Irã encoraja o Hamas discretamente, só para garantir

CAIRO ¿ No fim do mês passado, o líder religioso supremo do Irã, Ayatollah Ali Khamenei, declarou que qualquer um que fosse morto defendendo palestinos na Faixa de Gaza, seria recompensado no paraíso como mártir. Jovens homens começaram a fazer fila ¿ 70 mil ao todo ¿ para ir e morrer.

The New York Times |

No entanto, uma semana depois, Khamenei anunciou sem explicação que ninguém estava indo a lugar algum para lutar. Eu agradeço à juventude devota e religiosa que pediu para ir para Gaza, disse ele em um local onde havia cobertura televisiva. Mas deve-se perceber que nossas mãos estão atadas nessa situação.

Enquanto o conflito continua em Gaza e as negociações por um cessar-fogo correm no Egito, oficiais no Irã estão agindo com cuidado porque eles também têm uma grande porção nessa aposta. O Irã está tentando se posicionar como superpotência na região, enquanto tenta se alavancar ao máximo, antes das esperadas conversas com a futura administração de Obama.

Contudo, para alcançar esses objetivos, o Irã precisa que o Hamas declare ao menos uma vitória moral em sua guerra com Israel. Nesse caso, os aliados árabes de Israel e Washington se enfraqueceriam, sem que o Irã estivesse envolvido na batalha.

Os líderes iranianos estão alerta ao apoio público ao Hamas devido às conseqüências potencialmente prejudiciais de uma vitória israelense. Uma derrota do Hamas por Israel não retiraria apenas a valiosa influência do Irã na fronteira com Israel, mas também uma carta trunfo para jogar com Washington, e, mais a fundo, iria aliená-lo com a liderança do Egito, da Jordânia e da Arábia Saudita. Manter certa distância do Hamas poderia ajudar a minimizar os danos de sua perda no conflito.

Diálogo com os EUA

O Irã quer sentar em uma mesa de negociação com Obama com todas as cartas da região nas mãos: Palestina, Líbano, Iraque e a relação com a Síria, disse Mustafá El-Labbad, especialista iraniano que reside em Cairo. Eles também estão sendo espertos. Eles estão tentando não se opor muito aos EUA, mas com os árabes eles estão sendo muito duros, muito severos.

Por meses, mesmo antes de Israel invadir Gaza com o objetivo de parar com os lançamentos de foguetes, oficiais iranianos e seus influentes têm atacado cruelmente líderes sauditas e egípcios por não fazerem o bastante para terminar com o cerco israelense sobre Gaza.

Mas o Irã não funciona apenas como um Estado puramente ideológico e não opera a partir de apenas um centro de poder. Quando os acontecimentos começaram a esquentar, Khamenei se intrometeu e acalmou as conversas com centenas de mártires que corriam para Gaza.

Ferramente iraniana

Comentaristas no Irã disseram que Khamenei decidiu que era hora de agir como um freio pragmático ao presidente ideologicamente radical, Mahmoud Ahmadinejad. O presidente e seus aliados estocaram raiva pelo Irã, o que eles dizem que foi a falha dos líderes árabes em fazer mais para acabar com o conflito israelense. Mas há uma grande diferença entre o apoio retórico, mesmo o incentivo, e o envolvimento direto.

O Hamas é uma ferramenta muito prática e útil para o Irã, não ideologicamente, disse Saeed Leylaz, comentarista de política e economia em Teerã. É uma ferramenta muito boa para o Irã, especialmente por causa de seus acordos com os EUA. O que está acontecendo nesse momento em Gaza facilitou para o Irã promover o sentimento de antiamericanismo nos muçulmanos.

As políticas do Irã em relação ao Hamas e ao conflito de Gaza também estão relacionadas à difícil situação doméstica do próprio país. A economia do Irã está se lutando com uma inflação extrema e uma alta queda no preço do petróleo, disseram comentaristas político em Teerã.

Problemas do Irã

O conflito de Gaza foi uma distração útil dos problemas locais, mas também ameaçou uma contra-explosão no Estado se o público percebesse que as fontes escassas do Irã estivessem sendo usadas para ajudar qualquer um que não fossem os próprios iranianos.

O Irã está passando por uma situação interna muito delicada, disse Farzaneh Roostai, editor internacional do jornal Etemad. Estamos enfrentando grandes problemas econômicos e políticos, como a queda do preço do petróleo, o que está afetando o orçamento. A mídia do Estado tentou tirar a atenção das pessoas desses problemas bombardeando o público com propagandas. Mas não tem funcionado.

Diferenças

A relação do Irã com o Hamas é de interesses compartilhados. Por linhagem, os dois lados são aliados improváveis, uma vez que o Irã tem uma teocracia xiita e o Hamas é uma organização fundamentalista sunita. O Hamas, por exemplo, apoia o Saddam Hussein, enquanto o Irã o vê como um assassino psicótico.

Mas Hamas, um pária para o Egito e para a Jordânia, tem recebido dinheiro e treinamento do Irã, enquanto o grupo fornece ao Irã um poder de substituição para minar os interesses dos EUA e de Israel na região. Enquanto o Irã é o patrono primário do Hamas, os dois não compartilham relação sem suturas como a que o Irã tem com o Hezbollah, milícia libanesa xiita e organização política que Teerã ajudou a formar.

Dando voz a esses conflitos atuais, Muhammad Mir Ali Mohammadi, porta-voz do Irã no consulado iraniano na ONU, disse em um e-mail que o apoio do Irã é para com os palestinos em geral, não especificamente o Hamas.

Eu devo repetir a posição iraniana de que nosso apoio é moral e humanitário em relação a toda a causa palestina e ao povo palestino, escreveu ele. Isso quer dizer que se os ataques de Israel são contra a Margem Ocidental, nós também estamos contra isso. Eu entendo os esforços em separar o Hamas das outras partes e o Irã dos árabes.



Por MICHAEL SLACKMAN

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