Inverno rigoroso castiga crianças refugiadas no Afeganistão

Após fugir da guerra, afegãos enfrentam o frio em acampamentos que registraram 22 mortes de crianças só em janeiro

iG São Paulo |

As seguintes crianças morreram de frio em Cabul nas últimas três semanas, depois de suas famílias terem fugido das zonas de guerra do Afeganistão para campos de refugiados da capital:

- Mirwais, filho de Hayatullah Haideri. Com um ano e meio, ele tinha apenas começado a aprender a andar segurando nas estruturas da barraca da família antes de se deitar com as costas no chão lamacento e congelado.

- Abdul Hadi, filho de Abdul Ghani. Ele nem sequer tinha um ano de idade e já estava tentando ficar em pé, embora seu pai tenha dito que nos últimos dias ele parecia mais frágil do que o normal.

- Naghma e Nazia, filhas gêmeas de Musa Jan. Elas tinham apenas três meses de idade e estavam começando a engatinhar.

- Ismail, filho de Juma Gul. "Ele nunca passou um dia de calor em toda a sua vida", disse Gul, “Nem um dia sequer.” Ele viveu uma vida curta de um mês.

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Crianças tentam se aquecer perto do fogo no campo de refugiados de Nasaji Bagrami, em Cabul (29/01)

Estas crianças estão entre as pelo menos 22 que morreram no mês passado, uma época de frio inesperado e tempestades de neve. As mortes, que oficiais do governo vêm tentando encobrir, têm feito com que alguns trabalhadores voluntários da região reflitam melhor sobre os acontecimentos.

Após 10 anos de uma grande presença internacional , com cerca de dois mil grupos de auxílio humanitário, pelo menos US$ 3,5 bilhões de ajuda e US$ 58 bilhões de investimentos no desenvolvimento, como é possível que crianças estejam morrendo de algo tão previsível - e administrável - como o frio?

"O fato de que haja inverno todos os anos não deveria ser uma surpresa", disse Federico Motka, cujo grupo alemão Welthungerhilfe é um dos poucos que trabalham nestes acampamentos que os trabalhadores humanitários chamam de assentamentos informais de Cabul - uma vez que descrever o que eles realmente são, campos de deslocados ou refugiados de guerra, seria um assunto politicamente sensível. O governo afegão insiste que os moradores não apenas deveriam como poderiam voltar para suas casas, mas os moradores dizem que isso seria muito perigoso.

As mortes ocorreram em dois dos maiores acampamentos, Charahi Qambar (oito mortes relacionadas com o frio) e Nasaji Bagrami (14 mortes). Ambos foram tomados em grande parte por refugiados das áreas de combate, como a província de Helmand. Algumas pessoas já vivem nos maiores acampamentos há quase sete anos, outras chegaram no ano passado.

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"Existem 35 mil pessoas nos maiores acampamentos localizados no centro de Cabul, vivendo sem aquecimento ou eletricidade no meio do inverno, o que classifica uma crise humanitária", disse Michael Keating, coordenador humanitário da ONU no Afeganistão. "Não acredito que as questões humanitárias sejam suficientemente compreendidas por aqui. Existem muitas pessoas que realmente estão passando por grandes dificuldades."

A Organização das Nações Unidas e grupos humanitários importantes começaram a promover no último sábado o Apelo Humanitário Consolidado, pedindo a grupos de doadores e governos a soma de US$ 452 milhões em ajuda para o próximo ano, uma redução de 22% do apelo feito no ano passado, que foi de US$ 582 milhões.

Fundos muito maiores estão disponíveis para a ajuda ao desenvolvimento - a assistência não-emergencial para fazer coisas como construir escolas e melhorar a infraestrutura do país.

Para muitas das pessoas que vivem nos maiores acampamentos de Cabul, no entanto, a política internacional humanitária as submete a uma situação impiedosa.

Os maiores acampamentos não se qualificam para receber ajuda de desenvolvimento porque são vistos como instalações temporárias - e muitos oficiais afegãos se opõem à sua presença. Por outro lado, injetar mais dinheiro para auxiliar os maiores acampamentos iria encorajar as pessoas a permanecer neles e talvez até mesmo atrair mais pessoas.

Por outro lado, por os maiores acampamentos estarem em um estado de "emergência crônica", a maioria dos doadores acredita que eles já não fazem mais parte de uma crise humanitária.

"As pessoas parecem pensar que você não pode chamar algo de emergência se estiver acontecendo há 10 anos", disse Julie Bara, da Solidarités International, um grupo francês que tem um programa limitado de ajuda alimentar de emergência e saneamento nos maiores acampamentos. "Mas na verdade você pode.”

A organização pesquisou as taxas de mortalidade nos maiores acampamentos nos últimos meses. Entre as crianças menores de cinco anos, segundo Bara, a média de mortes nos maiores acampamentos é de 144 por cada mil crianças, uma taxa surpreendentemente alta, mesmo para o Afeganistão, que já possui a maior taxa de mortalidade infantil do mundo.

Isso significa que uma em cada sete crianças nos maiores acampamentos de Cabul não irá sobreviver até o seu sexto aniversário. Todas as 22 crianças que morreram tinham menos de cinco anos de idade.

Normalmente os invernos em Cabul são moderados para uma cidade que é parte de um país montanhoso, mas este não foi o caso este ano. Foi o mês de janeiro mais frio das últimas duas décadas, de acordo com Mohammad Aslam Fazaz, vice-diretor da agência nacional de desastres. Na maioria das noites, as temperaturas chegaram a 20 graus negativos.

“Não existe uma estratégia muito definida para ajudar essas pessoas", disse Mohammad Yousef, diretor-geral do Aschiana, um respeitado grupo de ajuda do Afeganistão, que fornece educação e outros serviços em 13 dos maiores acampamentos. "Eles não têm acesso a muitas coisas - saúde, educação, alimentação, água, saneamento. Eles não têm sequer uma oportunidade de sobrevivência."

A Aschiana fornece quatro professores para o acampamento de Qambar Charahi, onde são a única presença humanitária. Os moradores dizem que havia a distribuição de alimentos pelo Programa Alimentar Mundial, mas que ele foi interrompido no ano passado. Um porta-voz do programa de alimentação, Silke Buhr, disse que a agência atualmente está garantindo a distribuição de alimentos em Cabul apenas para grupos vulneráveis, como viúvas e deficientes.

Nos acampamentos mais atingidos, mesmo que os homens consigam encontrar trabalho diário ou ganhem a vida como vendedores ambulantes, o salário é tão baixo que eles têm de escolher entre comprar comida ou combustível, geralmente lenha. "Você pode até não morrer de fome, mas vai morrer de frio", explicou um pai.

Quando se trata de crianças, no entanto, isso não é necessariamente verdade. Crianças mal alimentadas são muito mais propensas a ter hipotermia e doenças.

Cabul foi atingida por duas nevascas pesadas nos dias 15 e 22 de janeiro, que pioraram a situação dos desabrigados que vivem em acampamentos de barracas sobre chão batido, molhado e lamacento. A combinação da umidade com o frio é mortal.

No dia 15, o pai de Mirwais, Hayatullah Haideri, acordou às 5h com a chamada à oração do acampamento Qambar Charahi, e encontrou seu filho rígido como uma tábua.

"Ele estava com uma coloração escura, como uma folha congelada, e dava para ver que estava congelado só de olhar para ele", disse ele.

Ele e sua esposa ainda têm cinco outros filhos.

"Minha mulher vive me dizendo, 'Você tem que fazer algo para salvar os nossos outros filhos, que também morrerão com este frio'", disse ele. "Mas o que é que eu posso fazer?"

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Pai e filho tentam se aquecer em campo de refugiados em Cabul, no Afeganistão (03/02)

Naquele mesmo dia, no mesmo acampamento, Abdul Ghani viu que seu filho Abdul Hadi estava com febre e chamou uma ambulância. Porém, os trabalhadores de resgate se recusaram a responder. "Eles disseram que estava muito frio", contou.

Abdul Hadi entrou debaixo de um cobertor com sua mãe, mas não havia nenhum aquecimento em sua cabana e a terra debaixo deles estava molhada por causa da neve. Quando seus pais tentaram despertá-lo mais tarde, Abdul Ghani disse: "Ele estava congelado."

No acampamento Bagrami Nasaji, onde foram registradas 14 mortes por causa do frio, de acordo com um representante do acampamento, Mohammad Ibrahim, duas famílias perderam dois filhos cada.

Nascidas no mesmo dia, as gêmeas idênticas Naghma e Nazia morreram na mesma noite do dia 15 para o dia 16 de janeiro.

As crianças estavam debaixo dos cobertores, dormindo com os demais integrantesde sua família. Mas os moradores do acampamento explicaram que as crianças ainda são muito pequenas e fisicamente incapazes de manter os cobertores puxados firmemente em torno delas e são muito novas para pedir ajuda. Então, se não há aquecimento na casa e elas adormecem, elas morrem de frio.

"Os adultos sabem como se manter aquecidos, mas as crianças muito novas não", disse Mualavi Musafer, um mulá do acampamento Qambar Charahi. Seu sobrinho foi uma das crianças que morreram de frio, disse ele.

Mohammad Ismail, um refugiado do distrito de Sangin, um dos piores lugares na província de Helmand, também perdeu dois filhos, um para a primeira nevasca - sua filha Fawzia, 3 - e um para a segunda - seu filho, Janan, 5. Agora, ele e sua mulher têm dois filhos ainda vivos, um bebê e sua filha mais velha, 7, chamada Tila.

"A noite inteira eles choram por causa do frio", disse Ismail. "Tila sente falta de seu irmão."

As crianças estão enterradas sem lápides em um pedaço de terreno baldio que se tornou o cemitério do acampamento Nasaji Bagrami. Tila conhece o lugar.

"Ela vai lá todos os dias para ver seu irmão", disse o pai.

Por Rod Nordland

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