Iraniano contraria críticos e muda cara da diplomacia no país

Secretário para Direitos Humanos que estudou nos EUA tem postura menos combativa e raivosa em comparação aos outros líderes do Irã

The New York Times |

Mohammad Javad Larijani nunca terminou os seus estudos de matemática em Berkeley. Em vez disso, ele se tornou um principais defensores da Revolução Islâmica iraniana em inglês.

Ele era um estudante de graduação de 29 anos de idade em 1979, com um escritório que dava para a Baía de São Francisco, quando de repente abandonou o seu trabalho de dissertação e deixou a Universidade da Califórnia para voltar para casa, onde clérigos revolucionários derrubaram o governo do xá, na época, apoiado pelos Estados Unidos.

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Mohammad Javad Larijani, secretário geral do Conselho de Direitos Humanos iraniano, durante entrevista em Nova York


Filho de um importante aiatolá, Larijani se tornou um proeminente membro do novo governo islâmico, que o valorizava por sua educação religiosa conservadora e sua fluência no idioma do país que seus contemporâneos chamavam de o Grande Satã.

Agora, aos 61 anos, Larijani ainda está engajado no trabalho de tentar rebater os críticos do Irã, conduzindo uma batalha de relações públicas através de painéis de debates no exterior, entrevistas concedidas a jornais internacionais e aparições na televisão. Ele enfrentou com calma os questionamentos de jornalistas como Charlie Rose, Fareed Zakaria e Christiane Amanpour.

Se ele conseguiu alterar qualquer opinião dos Estados Unidos sobre o Irã é questionável. Mas mesmo os críticos de Larijani dizem que ele tem uma postura suave e urbana e um comportamento racional que contrasta com a grandiloquência de outros líderes iranianos que dispersam raiva contra os Estados Unidos.

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"Ele é alguém muito utilizado como o rosto diplomática do Irã", disse Hadi Ghaemi, diretor da Campanha Internacional para os Direitos Humanos no Irã, um grupo de advocacia com sede em Nova York, que não tem qualquer predileção por Larijani e já duelou verbalmente com ele. "Ele é muito bem versado em colocar o Irã sob uma luz positiva."

Larijani também é membro de uma família conservadora religiosa extremamente poderosa no Irã. Seus irmãos incluem o orador do Parlamento e o chefe do poder judiciário.

Com seu título atual de secretário-geral do Conselho Superior do Irã para os Direitos Humanos, Larijani esteve em Nova York recentemente para reuniões na Organização das Nações Unidas, onde procurou repudiar um relatório apresentado pelo relator especial para direitos humanos no Irã, Ahmed Shaheed, que afirmou que o governo iraniano está envolvido em um "padrão continuo de violações sistêmicas" dos direitos dos cidadãos.

Mas ele também se viu na extremidade receptora de muitas outras questões, incluindo novas suspeitas levantadas por um relatório da ONU sobre o programa nuclear do Irã , a antipatia do Irã contra Israel e suas tensões cada vez mais amargas com os Estados Unidos, com destaque para as acusações de um plano iraniano para matar o embaixador da Arábia Saudita em Washington.

Larijani diz que o trabalho nuclear do Irã é pacífico e um orgulho nacional, o relatório da ONU é uma piada, Israel é um projeto que fracassou, a acusação de conspiração saudita é uma ficção e os Estados Unidos precisam aceitar que o Irã é um tipo diferente de democracia.

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Não ficou evidente se Larijani abrigava esperança de que a relação entre Estados Unidos e Irã possa ser melhorada, pelo menos não em comparação com a visão que ele já expressou, como vice-chanceler na década de 1980, de que poderia haver um degelo no relacionamento entre os dois países. Agora, depois de mais de 30 anos de difamação por uma sucessão de governos americanos, disse Larijani, a desconfiança das intenções iranianas parece estar arraigada.

"Eles são paranóicos sobre o governo iraniano e não apenas sobre o governo, mas também sobre a criação da República Islâmica do Irã", disse ele em entrevista na missão do Irã nas Nações Unidas. "Isso levou a uma situação que toma como certo que o Irã é uma grande ameaça e para ambos, democratas e republicanos, o problema é como lidar com essa ameaça. Eu acho que esse simples pressuposto é falho."

Ele expressou a irritação que "os Estados Unidos não admirem ou estimulem ou avaliem a democracia que construímos no Irã". Críticos do Irã afirmam que o país não é uma democracia, mas que se transformou em um estado policial que sob o governo do aiatolá Ali Khamenei e do presidente Mahmoud Ahmadinejad sufocou a liberdade de expressão, manipulou a última eleição presidencial e prendeu, maltratou e até matou seus adversários.

Larijani disse que essa visão do Irã também é uma ficção e um sintoma do que ele chamou de uma suposição americana falsa de que os iranianos querem uma mudança em seu governo. Larijani, bem como outras autoridades iranianas, alegou que os Estados Unidos foram em parte responsáveis por incentivar os tumultos mortais que se seguiram à reeleição de Ahmadinejad em 2009, um processo eleitoral que seus adversários consideraram como uma fraude.

"Os Estados Unidos devem pôr de lado essa ideia de mudança de regime ou a linguagem de ameaça ao Irã", disse Larijani. "Isso definitivamente não gera qualquer resultado."

Ele expressou profunda decepção quanto ao presidente Barack Obama, que prometeu estender a mão para o Irã. "Eu tinha muito mais esperança em Obama trazer mudança, mas ele falhou drasticamente", disse Larijani. "Eu não sei por quê."

Na opinião do governo Obama foi o Irã que falhou. As autoridades apontam para o esforço de Obama em se comunicar com Khamenei por meio de cartas privadas que nunca foram respondidas.

Os críticos de Larijani afirmam que ele é um político inteligente que sabe como gerenciar o sistema do Irã, mas não tem formação jurídica ou experiência em questões de direitos humanos. A sua indicação para o cargo atual foi considerada pelos defensores dos direitos humanos como atribuída à influência da família Larijani e sua lealdade a Khamenei.

"Ele observa os direitos humanos politicamente", disse Omid Memarian, um jornalista iraniano que já foi preso no Irã e agora vive nos Estados Unidos. "Ele é calculista. Ele não está lá para defender os valores e princípios. Ele está lá para promover a ideologia do governo."

Enquanto Larijani afirma que tais críticas validam seu argumento de que o Irã é uma vítima da propaganda dos Estados Unidos, ele diz que não tem qualquer antagonismo em relação ao país. Ele ainda expressou um pouco de nostalgia sobre o campus de Berkeley.

"Eu costumava olhar para a Golden Gate e fazer matemática. Esse era meu hábito", disse ele. "E depois de terminar o trabalho eu costumava ir ao Sproul Plaza e ver todos os tipos de pessoas que frequentam o local."

Por Rick Gladstone

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