Inquieta cidade de Hama testa disposição do governo da Síria

Palco de massivos protestos contra Bashar al-Assad, cidade marcada por mortes e prisões viveu luta entre governo e oposição islâmica em 1982

The New York Times |

Cheios de zelo, ativistas dizem ter criado dezenas de postos de controle na cidade síria de Hama, que alerta sobre a chegada das temidas forças de segurança com gritos de "Deus é grande" e ergue barricadas de pneus em chamas e lixo para bloquear o caminho. 

Hama, local dos maiores protestos e ainda assombrada pelas memórias de uma repressão feroz uma geração atrás, surgiu como um desafio poderoso ao presidente Bashar al-Assad. Em poucos dias, os protestos e a resposta incerta do governo ressaltaram a potencial escala da dissidência na Síria, a falta de uma estratégia do governo para acabar com ela e a dificuldade que Assad enfrenta ao tratar as manifestações como simples distúrbios de inspiração religiosa, com apoio estrangeiro. 

Na terça-feira, a cidade foi palco de conflitos com ao menos 21 mortos. A quarta-feira foi marcada por novos choques e prisões de ativistas. Hama ainda está muito longe de ser o território liberado que os mais fervorosos declararam ter criado, com mais esperança do que evidências.

AFP
Imagem de vídeo publicado no YouTube que diz mostrar prostestos em Hama na sexta-feira (1º/07)
Mas uma decisão do governo no mês passado de retirar suas forças de segurança cedeu as ruas aos manifestantes, que tentaram criar um modelo alternativo para a repressão pesada que é marca registrada do governo do partido Baath. Moradores entrevistados por telefone disseram que começaram a trabalhar coletivamente em atos tão pequenos como a limpeza de uma praça do centro da cidade e tão grandes como a organização da defesa de alguns bairros. 

Mais criticamente, as cenas das enormes manifestações pacíficas da sexta-feira, que refletem a dissidência no Egito e na Tunísia do início deste ano, têm servido como uma crítica persuasiva da versão do governo dos eventos, que haviam conquistado grandes segmentos da sociedade síria. Ao longo de quatro meses de levante, o governo apontou para a morte de centenas de seus soldados, em particular nos eventos ainda obscuros em Jisr al-Shughour, para argumentar que o tumulto é o produto de radicais islâmicos violentos que têm o apoio de estrangeiros. 

Hama permaneceu pacífica durante semanas, mas na segunda-feira forças de segurança voltaram para os seus arredores e realizaram inúmeras prisões. Essas forças mataram pelo menos 11 na terça-feira em novas ações, disseram os ativistas. Cada incursão foi executada contra uma oposição que carregava apenas o que um ativista chamou de um arsenal medieval: pedras, sacos de areia, arcos e flechas.

"Não há solução fácil para Hama”, disse Peter Harling, um analista do International Crisis Group baseado em Damasco. "O regime fez progressos significativos em termos de convencer as pessoas na Síria e no exterior de que havia um componente armado neste movimento de protesto e que suas forças de segurança buscavam eliminar apenas este componente", acrescentou. "Quase duas semanas depois, o regime se vê envolto em exatamente o oposto, uma vez mais minando seu próprio argumento”. 

Desde que a revolta eclodiu em meados de março, o governo oscilou entre a repressão dura e a reforma provisória. Hama tem emergido como um microcosmo dessa estratégia mutável, que tem surpreendido até mesmo alguns dos defensores do governo. 

Depois dos protestos em Hama no dia 3 de junho, quando as forças de segurança mataram até 73 pessoas e prenderam centenas de outras, moradores, diplomatas e oficiais dizem que um acordo foi fechado para permitir os protestos, desde que não houvesse danos às propriedades. Nas semanas seguintes, os protestos ganharam força, culminando com as cenas de sexta-feira que sugerem que, pelo menos em Hama, a oposição ao governo está longe de ser marginal. 

Estratégia

Desde então, a estratégia do governo mudou novamente. O governador responsável por Hama, Khaled Ahmad Abdulaziz, foi demitido no sábado. Seu suposto substituto, Walid Abaza, é um ex-chefe de segurança política que acredita-se ter participado dos acontecimentos de fevereiro de 1982, quando uma luta entre o governo e uma oposição islâmica armada culminou em Hama. Ao longo de quatro semanas, o governo retomou a cidade central da Síria, matando pelo menos 10 mil pessoas e destruindo partes da cidade velha. Centenas de soldados também foram mortos. 

Embora as forças de segurança tenham ocasionalmente entrado na cidade no mês passado, elas voltaram em peso pela primeira vez na segunda-feira, realizando dezenas de prisões. A intenção, no entanto, não está clara. Ao contrário de Daraa, cidade do sul da Síria onde a revolta começou, os militares permaneceram nos arredores de Hama. Depois de um suposto aumento de forças no fim de semana, alguns ativistas disseram que dezenas de tanques têm sido retirados da região, em mais um confuso sinal. 

"O regime quer prender todos os manifestantes ativos e principais organizadores das manifestações antes desta sexta-feira ", disse um estudante de 23 anos chamado Basil. Como muitos na cidade, ele insistiu no anonimato parcial. Mas acrescentou: "O povo em Hama não vai esperar que eles venham e nos prendam em nossas casas”. 

O simbolismo do passado Hama pode ser a razão da hesitação do governo. Logo após os acontecimentos de 3 de junho, ele retirou alguns de seus agentes de mão pesada da cidade, aparentemente tentando evitar o agravamento da tensão em uma cidade onde a repressão carrega tal ressonância. Desde sexta-feira, segundo ativistas, a situação está ainda mais embaralhada, conforme o governo procura por bodes expiatórios. 

1982

Até mesmo alguns moradores de Hama sentem que o passado lhes oferece alguma segurança. Os eventos de 1982 são mencionados em quase todas as entrevistas, menos como uma lição sobre o preço da oposição e mais como um aviso a Assad, que antes do levante tinha conseguido acabar com a maior parte da fachada severa da polícia estadual que tinha caracterizado o governo de três décadas de seu pai. Um movimento em Hama minaria o argumento que ele e seus oficiais têm repetido continuamente: de que não se opõem à dissidência, contanto que seja pacífica. 

"Tudo depende do governo", disse Nabil Samman, economista e diretor do Centro de Pesquisa e Documentação de Damasco. "Se o governo decidir usar a solução de segurança, haverá um problema e haverá derramamento de sangue”.  

Relatos da cidade são difíceis de confirmar, mas os moradores disseram na terça-feira que a administração do governo, em parte, deixou de funcionar. Dois moradores disseram que a coleta de lixo parou. Vários disseram que os policiais de trânsito desapareceram das ruas. Funcionários das operadoras responsáveis pelo serviço de água e energia elétrica, segundo eles, pararam de frequentar seus escritórios, e os bancos estatais permaneceram fechados na terça-feira. 

Neste vácuo, surgiram os grupos de bairro, e em repetidas ocasiões na segunda e terça-feira, eles enfrentaram as forças de segurança com pedras e barricadas.

Vários disseram ter aprendido a lição de Daraa, onde as forças do governo bateram em retirada apenas para voltar com ainda mais vigor até, eventualmente, retomar o controle. "Se ficarmos sentados em nossas casas, esperando que os soldados e os homens de segurança cheguem, eles farão o que quiserem conosco", disse um funcionário do governo de 40 anos de idade chamado Ameen. 

*Por Anthony Shadid

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