Irã teme que Ocidente tire vantagem dos levantes árabes

Em discurso, o aiatolá Ali Khamenei afirmou que essas revoltas são decisivas e formarão o destino das nações muçulmanas

The NewYork Times |

Em um discurso realizado em cadeia nacional na quarta-feira, que parecia refletir um novo desconforto existente em Teerã a respeito do curso dos eventos que tomaram seus vizinhos estratégicos, particularmente a Síria, o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, advertiu o Ocidente e Israel para que não busquem tirar vantagem das revoltas anti-governo que atingiram o mundo árabe muçulmano,

O discurso do líder feito na Universidade de Teerã para comemorar o Eid al-Fitr, feriado muçulmano, foi oficialmente descrito pela mídia estatal do Irã como um tributo respeitoso aos movimentos revolucionários que têm despertado as populações muçulmanas para "a sua identidade islâmica genuína."

Mas o discurso incluiu algumas ressalvas que sugerem que os líderes iranianos estão preocupados com a possibilidade de que os resultados destes movimentos diminuam a sua influência.

"Os eventos que têm acontecido no Egito, Tunísia, Iêmen, Líbia, Bahrein e em alguns outros países hoje são decisivos e formarão o destino das nações muçulmanas", disse o aiatolá. No entanto, ele disse, que  "se as potências imperialistas e hegemônicas e o sionismo, incluindo o regime tirânico e despótico dos Estados Unidos, conseguirem usar as condições atuais em seu próprio favor, o mundo islâmico irá definitivamente enfrentar grandes problemas nos próximos anos”.

A omissão da Síria em seu discurso foi notável, ressaltando a própria ambivalência do Irã sobre como lidar com o desenrolar dos acontecimentos no país. O Irã foi o mais forte aliado do presidente da Síria, Bashar Al-Assad, durante todo o levante de cinco meses que atingiu o país e Assad tem procurado reprimir com brutalidade feroz em face de seu crescente isolamento internacional. Mas, nos últimos dias, até o Irã pediu ao regime de Assad que encontre uma maneira de acomodar as demandas do movimento de protesto, temendo que a sua queda possa ser destrutiva aos interesses estratégicos do próprio Irã no Oriente Médio.

No sábado, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi, pediu ao governo de Assad que reconheça as "legítimas" demandas do povo sírio. Essas foram as primeiras afirmações deste tipo feitas pelo Irã desde o início do levante na Síria.

O Irã conta com a Síria para ajudar a financiar e armar o Hezbollah, poderoso movimento político, social e militar atuante no Líbano, assim como o Hamas, grupo militante islâmico que governa Gaza. Ambos são inimigos declarados de Israel e são considerados grupos terroristas pelos Estados Unidos.

O discurso de Khamenei também ilustrou a postura estranha que os líderes iranianos têm adotado para parabenizar os levantes que derrubaram ou ameaçaram líderes autocráticos em países vizinhos, ao mesmo tempo em que suprimem manifestações anti-governo em casa - particularmente desde a disputada eleição presidencial iraniana de 2009, na qual dissidentes alegam ter sido fraudada para garantir a vitória de Mahmoud Ahmadinejad.

O aiatolá pareceu reconhecer as dificuldades eleitorais do próprio Irã, dizendo que o processo sempre foi uma "questão desafiadora" na história de 32 anos da república islâmica. Mas ele também alertou os dissidentes do Irã, que têm se mantido relativamente em silêncio, para não criar problemas antes da próxima eleição presidencial, a ser realizada em 2013.

"As eleições são a manifestação da democracia religiosa", disse ele. "No entanto, os inimigos procuram fazer uso indevido das eleições para prejudicar o país".

* Por Rick Gladstone

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