontratando principalmente quatro empresas americanas de serviços petrolíferos que são líderes mundiais em seu campo: Halliburton, Baker Hughes, Weatherford International e Schlumberger. Essas quatro ganharam a maior parte dos subcontratos de procura por petróleo, construção de poços e renovação de equipamentos antigos.

"O Iraque é uma grande oportunidade para os empreiteiros”, disse Alex Munton, analista de Oriente Médio para a Wood Mackenzie, uma empresa de pesquisa e consultoria com sede em Edimburgo, na Escócia. Munton estimou que cerca de metade dos US$ 150 bilhões que as principais empresas internacionais investirão nos campos de petróleo do Iraque na próxima década irão para subempreiteiros de perfuração – a maior parte para as quatro grandes operadoras, que têm laços com a indústria do petróleo do Texas.

A Halliburton e a Baker Hughes são baseadas em Houston, como a unidade de perfuração da Schlumberger de Paris. A Weatherford, embora agora incorporada na Suíça, foi fundada no Texas e ainda tem grandes operações lá.

Michael Klare, professor de Estudos sobre Paz e Segurança Mundial na Hampshire College, em Massachusetts, e uma autoridade nas questões de petróleo e conflito, disse que empresas americanas de serviços petrolíferos são geralmente dominantes no Oriente Médio, e no mundo, devido à sua avançada tecnologia de perfuração. Então não é nenhuma surpresa, ele disse, que elas tenham conseguido espaço para lucrar no Iraque também – apesar da aparência diplomática inicial.

Preferência

Autoridades americanas disseram que os especialistas que assessoraram o Ministério do Petróleo iraquiano sobre as formas de restaurar e aumentar a produção do produto o fizeram sem procurar qualquer preferência para empresas dos Estados Unidos.

E imediatamente após a rodada de leilões vencida pela Lukoil em 2009, o porta-voz da embaixada americana em Bagdá, Philip Frayne, disse à Reuters que "os resultados da rodada de licitação deveriam enterrar o antigo conceito de que os Estados Unidos intervieram no Iraque para proteger o petróleo iraquiano para empresas americanas”.

Mas Klare disse que as autoridades americanas que haviam aconselhado o governo iraquiano em suas decisões de contratação quase certamente esperavam que empresas petrolíferas dos Estados Unidos ganhassem uma boa parte dos negócios no país, independentemente de quem ganhasse o contrato principal. "Não há dúvida de que assumiriam isso", disse ele.

As companhias de serviços petrolíferos dos Estados Unidos que estão presentes no Iraque há muitos anos em contratos com as autoridades de ocupação americanas e militares, estão expandindo sua presença mesmo conforme os militares americanos se preparam para deixar o país.

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Oleoduto pega fogo perto de Hit, no Iraque (foto de arquivo)
Por exemplo, a Halliburton, uma empresa que já foi comandada pelo ex-vice-presidente americano Dick Cheney, tem 600 funcionários no Iraque e disse em um comunicado que pretendia contratar outros 100 até o fim do ano. "Nós continuamos a conquistar contratos significativos no Iraque e estamos investindo pesadamente em nossa infraestrutura", disse Halliburton.

Os 11 contratos assinados com as principais empresas petrolíferas do Iraque, incluindo os seis para os maiores campos, se destinam a aumentar a produção iraquiana de cerca de 2,5 milhões de barris de petróleo por dia de hoje para 12 milhões de barris diários em 2017. Alguns dos contratos de serviços petrolíferos são para reparar campos atualmente produtivos, outros para localizar ou explorar campos ainda não utilizados.

Produção

A maioria dos especialistas de fora, incluindo os da Agência Internacional de Energia, em Paris, são céticos em relação às metas de produção. A AIE prevê que o Iraque não vai superar 6 milhões de barris por dia até 2030.

Mas há pouca dúvida de que a produção está aumentando. Em média, em 2002, um ano depois da invasão dos Estados Unidos, o Iraque produziu apenas 1,9 milhões de barris de petróleo por dia.

A experiência da Lukoil no Iraque mostra como ao mesmo tempo que a geopolítica afastou os contratos das empresas americanas, o processo abriu caminho para sua subcontratação em larga escala.

A Lukoil originalmente recebeu a concessão de Saddam Hussein, em 1997, para desenvolver um campo enorme chamado Qurna Oeste 2 – concessão que rescindiu com Saddam pouco antes do início da guerra em 2003. Após a invasão, a Lukoil sentiu que sua melhor chance estava em trabalhar com os americanos. A empresa formou uma joint venture com a empresa ConocoPhillips dos Estados Unidos, dando à Conoco uma pequena empresa no Ártico russo e cedendo-lhe parte de Qurna Oeste 2.

Quando a Lukoil entrou na concorrência novamente pelo campo no leilão de 2009, o sentimento tanto no governo americano quanto no iraquino parecia ter mudado para favorecer empresas não americanas na concessão dos contratos principais. Mas um dos primeiros passos da Lukoil, depois de garantir o Qurna Oeste 2, foi subcontratar a americana Baker Hughes.

Enquanto a Baker e outras companhias americanas aparentemente receberão lucros significativos por seu trabalho no Iraque, margens ínfimas serão destinadas à Lukoil e outros produtores internacionais de petróleo – que incluem a BP da Grã-Bretanha, a CNPC da China, a ENI da Itália e a anglo-holandesa Shell.

O contrato da Lukoil, por exemplo, é típico no pagamento de uma taxa fixa de US$ 1,15 por cada barril produzido, independentemente do preço do petróleo no mercado. Isso significa que mesmo se a Lukoil conseguir reformar o Qurna Oeste 2 e aumentar sua produção para 1,8 milhões de barris diários até 2017, conforme especificado no contrato, será preciso mais de uma década de produção subsequente apenas para recuperar seu investimento de cerca de US$ 13 bilhões. Uma boa parte desses custos, por sua vez, terá sido com empreiteiros de perfuração. A Lukoil diz que pretende perfurar mais de 500 poços ao longo de seis anos.

Renegociação

A Lukoil e outras empresas vencedoras do leilão de 2009 estão em silêncio buscando renegociar os acordos diminuindo o investimento inicial. Na quarta-feira, os executivos da Lukoil se reuniram com o ministro do petróleo do Iraque em Moscou, disse a companhia em um comunicado. Um porta-voz se recusou a fornecer mais detalhes.

Andrei Kuzyaev, presidente da Lukoil Overseas, subsidiária da empresa para operações no exterior, disse em uma entrevista que estava escolhendo os contratantes de serviços petrolíferos do Iraque através de concursos públicos, conforme exigido pelo contrato. Mas, na verdade, funcionários da Lukoil dizem, em off, que apenas companhias de serviços petrolíferos americanas poderão participar da licitação. "O interesse estratégico dos Estados Unidos é que novos suprimentos de petróleo cheguem ao mercado mundial, a preços mais baixos", disse Kuzyaev.

"Não é importante que não tenhamos participado da coalizão", disse ele, referindo-se às operações militares no Iraque. "Para a América, o importante é o livre acesso às reservas. E é isso o que está acontecendo no Iraque”.

*Por Andrew E. Kramer

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