Insatisfação contribui para avanço da extrema direita no norte francês

Frente Nacional encontra apoio em áreas prejudicadas pela pós-industrialização, em que problemas econômicos são os mais incômodos

The New York Times |

A pequena cidade de Abbeville, no norte da França, tem poucos imigrantes e um baixo índice de criminalidade. Mas nas últimas eleições locais o candidato da Frente Nacional, de extrema direita, conseguiu ganhar do presidente Nicolas Sarkozy no primeiro turno de votação e, em seguida, conquistou 30,2% dos votos no segundo turno. Ele acabou perdendo para um socialista.

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A estação de trem de Abbeville, na França

Com a eleição presidencial a menos de três meses de distância, o partido de Sarkozy teme os mesmos resultados, mas dessa vez em uma escala nacional. O presidente enfrenta uma forte concorrência da direita da Frente Nacional e sua líder, Marine Le Pen , 43, e seu partido está preocupado que ela possa eliminar o atual presidente no primeiro turno das eleições no dia 22 de abril.

O que é mais surpreendente é o quão bem ela e seu partido estão não apenas no sul da França, onde a imigração e o islamismo radical são questões tradicionais, mas também no norte do país, onde as questões são mais econômicas, como o desemprego, o fechamentos de fábricas, a concorrência de países dentro da União Europeia, como a Polônia e a Eslováquia, e do exterior, particularmente a China.

Em Abbeville, uma cidade com uma população de 25 mil localizada perto do Rio Somme, desempregados que se sentem traídos pela UE, pela globalização e pela desindustrialização não estão procurando soluções no Partido Socialista, mas sim na Frente Nacional, que promete uma espécie de foco patriota em relação aos empregos franceses, ao orgulho francês e ao dinheiro francês. Alguns que já votaram no Partido Comunista agora se juntam a outros que apoiam os partidos de direita - como os amantes da caça e pesca, que também são muitos na região - para apoiar Le Pen.

E existem, obviamente, aqueles que insistem que a França está sendo poluída pela imigração e invadida pelo Islã. O anti-semitismo, porém, um tema subjacente do fundador do partido, Jean-Marie Le Pen, foi repudiado por sua filha. Ela se concentra mais no Islã e naqueles que, segundo ela, se recusam a assimilar os hábitos, as leis e a cultura franceses, que incluem o secularismo e a igualdade entre os sexos.

"Os motivos existentes para votar na Frente Nacional são diversos", disse Nicolas Dumont, 35, o prefeito socialista de Abbeville. "Pode ser uma maneira de dizer 'parem com isso' ou pode ser uma maneira de 'expressar raiva'", disse, usando um termo vulgar.

"É uma maneira de fazer as coisas irem para frente", acrescentou. "É o grito de socorro das vítimas, de pessoas que pensam que podem encontrar soluções fáceis para as dificuldades."

Dumont, eleito em 2008, é uma estrela Socialista local. Ele acha que os esforços de Sarkozy para atrair os eleitores da Frente Nacional, que funcionaram na eleição de 2007, desde então serviram apenas para normalizar o partido e seu discurso. "Há uma porosidade de temas e formas de falar sobre esses temas que acabaram com certas inibições", disse.

"Meu medo de verdade é que a senhora Le Pen não fique em segundo lugar na primeira rodada, mas sim em primeiro", disse Dumont. Sua esperança, claro, é que o candidato do Partido Socialista, François Hollande, chegue ao segundo turno no dia 06 de maio.

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Le Pen, por ser mulher e ser uma novidade no partido, e por ter menos histórico do que seu pai, facilitou para que os eleitores a apoiassem, disse Dumont.

A província de Picardy, que fica no norte do país, continua a ser importante para a indústria francesa, mas Abbeville não. Existem poucos imigrantes na região porque existem poucas grandes fábricas - uma das últimas, a Beghin-Say, de açúcar, fechou em 2009. O motivo, admite Dumont, como acusa a Frente Nacional, é a "União Europeia" – as cotas de açúcar de beterraba foram partilhadas entre os novos membros da UE, reduzindo a necessidade de produção francesa.

"A Frente Nacional não precisa de propaganda, eles atraem as pessoas naturalmente como um voto de protesto", disse Robert, 56, um motorista de ônibus que preferiu não fornecer seu sobrenome. "As pessoas estão descrentes", disse, enquanto comia um kebab na hora de seu almoço. "Nós não acreditamos mais nos políticos. Existe uma rejeição da classe política. As pessoas estão recusando a direita e a esquerda e estão partindo para os extremos."

Eric Rambure, 38, disse que "o sistema está estragado". Ele não vai votar; sua esposa não consegue um emprego e seu sogro foi demitido. "Todo mundo está preocupado", disse. "Não há trabalho."

Jean-Yves Camus, um analista político que é especialista na Frente Nacional, disse que o partido foi o mais forte defensor do controle do Estado na Europa e assim atraiu uma geração que chegou a presenciar a expansão econômica da década de 1950 e seu declínio atual.

Ele permanece como "o último partido a representar um renascimento do Estado, com base no valor industrial e na injeção de dinheiro público", disse Camus, dando a impressão para alguns de que se trata de um partido verdadeiramente herdeiro do gaullismo.

O jornal de esquerda Liberation causou um furor na região no mês passado com um longo artigo sobre Abbeville, descrevendo-a como uma típica cidade francesa, branca, pacífica e provinciana, que agora decidiu abraçar a Frente Nacional. A manchete da primeira página do jornal local, Le Journal d'Abbeville, fez a seguinte pergunta: "Abbeville, uma cidade de racistas e caipiras?"

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Michel Chevalier e Christian Mandosse, ativistas do partido de extrema direita Frente Nacional, em Abbeville, França

Até mesmo os líderes locais da Frente Nacional acharam que o artigo foi um pouco exagerado. Michel Chevalier, 63, tesoureiro do partido no distrito de Somme afirmou que o artigo veiculou "uma visão muito parisiense". Segundo ele, "existem muito poucos caipiras e racistas na cidade". As pessoas estão se voltando para o seu partido "porque estão decepcionadas com os políticos e os sindicatos", disse. "Os franceses estão fartos com esse sistema que faz apenas promessas e não as cumpre.”

Os trabalhadores "estão cansados de sustentar as pessoas que não estão trabalhando e eu não estou falando apenas dos imigrantes", disse. Mas a imigração é um problema, disse seu colega, Christian Mandosse, 51, que tem um site aliado ao partido. Os franceses estão cansados de "importar os desempregados e suas famílias", especialmente aqueles que não compartilham seus hábitos, "cultura, valores e religião" - em outras palavras, aqueles que são muçulmanos e não se adaptam facilmente.

Chevalier, que votou a favor do socialista François Mitterrand para presidente, disse que "as pessoas estão tão fartas que existe um potencial para uma revolução política". Os dirigentes do partido denunciaram o que disseram ter sido um esforço do partido de Sarkozy em negar a Le Pen assinaturas suficientes para que ela conseguisse participar da eleição.

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"Não é uma democracia quando você priva as pessoas do direito de falar ou de votar em quem querem", disse Mandosse.

Eles acreditam que Le Pen vai ter ao menos 25% dos votos no primeiro turno e poderia ficar na frente de Sarkozy e até mesmo de Hollande.

Emanuel Ozanon, 38, que administra o restaurante Le Charlotin na cidade, disse estar considerando votar em Le Pen. "Há muita insegurança e tristeza, uma sensação de que nada mais tem solução e isso demonstra que é hora para uma mudança de verdade", disse. "Eu não sou uma pessoa muito política. Mas eu entendo o suficiente para saber o que está acontecendo. Hollande não vale nada e Le Pen quer mudar as coisas. "

Dumont admite que os eleitores estão sem paciência. "Houve uma perda de fé na capacidade que a direita e a esquerda tem de mudarem suas vidas", disse. Parte do erro, ele admite, foi do seu próprio Partido Socialista - "desde 1995 não sabemos como falar com essas pessoas. Mas o que nos ajuda é a impopularidade de Sarkozy".

"Existe uma vontade verdadeira de rejeitar Sarkozy e tirá-lo do poder, como eu nunca havia presenciado", disse, com um sorriso. "É mais fácil falar 'pare' do que dizer 'tente de novo."

Por Steven Erlanger

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