Investigação sobre o gênero sexual de velocista enfurece sul-africanos

JOHANESBURGO ¿ Para muitos sul-africanos, o bafafá internacional sobre o caso de Caster Semenya ser muito masculina para competir na corrida feminina tem sido uma afronta para todos aqui, como se um mundo insensível quisesse espiar dentro da calça de todo para avaliar o que vê.

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Semenya sobre no pódio em frente a uma
multidão no aeroporto de Johanesburgo

Alguns comentaristas acharam o assunto tão assombroso que compararam o caso de Semenya com o de Saartjie Baartman, mulher africana levada para a Europa no século 19 e exibida como uma aberração sob o nome de Hottentot Venus. Os cientistas examinaram suas genitais.

Semenya voltou de Berlim para sua casa nesta terça-feira. Na capital alemã, ela tinha vencido a corrida mundial de 800 metros, na última quarta-feira. A vitória veio apenas algumas horas após oficiais da corrida internacional dizer que Semenya, uma garota musculosa com a voz rouca de 18 anos, precisava passar por um exame de avaliação de sexualidade para confirmar sua elegibilidade.

Desde então, ela se tornou um herói nacional e sua história ¿ o conto de uma pobre garota de uma vila remota ¿ uma fonte de inspiração. Mais de mil pessoas a cumprimentaram no principal aeroporto de Johanesburgo. Muitos carregavam cartazes com escritos: nossa garota de ouro ou simplesmente a mulher. Enquanto a multidão esperava, eles cantaram músicas de libertação de forças e dançaram ao som de tambores.

Horas depois, um comboio de dez motocicletas levou a equipe de atletismo à casa de convidados presidencial, em Pretoria. Semenya, em trajes de corrida com sua medalha de ouro pendurada no pescoço, andou ao lado de Jacob Zuma, líder do país, para enfrentar a mídia. A corredora não tinha nada a dizer, deixando seus comentários à corrida que ganhou: eu consegui a liderança nos 400 metros e acabei com eles, eles não conseguiram acompanhar. Eu comemorei os últimos 200 metros porque eu sabia, cara.

Zuma, falando para uma nação ofendida, foi mais ousado em sua fala. Ele disse que o governo havia escrito à Associação de Federações Atléticas (IAAF, sigla em inglês), corpo governante da corrida mundial, expressando nossa decepção com a forma com que o assunto foi tratado.

O anonimato geralmente é dado durante a investigação da IAAF. Uma coisa é averiguar se um atleta possui ou não vantagens injustas sobre os concorrentes, disse Zuma. Mas é algo totalmente diferente humilhar publicamente uma atleta honesta, profissional e competente.

Lamine Diack, presidente da IAAF, admitiu que a confidencialidade foi violada chamando o fato de lamentável e pediu um inquérito. Mas sua admissão não acabou com a ofensa.

A África do Sul é o país mais rico do continente. Marcado pelo apartheid, agora é uma jovem democracia que, de muitas formas, ainda está tentando encontrar seu caminho. O governo ainda é vulnerável a críticas. No próximo ano, o país será a sede da Copa do Mundo, a primeira na África. Frequentemente, as pessoas aqui falam como se o resto do mundo ¿ especialmente o ocidente ¿ esperasse que o evento fosse um fracasso, confirmando todos seus preconceitos negativos.

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Homem na multidão mostra bandeira da África do Sul
Similarmente, a ofensa à Semenya é visto como outro esforço para humilhar o sucesso africano. Mais uma vez, foi falado em racismo durante a recepção na terça-feira, um evento que pareceu menos uma explosão de entusiasmo espontâneo de fãs de esportes do que uma recepção coreografada de profissionais políticos. Muitos na multidão, no aeroporto, faziam parte de afiliados do Congresso Nacional Africano governante. Outros partidos políticos mandaram contingentes menores.

Uma comemoração adicional foi feita no estacionamento do aeroporto. Semenya tinha pouco a dizer no pódio, exceto um oi, pessoal. Mas Julius Malema, líder da liga jovem ANC, fez uma observação sobre a demografia da multidão. Onde estão os sul-africanos brancos para receber Caster?, ele queria saber.

Uma história antiga de controvérsias tem sido um jogo de adivinhação sobre quem reclamou à IAAF sobre Semenya. Novas histórias por aqui têm culpado australianos anônimos. Mas na terça-feira, Leonard Chuene, presidente do Atletismo da África do Sul afirmou que evidências secretas mostraram que o denunciador era da África do Sul e Malema acrescentou que era uma instituição midiática.

Chuene, que dirige o programa de corrida do país, tem sido a voz que lidera o desafio contra a IAAF, deixando sua posição no quadro da federação por causa do fato. Não permitiremos que europeus definam ou descrevam nossas crianças, disse ele, acrescentando que a África do Sul não irá cooperar com nenhum exame de gênero sexual por alguma universidade estúpida de algum lugar.

Os únicos cientistas em que acredito são os pais dessa criança, disse ele.

Na semana passada, os sul-africanos pareciam ver o assunto de forma confusa. Simplesmente olhar o certificado de nascimento da garota, foi o que sugeriram. Levem-na ao banheiro para uma avaliação. Pergunte a sua mãe, a seu pai. Pergunte a alguém como sua tia, Johanna Lamola, que disse: Eu sei o que Caster tem. Eu fui sua babá. Troquei suas fraldas.

Foi apenas nos últimos dias que a mídia começou a noticiar sobre genes e hormônios e toda a ambiguidade envolvendo a determinação do sexo. Os exames da IAAF prescritos à Semenya envolvem relatórios de um ginecologista, um endocrinologistas, um psicólogo, dentre outros.

Examinar o gênero sexual dos atletas foi algo que começou nos anos 1960, quando a União Soviética e outros países comunistas suspeitaram que homens estivessem se inscrevendo em competições femininas. Primeiro, os médicos simplesmente olharam os corpos nus. Mas logo testes cromossômicos foram empregados, muitas vezes fornecendo evidências contrárias ao exame de observação do corpo. A velocista polonesa Ewa Klobukowska passou no teste de nudez, mas então foi impedida de competir em 1967, quando seu material genético mostrava uma história diferente.

Dizem que Semenya, que estuda na Universidade de Pretoria, está traumatizada com a discussão sobre seu sexo. Mas ela já havia suspeitado ser homem. Os garotos costumavam provocá-la sempre, disse sua tia-avó, Martina Mpati. Às vezes, ela tinha que bater neles.

Semenya é da vila Ga-Masehlong, na província de Limpopo. Assim como outras garotas, esperavam que ela buscasse lenha na floresta ao amanhecer. Mas diferente delas, ela ia jogar futebol com os garotos.

Na escolha secundária, Semenya se concentrou em correr. Seu diretor disse ao jornal sul-africano The Star que em alguns encontros de corridas, a outra equipe exigia provas de que alguém com um físico tão masculino fosse uma garota. Mas, cada vez que a avaliavam no banheiro, ela era considerada mulher e a competição era retomada, disse ele.


Por BARRY BEARAK

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