Irã sente impacto de instabilidade na Síria

Para autoridades dos EUA, eventual queda de Assad preocupa país persa já afetado por sanções econômicas

The New York Times |

À medida que o violento levante antigoverno da Síria faz aumentar a pressão pela renúncia do presidente Bashar Al-Assad, o Irã, seu principal aliado no Oriente Médio, também se encontra sob um cerco que prejudica uma antes importante parceria entre os dois países. Esta é uma posição incomum para o Irã e sua vulnerabilidade na Síria foi percebida pelos Estados Unidos, que têm implementado duras sanções econômicas contra os dois países.

Ao tentar calcular os resultados políticos das revoltas árabes , autoridades americanas e analistas políticos veem a possível queda de Assad como um evento que poderia prejudicar ainda mais o Irã e sua economia, que já vem sofrendo com as sanções impostas para fazer com que o Teerã suspenda seu programa nuclear. "Isto mudaria completamente a dinâmica da região", disse um oficial do governo de Obama na terça-feira.

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Reuters
Manifestantes protestam contra o regime de Bashar al-Assad em Qudsaya, próximo a Damasco (02/02)

O governo americano acredita que a queda de Assad não apenas ameaçaria interromper as relações entre Síria e Irã, um objetivo dos Estados Unidos e de seus aliados árabes há muito tempo, mas também poderia privar o Irã de um de seus principais meios para projetar seu poder no Oriente Médio.

Se Assad cair, Teerã perderá seu canal de apoio militar, financeiro e logístico ao Hezbollah, no Líbano, e ao Hamas, em Gaza. Ambos os grupos se opõem a Israel e são considerados organizações terroristas por Washington, além de manter vastos arsenais de foguetes e outras armas.

Além disso, as sanções contra o Irã têm impedido sua capacidade de fornecer ajuda financeira para Assad (assim como para o Hamas e o Hezbollah), cujo Departamento do Tesouro está esgotado devido às revoltas e sanções impostas contra a Síria. Outra autoridade de alto escalão do governo disse que o Irã, no entanto, tentou demonstrar sua influência alegando que "veríamos Assad cair mais rápido se nós (os iranianos) não estivéssemos lá."

A Síria também é importante para os esforços do Irã em exercer alguma influência na região, sobretudo porque faz fronteira com o Líbano, que lhes dá acesso ao Hezbollah, e com Israel, que o Irã declarou como seu inimigo.

Ali Banuazizi, um professor de ciências políticas da Boston College e co-diretor do curso sobre Oriente Médio e Estudos Islâmicos, disse: "Se o Irã é uma ameaça, então uma maneira de enfraquecer essa ameaça seria enfraquecer a Síria e ajudar o movimento anti-Assad no país".

A revolta que tomou conta da Síria, agora em seu 11º mês, vem causando extremo desconforto para o Hamas , organização palestina com base em Damasco, na Síria. Na sexta-feira, Khaled Meshal, líder do grupo, foi embora de Damasco, sem planos para voltar. No início de Janeiro, Ismail Haniya, primeiro-ministro do Hamas em Gaza, visitou a Turquia, país antes aliado de Assad, mas que talvez hoje seja seu crítico mais poderoso na região .

Nada disso idá a certeza de que Assad, que tem repetidamente rejeitado todos os pedidos por sua renúncia, cairá em breve, apesar da pressão feita nas ruas da Síria e no Conselho de Segurança , onde esforços de potências ocidentais e da Liga Árabe estão em andamento para tentar tirá-lo do poder.

Mas à medida que os sinais de sua impopularidade se espalham pela Síria e sua lista de partidários continua a diminuir, o Irã foi um dos poucos aliados de Assad que não o abandonou - possivelmente porque não tem nenhuma alternativa. Com exceção à minoria alawita, nenhum outro componente do mosaico étnico da Síria demonstra afinidade com o Irã. Muitos sírios agora enxergam o Irã como um aliado de seu opressor. Houve pelo menos três incidentes (como sequestros de iranianos) na Síria nas últimas semanas - todos eles de responsabilidade das forças anti-Assad.

O mais notável foi a prisão no mês passado de cinco iranianos a quem a mídia local chamou de engenheiros, mas que as forças anti-Assad disseram ser conselheiros militares do Irã. Em um vídeo publicado na internet por uma unidade do Exército de Libertação da Síria, que disse que tinha os iranianos sob sua custódia, um dos reféns afirmou que os cinco homens estavam "envolvidos na repressão e atiraram em cidadãos sírios" e solicitou que Ali Khamenei, líder supremo do Irã, "ordenasse a retirada dos militares iranianos que estão reprimindo a população da Síria para que possam voltar para casa."

Embora a veracidade do vídeo não tenha sido confirmada, ele sugeriu um nível de ressentimento em relação ao Irã que não havia sido presenciado anteriormente na Síria.

O Irã continua recitando publicamente a versão de Assad da revolta - de que se trata de terrorismo financiado por potências estrangeiras hostis à Síria. Na terça-feira, Khamenei denunciou a situação, que chamou de "interferência dos Estados Unidos e de seus aliados em questões domésticas da Síria."

Ao mesmo tempo, as autoridades americanas disseram que existem evidências crescentes de que o Irã estava ajudando a treinar e equipar as forças de segurança sírias.

"Nossas preocupações incluem o fato de que algumas das táticas sendo utilizadas pelo regime sírio refletem táticas usadas no Irã contra sua própria população, além de evidências crescentes do número de iranianos dentro e ao redor da Síria", disse a porta-voz do Departamento de Estado Victoria Nuland.

No início de janeiro, o comandante da Força Quds do Irã, Qassim Suleimani, visitou Damasco, levantando suspeitas de que o Irã estava aconselhando Assad sobre a maneira de reprimir o levante. A Força Quds, parte da Guarda Revolucionária Islâmica, realiza operações fora do Irã.

Ainda assim, as autoridades iranianas têm pedido que Assad demonstre mais flexibilidade com seus adversários, um conselho que ele ignorou. Embora o Irã vá tentar fazer o que puder para garantir a sobrevivência de Assad, uma autoridade sênior dos Estados Unidos disse que os iranianos não hesitarão em procurar o apoio de quem o suceder.

"Existem certas restrições que o regime de Assad impõe que o impedem de mudar sua estratégia para sair desta crise", disse Andrew J. Tabler, pesquisador do Instituto de Política do Oriente Próximo de Washington e especialista na Síria. "Assad teria que prejudicar as pessoas que controla para manter a ordem. Não acho que isso vá mudar agora e os iranianos sabem disso".

Ao mesmo tempo, segundo Tabler, o controle de Assad tem sido prejudicado pelas sanções e o tesouro nacional da Síria está cada vez menor. Dadas as sanções contra o Irã, que contribui com a crise econômica do país, os líderes de Teerã provavelmente não irão conseguir fornecer ajuda financeira significativa a Assad.

"E algum momento no meio do ano, a Síria ficará sem dinheiro e será interessante ver o que vai acontecer", disse Tabler. A queda de Assad, disse ele, "seria o pior golpe para a influência do Irã na região em décadas."

Por Rick Gladstone

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